Quartel de bombeiros que vai ser demolido custou pelo menos 12,3 milhões de euros

O dinheiro que a Câmara de Lisboa quer encaixar com a venda do quartel de Carnide será sempre inferior aos investimentos que já ali fez e que terá de fazer para realojar os bombeiros e o seu museu.

O quartel a desactivar tem uma década e é o mais moderno em funcionamento na cidade
Foto
O quartel a desactivar tem uma década e é o mais moderno em funcionamento na cidade Miguel Manso

Os 12 milhões de euros que a Câmara de Lisboa inscreveu no seu orçamento deste ano como receita prevista para a venda do terreno em que está instalado o quartel dos bombeiros municipais situado ao lado do Hospital da Luz não chegariam para cobrir os 12,3 milhões de euros, pelo menos, que investiu naquelas instalações.

Caso consiga vender o lote apenas pelo valor base pelo qual ele irá à praça, o município ficará longe de cobrir o investimento já feito e aquele que terá de fazer para adquirir um terreno alternativo e construir um novo quartel. Tal como o PÚBLICO noticiou

, o executivo dirigido por António Costa aprovou no dia 9 deste mês uma proposta que prevê a venda em hasta pública do lote de terreno em que se encontra um quartel da terceira companhia do Regimento de Sapadores Bombeiros (RSB), bem como o museu do regimento e a Sala de Operações Conjunta (SALOC), onde está centralizado o comando de todos os serviços de bombeiros e protecção civil da cidade, que serão demolidos. Embora o orçamento camarário aponte para um encaixe de apenas 12 milhões de euros com essa operação, as avaliações mandadas efectuar pelo município determinaram que a base de licitação da hasta pública venha a ser de 15,8 milhões de euros.

Inaugurado oficialmente em Junho de 2003 pelo então presidente da autarquia Santana Lopes, o quartel, que é o mais moderno e operacional da cidade, só começou a funcionar em pleno no ano seguinte. O museu, que ocupa uma vasta área nos quatro pisos do edifício e dispõe de um espaço de exposição com mais de mil m2, além de auditório, cafetaria e salas de apoio a actividades pedagógicas, só foi aberto posteriormente. A SALOC, por seu lado, começou a funcionar em 2010, tornando-se o coração de Lisboa, no que respeita a situações de emergência relacionadas com a protecção civil.

Embora não sejam conhecidos dados detalhados, as informações divulgadas pela câmara por ocasião da inauguração do e então noticiadas pelos jornais referem que o quartel e o museu, projectados pelo arquitecto Pedro George, custaram 11 milhões de euros. Este montante foi suportado pela Sociedade Gestora do Alto do Lumiar, no âmbito das compensações devidas à câmara pelos terrenos municipais que lhe foram cedidos. A "central de gestão de emergência, meios e recursos", que veio a ser a SALOC e cujo concurso público estava a decorrer, deveria implicar, dizia então a câmara, um investimento adicional de mais 1,3 milhões de euros.

Sendo certo que, além destes 12,3 milhões de euros, a instalação dos bombeiros teve necessariamente outros custos associados à aquisição do próprio terreno (9738 m2), só se pode concluir que um eventual encaixe de 15,8 milhões de euros resultante da venda do lote para o qual o Grupo Espírito Santo (GES) quer alargar o Hospital da Luz ficará muito aquém dos custos directa e indirectamente já suportados pelo município e daqueles que terá de suportar com a aquisição de novos terrenos e com a construção de novas instalações para o quartel e para o museu.

O Hospital da Luz, aberto em 2007, foi projectado pelo arquitecto Manuel Salgado, actual vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa e primo direito de Ricardo Salgado, do GES, que controla a sociedade proprietária daquela unidade de saúde. Os documentos relativos à alteração do plano de pormenor da zona do hospital, que será discutida nesta quinta-feira pela assembleia municipal, referem desde há anos, tal como o fazem os proprietários do hospital, que o lote dos bombeiros se destina à "extensão do Hospital dos Lusíadas", apesar de o município ter decidido agora levá-lo a hasta pública.

De acordo com uma informação escrita fornecida nesta quarta-feira pela autarquia à RTP e divulgada no site da estação, não existe qualquer compromisso com o hospital quanto aos terrenos. A decisão de retirar os bombeiros daquele local foi tomada em 2013, diz a autarquia, "no âmbito do plano de reorganização do dispositivo de segurança de Lisboa, que prevê ainda a construção de outros quartéis na cidade, como por exemplo o novo quartel do Arco do Cego". O mesmo plano prevê a transferência da SALOC para Monsanto e "a construção de um posto de segurança avançado na zona de Benfica/Carnide".

Finalmente, a informação camarária citada pela RTP diz que o actual quartel contíguo ao Hospital da Luz "tem problemas estruturais e está a necessitar de obras de reabilitação profundas que importam em vários milhões de euros". A autarquia acrescenta, quanto ao museu dos bombeiros, que "está a ser estudada a sua integração no conjunto dos núcleos do Museu de Lisboa".