Emicida, o brasileiro que aproxima a poesia do rap

É o rapper mais conhecido neste momento no Brasil. Actuou a semana passada em Portugal e falámos com ele, a propósito dos problemas por resolver no país e do álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui.

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É uma das principais revelações brasileiras dos últimos anos e esteve a semana passada na Casa da Música do Porto e no festival Super Bock Super Rock. Emicida é nome de rapper. Cresceu em São Paulo, ouvindo rap e samba em casa. O rap levou a melhor e começou desde cedo a lançar rimas nas disputas de improvisação.

A palavra sempre foi a sua motivação. E os seus primeiros trabalhos adoptaram o formato de mixtape. Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida até que eu Cheguei Longe e Emicídio foram lançados de forma independente e desde então a sua trajectória tem sido ascendente. A presente digressão é a segunda pela Europa e sucede ao lançamento do seu primeiro álbum oficial, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui. Com participações de Rael, Pitty e Wilson das Neves, trata-se de obra diversa, assente no fraseado e no balanço rítmico do rap, com o centro da acção em letras de consciência social e política.

Tem muita visibilidade no Brasil, mas na Europa ainda não é muito conhecido. É de supor que aqui tem de fazer um esforço maior para conquistar as pessoas. Como é que vive esse facto?

Quando se sai do nosso país, e do conforto daquilo que já se alcançou, é como começar do zero. Mas vejo isso de forma tranquila, porque sei que estou a abrir novos horizontes e do ponto de vista artístico é uma experiência interessante. Depois de tudo o que já alcancei no Brasil é uma espécie de recomeço, num outro ambiente, sem ter que gerir a expectativa da plateia, o que permite uma concentração maior no espectáculo. Tenho essa liberdade. Mas tenho voltado sempre optimista, porque a resposta tem sido positiva. Temos sido felizes nessas digressões.

Sendo a palavra determinante na sua música como é actuar para plateias que não percebem português ou, como em Portugal, onde nos podem escapar expressões mais codificadas?

Só entendi a pressão do idioma a primeira vez que toquei fora do Brasil. Foi nos EUA. Só chegando lá é que fiz essa reflexão, olhando para as pessoas e percebendo que elas não entendiam porra nenhuma do que estava falando. A música se comunica por dois campos. Quando opera no campo racional é importante perceber do que minhas letras tratam. Mas tem também o campo emocional que opera sobre o estado de espírito de cada um. Quando toca num local onde não percebem o seu idioma você tem de explorar mais a performance. Tem de ser mais expressivo, para que a barreira do idioma seja atenuada. E isso influenciou muito os concertos, mesmo dentro do Brasil. Antes era meio introspectivo. Depois aprendi a comunicar de outras maneiras.

Nessa relação entre palavra e estrutura musical, o que é que é mais determinante quando está em preparação criativa?

As letras surgem primeiro. A música vai surgindo depois. Em geral vou apontando fragmentos, anoto coisas e vou organizando ideias. Já foi diferente. Sentava-me e me obrigava a fazer com que a música saísse. Mas não funciona. Já tentei criar rotina e criar música das oito da manhã às seis da tarde mas a inspiração é muito humana, oscila de acordo com o estado de espírito.

Inicialmente lançou duas mixtapes e depois um EP. Dá ideia que durante anos operou à margem dos mecanismos tradicionais. Aliás uma vez disse que o álbum só surgiu para satisfazer o mercado tradicional da indústria da música.

A minha carreira foge do padrão tradicional no Brasil. Em primeiro lugar porque me tornei conhecido sem ter qualquer material físico editado. As pessoas conheciam o meu nome através das “batalhas de Freestyle”, mas não tinham acesso à música e aí isso é delicado, porque pode dar a ideia que você conquistou um espaço, quando está apenas flutuando.

Essas disputas de improviso eram filmadas para a internet? 

Sim, a internet foi fundamental. Os meios de comunicação no Brasil ainda são muito conservadores em relação ao hip-hop. Não existe uma abordagem ampla sobre o que acontece. Estão mais interessados sobre o que acontece nos EUA e acabam por não compreender que tem uma coisa grandiosa acontecendo ali que pode dar frutos artisticamente. Essa fase do “freestyle” passou em branco para a imprensa, mas não para o público graças à internet. As pessoas puderam acompanhar essas disputas e aí quando a imprensa percebeu a existência do Emicida, eu já era gigante.

O centro do seu álbum é o hip-hop, mas reflectindo sempre outras influências, do samba ao baile funk. Da mesma forma trabalhou com convidados de gerações diferentes, como Wilson das Neves. Antes já tinha trabalhado com Tom Zé, por exemplo. Ou seja, mais do que delimitar, procura assimilar.

A coisa mais burra que um artista pode fazer é fechar portas para outros artistas que utilizam uma estética diferente da dele. A evolução da arte vem do contacto com outros campos. É importante que conheça arte diferente da minha, para que a consiga absorver. De certa maneira a gente vive samplando as coisas. O hip-hop tem muito disso. Só que às vezes entra num círculo fechado que contradiz a sua própria história. O hip-hop é um género que nasceu pela procura de outras texturas, através de discos de vinil de soul, funk ou jazz. De repente há uma série de pessoas que são conservadoras e dizem que não escutam outro tipo de música, mas essa é uma porta que deve estar sempre aberta. Para mim é fácil ter um amigo como o Tom Zé. Ou o Wilson das Neves. São mestres que tive a honra de conhecer e trabalhar. Os artistas mais novos têm essa energia de querer gritar a sua verdade para o mundo. Os mais antigos já passaram por esse momento e os meios de comunicação já não falam deles da mesma forma, o que cria desconhecimento geracional. Quando Tom Zé lança um disco não se vê na TV ou na capa de jornal.

Quando colabora com Tom Zé, o que aprende e que contributo imagina que pode dar para o enriquecer a ele?

Foi ele que me procurou a primeira vez e acho fascinante a sua forma de criar. É alguém especial. Às vezes liga-me às oito da manhã para falar sobre Aristóteles e eu, que estou acordando, oiço-o atentamente, mas só lá para o meio-dia é que percebo o que se passou ali… [risos]. É muito à frente. O seu intelecto, a sua liberdade criativa, foram coisas que me encantaram. Quando me convidou para o disco dele foi a primeira vez que cantei qualquer coisa que não escrevi. Por norma convidam-me para escrever rima e cantar. Ele não. Disse-me o que tinha de fazer. A música era complexa, contando de forma subtil a história da humanidade e a forma como a música acompanhou essa evolução. No texto do Tom Zé você vai encontrar astrologia, tropicalismo, Grécia ou Aristóteles. Com Seu Wilson a mesma coisa, mas ao nível do ritmo. A maneira como compõe é matemática. A poesia dele é redonda, com as palavras alinhadas de forma elegante.

Durante muitos anos o baile funk foi ostracizado pelas classes médias brasileiras e pelo bom gosto instituído. Como é a relação no Brasil entre o hip-hop e o baile funk?

Infelizmente o hip-hop é muito conservador em relação ao baile funk. O hip-hop reproduz com o funk o preconceito que a sociedade reproduziu com o hip-hop há dez anos, quando era visto como apologista do crime e da violência. Hoje coloca-se o funk nessa mesma caixa. Mas há pessoas de mente aberta. O funk é do Rio de Janeiro e ter entrado em São Paulo já sugere reflexão.

Quando se fala de si pensa-se nas letras de intervenção. Mas alguns dos temas do seu disco revelam uma faceta introspectiva, como Crisântemo, onde aborda a morte do seu pai.

Todas as músicas são sobre o meu ponto de vista. Mas tem uma coisa delicada quando se tem uma música de cunho politico, que é não bater sempre na mesma tecla. O discurso pode tornar-se repetitivo e cansar. O hip-hop precisa de reflectir sobre isso. A nossa luta é pela liberdade, acima de qualquer outra coisa, para que o povo adquira conhecimento para compreender o quão importante é ser livre. A política não pode ser o único tema do hip-hop. Isso é prisão. Neste disco quis desobrigar o hip-hop de ser o género que vai ser militante 24 horas por dia, porque o ser humano não é assim. Eu vou ter momentos que vou rir, que vou chorar, que vou salvar o mundo e outros em que vou querer que tudo se foda. Percebo que o hip-hop brasileiro foi concebido como politico e isso é fascinante, mas temos que revisitar esse tema de livre vontade. Se for obrigação vai-se transformar em marketing.

Nos últimos tempos falou-se imenso do Brasil, pelas manifestações na rua e pelo mundial de futebol. Parece ter-se criado uma imagem para o exterior de crescimento económico e cultura pujante. Por outro lado temos a insatisfação no interior do Brasil. Como é que estas duas imagens coexistem?

O Brasil é um imenso paradoxo. Somos um país extremamente jovem. E temos um campo de miscigenação que talvez seja inédito no mundo. E dentro do contexto do século XXI tudo isso se intensifica porque nunca se teve tanta informação circulando tão rápido. Concretamente em relação à política o assunto é extremamente delicado. A chegada do Lula ao poder trouxe muita auto-estima ao povo brasileiro, porque o país não tinha o hábito de respeitar o Brasil da rua, fora da Academia. Nos dois últimos anos, com as manifestações e a Copa do mundo, quem foi para a rua foram os jovens. No princípio fizeram-no por uma causa nobre, que era luta contra o aumento do ônibus. É importante reflectir sobre isso. Mas é importante que essas pessoas tenham um projecto, para além do protesto, porque senão vira apenas modismo. Não foi o que aconteceu, infelizmente. O movimento Passe Livre que liderou o protesto inicialmente é sério. Tem trabalhado muito em cima desse tema e tem boas propostas, mas chegou um momento em que a meios conservadores perceberam que podiam usar aquela onda de protestos a favor dos seus próprios ideais e virar aquilo contra a Dilma. E foi o que aconteceu. Mas mesmo assim a reeleição da Dilma é quase certa. As camadas populares gostam dela. Sentem que têm emprego e respeito, coisa que não tinham. Na minha geração, quando se saia da escola, não existia a ambição de entrar na universidade. Isso era coisa para ricos. Não era uma coisa para o povo. Hoje não.

Ou seja, na sua perspectiva, a sociedade brasileira continua com lacunas e problemas, mas melhorou nos últimos anos.

Vejo isso claramente. Não podemos retroceder. Mas não é apenas uma questão política. Os problemas do Brasil vêm de duas situações que ficaram em aberto – a escravidão e a ditadura militar. Acabámos com a escravatura, mas lançamo-los para a miséria, sem resguardo nenhum, e isso originou a desigualdade social e a violência urbana. É desse caldo discriminatório que a ditadura militar legitimou a violência policial. E hoje a polícia ainda opera segundo essas ideias. Aprendeu a guardar o património de quem jogou os escravos na miséria. Essas coisas continuam em vigência. Isso é delicado. É sobre isso que devemos pensar. É complexo falar sobre isso, porque no Brasil é como se fossem assuntos resolvidos, mas são páginas em aberto.

As questões de coexistência intercultural não foram todas resolvidas, mas o Brasil continua a ser um exemplo na continuação desse caminho, não lhe parece?

Por um lado temos a fama do país tropical e da cordialidade, e realmente temos isso, mas há ainda muito por fazer. São Paulo é parecido com Paris, no sentido em que pode lá viver o melhor e o pior dia da sua vida, dependendo de onde está… [risos]. Tudo o que tinha sido distribuído do Brasil era o samba, o Pelé e as mulatas. Agora mais pessoas vão conhecendo realmente o país. É um país gigantesco, muito centralizado no Sudeste, o que empobrece muito em termos culturais. O Brasil não conhece o Brasil. O Sudeste vislumbra a Europa e a América do Norte mas desconhece o resto do Brasil. O Sul se considera um pedaço da Europa no Brasil e tudo isso é nocivo para o conceito de nação.

Por falar em chavões, que imagem guarda de Portugal?

Temos uma imagem muito estereotipada. Quando vimos para cá vemos que nem toda a gente tem bigode… [risos]. Conhecer o hip-hop daqui me ajudou. Sam The Kid, Dealema, Valete ou Capicua. E coisas de Angola também, que fui descobrindo a partir do hip-hop português. Há muito tempo atrás, na minha cabeça, só Portugal e Brasil falavam português e quando entrei no universo angolano fiquei surpreso. Angola tem evoluído muito rápido.

Refere muitas vezes que a sua grande procura é aproximar a poesia do rap. O que quer dizer exactamente com isso?

Sim, a minha grande busca é essa. A poesia do rap encanta-me por causa do seu impacto. Mas tento subverter esse impacto não falando só de ódio. E aí oiço os sambistas clássicos do Brasil e penso que deveria usar a poesia do rap para tratar temas que eles abordaram. Gostaria de abordar a realidade do Brasil como um livro de história. E com o rap consegue-se alcançar isso.