Mario Vargas Llosa, doutor honoris causa , defende o compromisso cívico do escritor

Depois de receber o título honoris causa em Lisboa, o Prémio Nobel da Literatura 2010 explicou porque é contra a independência da Catalunha e pela monarquia espanhola, quando questionado pelos jornalistas.

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Miguel Manso

Com o auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa (UNL) cheio, Mario Vargas Llosa entrou vestido com um traje preto atrás de um cortejo académico composto por docentes da universidade, enquanto o coro desta instituição cantava. Pouco depois, o reitor colocava ao Prémio Nobel da Literatura 2010 uma insígnia azul e Mario Vargas Llosa tornava-se doutor honoris causa da UNL.

Seguiram-se os discursos. Foi então que escritor peruano, de 78 anos, recordou o seu “amigo português”: José Cardoso Pires (1925-1998). Conheceu-o quando ambos davam aulas na Universidade de Londres, nos anos 1960, e esta terça-feira no auditório da Reitoria, tantos anos depois, agradeceu ao amigo ter-lhe dado a ler aquele “que ainda hoje" é um dos seus poetas favoritos: Fernando Pessoa. “Leio-o com prazer e, acredito, com algum proveito”, disse Mario Vargas Llosa com a sua grave e pausada voz. Lembrou ainda que quando se conheceram, os dois amigos “estavam convencidos que a literatura é uma arma eficaz para combater as injustiças e que, como dizia Sartre, as palavras são actos”.

Para o Prémio Nobel da Literatura 2010, o escritor não é um mero produtor de entretenimento. “A função do escritor não acaba em escrever bem. Há um compromisso cívico de defesa dos direitos humanos", afirmou e acrescentou que aquele que escreve deve opor-se a tudo o que ameaça estes direitos, como as ditaduras.

O escritor referiu-se ao título que recebeu esta tarde como “um reconhecimento, mas também como uma responsabilidade intelectual e cívica”. Recordou a sua ligação forte às universidades, desde que foi aluno na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, até à sua carreira como professor: aí aprendeu “o enorme prazer que produzem as boas leituras”. “Na América Latina a universidade tem uma tradição de defesa dos direitos humanos, de luta pela liberdade e contra a ditadura”, disse. Considerando que estas instituições devem ser apoiadas, porque “a cultura é a melhor defesa contra a barbárie e, como diz Popper, o regresso à tribo”.

Na reitoria estiveram presentes o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, o secretário de Estado da Saúde, Manuel Ferreira Teixeira e o antigo Presidente da República Mário Soares a assistir à sessão formal presidida pelo reitor da UNL António Rendas. O professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) Nuno Júdice foi o proponente do título, e o presidente do conselho da FCSH e também doutor honoris causa por esta universidade Francisco Pinto Balsemão, foi o padrinho, ou seja, aquele que pede simbolicamente a condecoração. 

Enquanto proponente do doutoramento honoris causa, Nuno Júdice destacou no seu discurso que Vargas Llosa não é apenas um escritor, ou um ensaísta, ou um político – estas “são faces complementares do seu trabalho, e por serem inseparáveis, escolher um único caminho seria uma redutor. Nenhum aspecto se sobrepõe ao outro", disse o professor e poeta.

Na curta conferência de imprensa que se seguiu à cerimónia de atribuição do título honoris causa, Vargas Llosa lembrou a sua mais visível intervenção política – a candidatura em 1990 à presidência do Peru – e aquilo que aprendeu com ela: “aprendi que não sou um político, participo no debate político”.

Questionado sobre diversos temas da actualidade, o autor de O herói discreto (ed. Quetzal) falou da corrupção como “o maior perigo do nosso tempo”: “sempre existiu, mas hoje é tolerada” e por isso pode mais facilmente “corromper as raízes da democracia”. Sobre o conflito israelo-palestiniano, disse que há “uma maior intransigência” da parte de Israel e que a comunidade internacional, por exemplo os Estados Unidos, “têm de actuar de uma forma mais enérgica”.

Mario Vargas Llosa assinou um manifesto contra a independência da Catalunha, juntamente com personalidades como Pedro Almodóvar, publicado no jornal espanhol El País em 2012. Sobre essa sua posição, disse que "há que se respeitar a Constituição [de Espanha], que foi amplamente aprovada pela maioria dos espanhóis, entre eles, uma imensa maioria de catalães".

Para o escritor, "o independentismo e o nacionalismonão são uma doutrina, uma forma de fanatismo" e por isso, não apoia a ideia de um estado federal, como tem vindo a ser proposto pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE), para resolução da questão catalã. "A monarquia tem uma razão de ser em Espanha e desempenhou um papel fundamental", defendeu. "As monarquias constitucionais na Europa são onde as democracias funcionam melhor".