Opinião

Ensino bilingue facilita a aprendizagem do português

A gestora da escola do Ensino Básico (EB) da Ponta d’Água, Filomena Vaz, garante que o projecto-piloto do ensino bilingue, português e crioulo, implementado na turma do primeiro ano da sua escola, tem facilitado a aprendizagem e o domínio do português. Vaz avança, inclusive, que o Ministério da Educação e Desporto (MED) pondera abranger o projecto para mais escolas da Praia e do interior de Santiago, devido ao seu “sucesso”.

As escolas da Ponta d’ Água (cidade da Praia) e de Flamengos (Calheta, São Miguel) foram escolhidas para acolherem o projecto-piloto do ensino bilingue, em Cabo Verde, num contexto de trabalho de defesa de mestrado, da cabo-verdiana residente em Portugal, Ana Josefa.

“Posteriormente, Ana Josefa passou para tese de doutoramento, na vertente linguística, o bilinguismo. Ela viveu a experiência de ver crianças portuguesas a falarem o crioulo e ao ver que conseguiam aprender bem o crioulo, uma língua que não era delas e sem perder o português, ela veio trazer essa experiência para Cabo Verde”, conta Filomena Vaz.

Entretanto, o intuito inicial da investigadora cabo-verdiana “era sempre” fazer a sua dissertação. Para tal, escolheu como públicos alvo uma escola do meio rural (Flamengos), por ser a terra dos seus pais, e uma do meio urbano, pólo de Ponta d’Água, por causa da afinidade.

Primeiro impacto
Impressionada com os primeiros resultados, Filomena conta que Ana Josefa tentou e conseguiu junto do MED um parecer para implementar o projecto, o que aconteceu, já no início do ano lectivo 2013/14. “Abraçámos o projecto, recebemos formação na área da língua cabo-verdiana e depois com os professores já capacitados, começámos a trabalhar. Para o efeito, foram escolhidos um professor formado em estudos cabo-verdianos e portugueses, que dá aulas em crioulo e uma professora que dá aulas em português, exclusivamente para a turma do primeiro ano”, explica.

No início, segundo Filomena, a reacção foi de muita interrogação e dificuldades por ser algo novo, mas, “a fé e a entrega total quebraram as barreiras existentes”. “O primeiro passo é acreditar. Começamos a trabalhar com o seguimento muito de perto do MED, com o envolvimento dos professores da escola e então verificamos que era possível. Dali, com ânimo, arrancou-se com a turma bilingue na escola de Ponta d’Água”.

Antes da implementação foi aplicado um questionário aos pais e encarregados de educação dos alunos, onde todos concordaram com a introdução do projecto.

“No decorrer das aulas, vimos que as crianças estavam a gostar das duas línguas. E hoje posso afirmar que os alunos do 1º ano, alvos do ensino bilingue, falam melhor o português do que as outras turmas dessa escola, que só aprendem o português”, garante aquela gestora.

“Na qualidade de coordenadora pude acompanhar de perto na sala e vejo que as crianças estão a gostar e sabem definir bem as duas partes. Posso dizer que a língua crioula veio servir de suporte para o melhoramento do português. A turma bilingue é uma turma de sucesso porque as crianças falam com fluidez as duas línguas”, reforça.

Contudo, vale realçar que a língua que predomina, na sala de aula, é o português. Por isso, a gestora é da opinião que a língua portuguesa não está em risco, ao contrário do que se teme, e que em Cabo Verde, ela só precisa ser praticada, mas, valorizando o crioulo, que é a base para a aprendizagem de outras línguas.

Dificuldades
 A turma de 34 alunos é dirigida por dois profissionais que dão aulas em simultâneo, dividindo o período de manhã; e, assim, das 8 às 10, pode entrar o professor de crioulo e no segundo tempo a professora de português, sempre seguindo o curriculum básico do ensino cabo-verdiano.

Entretanto, segundo o professor Fernando Jorge Martins (crioulo), o principal constrangimento da turma bilingue, que também é das outras turmas, é o número de alunos por sala. “Acredito que se a turma tivesse menor número de alunos havia ainda mais chances de aprendizagem. Quanto ao projecto bilingue, o que posso dizer é que é um sucesso que deveria ser cobiçado a nível nacional, pois o crioulo é a base para a aprendizagem de outras línguas”, diz.

Fernando Martins explicou ainda que, tendo em conta que nós pensamos em crioulo e depois traduzimos para o português, impõe-se a necessidade de um conhecimento profundo na língua mãe.

Futuro
O certo é que graças ao “sucesso” deste projecto pioneiro, Filomena Vaz avança que há previsão do MED em alargar o ensino bilingue para mais uma turma da escola de Ponta d’ Água. Isto é, a turma que transita para o segundo ano vai continuar com o projecto e a turma que entra vai passar também pela experiência. “Há também a possibilidade de abranger as outras escolas do EB, dentro e fora da Praia”.

O pólo número três de Ponta d’ Água tem 890 alunos, cerca de 30 turmas, 34 professores, e, de acordo com a sua gestora, “é uma escola grande e com grandes potencialidades”.

Texto originalmente publicado no jornal A Nação (Cabo Verde) a 26 Junho 2014