ONU diz que morte de civis na Palestina pode configurar "crime de guerra"

Israel não fez o que devia para proteger a vida dos civis, disse Navi Pillay — 74% dos até agora 648 palestinianos mortos são civis.

Um habitante da Cidade de Gaza no meio dos escombros
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Um habitante da Cidade de Gaza no meio dos escombros MAHMUD HAMS/AFP

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, considerou que os ataques israelitas na Faixa de Gaza podem constituir “crimes de guerra” porque nada foi feito para poupar a vida dos civis.

Segundo as Nações Unidas, 74% dos mortos em Gaza são civis. “O que acabo de descrever [os ataques contra civis indefesos] apontam para uma forte possibilidade de o Direito Internacional estar a ser violado de forma a configurar-se um crime de guerra”, disse Pillay numa reunião de emergência do Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Genebra. 

Uma fonte da ONU disse à Al-Jazira que os palestinianos desta pequena Faixa quase cercada por Israel e com o Egipto na sua ponta sul (onde as fronteiras estão fechadas) estão encurralados, não têm para onde ir para se salvar. “Os civis de Gaza não têm para onde fugir uma vez que 44% do território foi interditada pelo exército israelita. As famílias estão a tomar a terrível decisão de se dividirem entre duas localidades diferentes — mães e filhos para um lado, pais e filhas para o outro —, tentando ao máximo que pelo menos alguém na família sobreviva”. 

Mas a acusação de Navi Pillay não deverá ter grandes consequências, apesar deste Conselho da ONU ter aprovado a criação de uma comissão de inquérito para averiguar "todas as possíveis violações". Entre os 47 países representados, só os Estados Unidos votaram contra. Mas a França, o Reino Unido e a Alemanha abstiveram-se, assim como mais 17 países. E Israel, que considera esta comissão um órgão tendencioso — “anti-Israel”, como disse a ministra israelita da Justiça, Tzipi Livni —, não deverá cooperar com uma investigação. 

Até ao início da tarde desta quarta-feira, o 16.º dia da operação militar israelita contra a Faixa de Gaza, os ataques por terra, mar e ar mataram 670 palestinianos. Mais de quatro mil pessoas ficaram feridas. Na sua intervenção, Pillay começou por falar nestes números e sublinhou que (até terça-feira) havia entre as vítimas civis 147 crianças e 74 mulheres.

Do lado israelita morreram 34 soldados  - três deles esta quarta-feira, na Faixa de Gaza - e três civis. O último dos civis foi identificado como um trabalhador estrangeiro que foi morto esta quarta-feira na cidade de Ashkelon, junto à fronteira com a Faixa de Gaza. 

A cidade mais castigada pelo fogo israelita esta quarta-feira é Khan Younis (sul), onde as forças de defesa de Israel dizem viver Mohammed Deif, comandante das Brigadas al-Qassam, o braço armado do Hamas, o movimento que controla a Faixa de Gaza. Mas a ofensiva continua a abranger todo o território e a única central eléctrica do enclave foi destruída na terça-feira à noite.

Segundo as fontes israelitas seis pessoas foram mortas e 20 ficaram feridas neste ataque que deixou ainda mais território palestiniano sem electricidade — só 10% dos palestinianos de Gaza têm agora luz. Os fornecimentos de Israel já tinham sido cortados na semana passada porque, explicou Israel, um rocket disparado pelo Hamas danificou a central que fornecia a Faixa.

A ofensiva israelita foi lançada no dia 8 de Julho com o objectivo de travar os rockets disparados de Gaza. A uma primeira fase de guerra aérea, seguiu-se uma operação no terreno destinada a destruir os túneis construídos pelo Hamas para entrar em Israel e realizar ataques — por esses túneis o Hamas também fazia entrar em Gaza alimentos e outros bens essenciais que escasseiam na Faixa.

Esta quarta-feira, o jornal Jesusalem Post dá conta da destruíção de um desses túneis que desembocava num kibutz. Lá dentro, diz o jornal, os soldados encontraram mapas, armas e uniformes das forças de defesa israelita. O mesmo jornal responde à denuncia de que os israelitas estão a bombardear e atacar indiscriminadamente na Faixa de Gaza — no fim de semana foi atingido um hospital. Diz o Jerusalem Post que num desses hospitais funciona uma “sala de guerra” do Hamas e da Jihad Islâmica, que ali se reuniam.