Opinião

Os mercados não jogam golfe

Há uma (nova) cadeira que se parte, e não é só Salgado que cai no chão.

No último sábado, Pedro Santos Guerreiro escreveu no Expresso um longo e excelente texto sobre a queda de Ricardo Salgado e dos Espírito Santo, que vai muito além do simples apontar do dedo ao desvario e à soberba do banqueiro.

O que Santos Guerreiro ali faz, num texto sintomaticamente intitulado “O fim de um regime”, é uma leitura abrangente do desmoronar da cultura da cunha, dos limites do amiguismo e dos problemas inultrapassáveis do capitalismo de compadrio.

Eis uma óptima oportunidade para enfiar Lampedusa no saco, até porque já não se aguenta mais a enésima citação do Leopardo: desta vez não vai bastar que algo mude para que tudo fique na mesma. Com a queda dos Espírito Santo, carregar na maquilhagem não chega para resolver os problemas. A nossa cultura económica vai ter de mudar à força: ainda que o sistema adorasse fingir-se de morto, há uma longa fila de credores a bater à porta do caixão. Os péssimos, terríveis, horríveis e cruéis mercados só querem o nosso dinheiro, não é? É, sim senhor. Mas eles têm uma enorme vantagem: não jogam golfe com Ricardo Salgado.

Eu sei que a narrativa dominante atribui aos mercados o papel de monstros insensíveis, mas deixem-me citar o texto de Pedro Santos Guerreiro: “O credor estrangeiro – às vezes chamam-lhe ‘mercados’ – torna-se accionista à força e vira investidor. É a força mais poderosa que se abateu sobre a economia portuguesa. É ele que escolhe gestão profissional em vez de familiar, e que prefere sempre fluxos de caixa a qualquer outro tipo de retorno, que pode sempre pressionar o pagamento de dividendos em vez de reinvestimento.” Isto é uma revolução na economia nacional, e uma revolução patrocinada pelos malvados “mercados” – o monstro só vê dinheiro, sim, mas antes só ver dinheiro do que só ver compadres.

Claro que um movimento destes implica a menorização dos grupos empresariais portugueses e a implosão dos famosos “centros de decisão nacional” – mas não se pode dizer que, após 40 anos de “decisão nacional”, tenhamos tido um desempenho brilhante na construção desses centros. Durante décadas, não premiámos devidamente o mérito, não fomos competitivos, não arrumámos a casa. Agora vêm outros arrumá-la por nós. O Governo ainda teve alguma força para resistir à troika: o chavão “ir além da troika” nunca passou disso mesmo – um chavão –, e boa parte das reformas nunca saiu do papel. Mas a economia privada não tem a mesma força para resistir à avalanche da dívida. As caixas de robalo acabaram.

Enfim, dizer que se acabaram as caixas de robalos é, porventura, demasiado optimista. Claro que os robalos, os robalinhos e os robalões continuam por aí. Mas a sua vida está mais difícil. É a parte boa da crise e dos cruéis mercados: torna-se mais complicado conceder crédito em função dos olhos de quem o pede, torna-se mais árduo fazer negócios de favor, torna-se demasiado caro patrocinar a incompetência. Não se trata de fazer aqui a apologia de uma qualquer destruição criadora, até porque a falta de dinheiro vai arrastar para o fundo negócios que mereciam uma oportunidade. Trata-se apenas de constatar que durante 40 anos a esquerda protegeu o Estado gargantuesco que patrocinava os negócios privados, e a direita protegeu os negócios privados que eram patrocinados pelo Estado gargantuesco. Vindo de lados aparentemente opostos, sempre se sentaram à mesma mesa. Agora há uma (nova) cadeira que se parte, e não é só Salgado que cai no chão. É o país inteiro. Com estrondo.