Opinião

António Costa e o voluntariado

Este tipo de desenrascanços e facilidades é demasiado 2009 para o meu gosto.

Na semana passada eu defendi neste espaço que António Costa deveria ter suspendido o mandato na câmara durante as primárias do PS e questionei-o sobre a origem do muito dinheiro que tem andado a gastar em campanha.

Tive direito não a uma, mas a duas cartas, uma assinada pelo próprio António Costa, que me informou estar nestas primárias em part-time (“tenho dedicado à campanha apenas as noites e os fins-de-semana”), a outra do seu director financeiro, Agostinho Abade, para quem o “voluntarismo” e a “militância” fazem milagres. Agradeço a simpatia das respostas – infelizmente, não posso agradecer a qualidade dos esclarecimentos. E, sobretudo, não posso agradecer a “transparência” invocada por Agostinho Abade, pela simples razão de que não a vejo em lado algum.

O director financeiro da campanha de António Costa não aceita que eu “possa insinuar qualquer outro tipo de actuação menos clara”, mas eu não estou a insinuar nada. Estou apenas a declarar, aliás belissimamente acompanhado pelo Tribunal Constitucional, que passa a vida a encontrar irregularidades nas contas dos partidos, que os dinheiros das campanhas são um eterno poço de equívocos e de situações mal explicadas, e que, pelo andar desta carruagem (voluntária ou não), as primárias do PS não irão fugir à regra.

Diz Agostinho Abade, dando um exemplo concreto, que “as duas viaturas de gama média” utilizadas por António Costa têm sido “emprestadas por militantes”, e que eles “têm também suportado o combustível gasto”. “Aliás”, acrescenta o director financeiro, “as referidas viaturas têm variado, de acordo com a disponibilidade dos seus proprietários para as emprestar”. Ora, eu não sei se é suposto alegrarmo-nos com isto e considerar o recurso à vaquinha um exemplo de extraordinária transparência e voluntarismo, mas se eu não acredito em almoços grátis, muito menos acredito em gasóleo grátis. Mesmo que o combustível do avião que levou António Costa à Madeira no início do mês também tivesse sido pago por amigos, isso preocupa-me mais do que me descansa – porque é o género de favorzinhos que invariavelmente se cobram depois de chegar ao poder.

O meu ponto é esse, e não outro. Da mesma forma que eu votei em António Costa para presidente da Câmara de Lisboa, acredito que muitos portugueses irão votar nele para primeiro-ministro. E, portanto, havendo fortes probabilidades de ele vir a tomar conta do governo numa altura crítica da nossa história, gostaria muito que Costa começasse a fazer as coisas bem-feitas desde o dia 1. E fazer as coisas bem-feitas não é justificar os enormes gastos da campanha com “voluntarismo” e “militância” – até porque a política é uma actividade demasiado séria para ser deixada a amadores –, ou sequer com uma “subvenção” que ninguém sabe ainda de quanto é nem quando chegará.

Qualquer campanha precisa de muito dinheiro para funcionar, e obviamente que esse dinheiro tem de estar a ser injectado. Que eu saiba, há uma convenção nacional marcada por António Costa para o próximo sábado, no Centro de Congressos de Aveiro – será que o centro de congressos também foi alugado à borla? Eu tenho a melhor impressão de Costa, e é óbvio que ele não enriqueceu com a política. Mas a transparência não se apregoa – pratica-se. Antes um generoso empréstimo bancário do que andar às voltas por Portugal nos popós dos amigos. Este tipo de desenrascanços e facilidades é demasiado 2009 para o meu gosto.