Em torno do virtuosismo e da cumplicidade

Dois concertos do Festival Internacional de Música de Espinho demonstraram duas concepções distintas da música instrumental do século XIX e da primeira metade do século XX: a espectacularidade concertante por François Leleux e o intimismo da música de câmara por Alexander Kniazev e Giovanni Bellucci.

Foto
François Leleux DR

Este concerto apresentou três atractivos que justificaram o seu destaque no âmbito da programação do Festival Internacional de Música de Espinho (FIME): o regresso da Orquestra Gulbenkian ao festival, a participação do notável oboísta francês François Leleux e a sinalização dos 150 anos do nascimento de Richard Strauss através da interpretação de duas obras tardias do compositor (Metamorfoses e Concerto para oboé).

Na primeira parte a Orquestra Gulbenkian interpretou o Nocturno Opus 12 de Joly Braga Santos para orquestra de cordas e Metamorfoses de Richard Straus para 23 cordas solistas. No Nocturno, obra de curta duração e de escrita musical simples, a orquestra demonstrou o equilíbrio e a elegância que caracterizam a sonoridade do seu naipe de cordas. Na obra de Strauss a orquestra revelou bom equilíbrio sonoro e capacidade de projecção de um discurso musical extenso e marcadamente contrapontístico.

Na segunda parte foram apresentadas as duas obras concertantes que serviram de mote ao concerto. Composto em 1945 o Concerto para oboé de Strauss é uma obra evocativa do espírito clássico vienense. Isto manifesta-se na elegância melódica que caracteriza os temas principais, na estrutura formal tradicional em três andamentos e no pequeno efectivo orquestral (idêntico ao utilizado por F. J. Haydn e W. A. Mozart no final do século XVIII).

A interpretação da parte solista foi reveladora do elevado virtuosismo técnico e da enorme sensibilidade e capacidade expressiva de François Leleux. O oboísta assumiu totalmente o protagonismo e a liberdade que esta obra lhe proporciona sem, no entanto, deixar de comunicar com a orquestra de uma forma cuidada e atenta.

A interacção de Leleux com a orquestra e com o maestro Pedro Neves foi constante, proporcionando uma interpretação estimulante ao longo dos três andamentos, criando a clara sensação de que o solista incentivava o diálogo com a orquestra e promovia a audição mútua, como se de música de câmara se tratasse. Esta capacidade é reveladora da enorme experiência e maturidade musical de Leleux.

A Fantasia para oboé e orquestra de Antonio Pasculli, composta sobre temas da ópera A Favorita de Donizetti, alia o carácter melodramático a um estilo concertante que exibe sem preconceitos as capacidades técnicas e expressivas do solista. Neste contexto, Leleux pôde demonstrar de uma forma ainda mais espectacular o seu virtuosismo, levando ao rubro o público presente que o aplaudiu longamente. O público foi presenteado com dois encores, primeiro a repetição de uma das partes de A Favorita e em seguida Pan, uma das Seis Metamorfoses para oboé solo de Benjamin Britten.

 2. O concerto de Alexander Kniazev e Giovanni Bellucci incluiu três obras-primas do repertório de câmara romântico, foram elas a Sonata para violoncelo e piano Opus 38 de Johannes Brahms, a Sonata Arpeggione de Franz Schubert e a Sonata para violino e piano de César Franck (esta última numa transcrição para violoncelo do próprio Kniazev).

Estes dois virtuosos instrumentistas proporcionaram um concerto de elevada qualidade técnica embora nem sempre tenham conseguido manter o equilíbrio sonoro e a cumplicidade interpretativa exigidos pelo repertório apresentado. Por vezes, a interpretação fogosa e expansiva de Kniazev ofuscou o estilo mais delicado e intimista de Bellucci, levando a que o espírito camarístico fosse afectado, em particular nas sonatas de Brahms e de Franck. No entanto, o concerto teve diversas ocasiões em que os dois intérpretes souberam ultrapassar estas diferenças proporcionando ao público presente bons momentos de música de câmara. A interpretação da Sonata Arpeggione foi o momento alto do concerto, com uma interpretação bastante equilibrada que tirou partido do contraste temático e da exploração de diferentes planos sonoros através de uma leitura inteligente e subtil da partitura. Merece especial destaque a excelente execução do Adagio que demonstrou uma boa cumplicidade entre os dois intérpretes.

Apesar do concerto não ter sido homogéneo ao nível do desempenho camarístico, ele proporcionou momentos de elevada qualidade técnica e expressiva que comprovaram a reputação dos dois intérpretes. Após uma sincera ovação do auditório, Kniazev e Belluci concluíram o concerto interpretando com grande expressividade e delicadeza uma transcrição da Ária da Suite Orquestral nº 3 em Ré Maior de J. S. Bach.