Opinião

Não é bastante não ser cego

Há dias uma amiga entregou-me em mãos um poema de Alberto Caeiro. Um dos versos dizia que "Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores". Nesse mesmo momento, ao lê-lo, compreendi que já tinha lido em tempos este fragmento dos ‘Poemas Inconjuntos’, mas na verdade não o tinha visto.

Os antigos egípcios viram. Há 3000 anos a.C. viram uma árvore – o salgueiro – e perceberam que podiam usar a casca do mesmo para reduzir as dores e a febre. Outras culturas perpetuaram este conhecimento e em 1897 foi patenteada a Aspirina, o medicamento mais conhecido e mais usado em todo o mundo (mais de 100 mil milhões de comprimidos são consumidos anualmente).

Leonardo da Vinci viu. Há 500 anos observou que quando uma árvore cresce e o tronco se divide em mais ramos a soma da secção transversal destes ramos secundários é igual à secção transversal do tronco imediatamente abaixo (e por ai adiante). É uma regra universal para quase todas as espécies de árvores. Os botânicos desenharam algumas explicações para este fenómeno relacionadas com a circulação da seiva e em 2011 um físico, Christophe Eloy, mostrou que os ramos com a espessura definida pela regra de Leonardo resistem ao vento sem quebrar.

Newton viu. Viu a maçã que caiu de uma árvore e com isso questionou o porquê da maçã cair perpendicularmente ao chão. E depois descreveu a universal lei da gravidade. E mais não é preciso dizer.

Wall e Wani viram. Em 1967 viram como uma molécula extraída da casca de uma árvore – o teixo – tinha uma potente atividade anti-tumoral em roedores. Desde então a ciência médica não deixou de investigar sobre este tema e descobriu mais moléculas anti-tumorais nos teixos (além do paclitaxel, também o docetaxel) e sabe que ambas são extremamente efetivas em tratamentos contra o cancro. Já se estuda o potencial do paclitaxel no tratamento dos síndromes de Alzheimer e Parkinson.

Aidan Dwyer viu. Este adolescente de 13 anos viu como a distribuição dos ramos das árvores respeitam uma fórmula matemática em espiral baseada na sequência de Fibonacci. Este conhecimento tem potencial de revolucionar o desenho dos painéis solares atuais, otimizando em mais de 20% a produção de energia.

Mas não é preciso ser um génio. Para ver as árvores basta ser senciente. Sentir a sua poderosa presença, apreciar as suas inúmeras dádivas e reconhecer que a Humanidade tem estado estreitamente ligada a elas desde um passado remoto.

As árvores desde cedo ofereceram ao homem recursos essenciais (madeira, alimentos, entre outros) e abrigo espiritual (o ato de bater na madeira quando queremos afastar algo mau é um atavismo religioso de procurar nas árvores o favor dos deuses que nelas vivem). Foram ainda testemunhas sagradas de atos políticos, sociais e amorosos. Sob a sua sombra se legislava, se faziam acordos comerciais, se fazia justiça, se tomavam decisões, se faziam promessas de amor e a sua presença vinculava as partes a cumprimento do acordado. Inspiraram obras de arte e importantes valores humanos. Despoletaram importantes transformações sociais e tecnológicas. Não é bastante não ser cego. Há que ser senciente.

Investigadora da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Coordenadora do FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto. A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico.