Afinal, o que é que um professor tem de saber para dar aulas?

Este ano, o Ministério da Educação e Ciência deixa cair as componentes específicas da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades dos professores. Sobra a comum, que a associação de professores contratados considera “absurda”.

Organizações de professores criticam o “absurdo” da prova
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Organizações de professores criticam o “absurdo” da prova Adriano Miranda

Sindicatos e outras organizações de professores contestam a obrigatoriedade de realização de uma prova de avaliação para docentes que podem ter quase cinco anos de serviço. Mas também o tipo de prova que, com o despacho publicado esta sexta-feira, ficou reduzido à sua componente comum. “Estamos a falar de brincadeiras matemáticas e de joguinhos de lógica – não é isto que garante que alguém sabe dar aulas”, critica César Israel Paulo, dirigente da Associação nacional dos Professores Contratados.

Foi precisamente com a divulgação do modelo da componente comum da prova, em Novembro passado, que a luta dos docentes sem vínculo conquistou simpatia da opinião pública e dos professores dos quadros (muitos dos quais viriam a fazer greve, recusando-se a vigiar os colegas). Na altura, sabia-se que mais tarde os professores sem vínculo seriam obrigados a fazer as componentes específicas (e científicas) da prova, com conteúdos relacionados com as disciplinas que desejavam leccionar. Com o despacho desta sexta-feira, contudo, estas deixaram de ser necessárias para o primeiro grupo de docentes a que é imposto este tipo de avaliação.

“E o que é que se passa? Os professores contratados, que eram avaliados em contexto de sala de aula, passam a ter de fazer uma prova absurda”, critica César Israel Paulo.

Para além do tal modelo, polémico, já está disponível no sítio da internet do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) a própria prova feita por parte dos professores no dia 18 de Dezembro, que serve de exemplo para os que se quiserem preparar para a próxima, no dia 22. De acordo com o que ficara definido, aquela foi constituída por 32 itens de escolha múltipla (que valeram 80% da cotação) e por um item de “resposta extensa orientada” (20%).

O último item consiste na produção de um texto com um número de palavras compreendido entre 250 e 350, inclusive, e com um tema específico. Na prova de Dezembro os docentes foram convidados a “expor a sua opinião sobre a perspectiva expressa” por António Nóvoa em três frases da obra Evidentemente – Histórias da Educação. As frases eram as seguintes: “A escola de hoje é infinitamente melhor do que a escola de ontem. É mais aberta, mais inteligente, mais sensível à diferença. Mas não chega.”

Os itens de escolha múltipla foram diversificados e incluíram a interpretação de textos e de gráficos mais ou menos complexos. Num dos itens, por exemplo, estava desenhado um diagrama que mostrava os nomes dos alunos que “ no último mês” haviam requisitado na “biblioteca” os livros mais lidos: A Menina do Mar, A Lua de Joana, Os Animais Fantásticos e Uma Aventura no Castelo. As questões foram: “Quantos livros leu a Sílvia?”, “Qual dos seguintes alunos leu A Menina do Mar e Uma Aventura no Castelo mas não leu A Lua de Joana?”, “Qual o livro que foi lido por menos alunos?” Os docentes foram chamados a acertar na resposta correcta, em quatro possíveis.

Noutra alínea podia ler-se no enunciado: “Seis colegas partilharam um jantar para comemorar os dez anos de fim de curso. Decidiram dividir o custo do jantar entre todos, de acordo com o ordenado de cada um: quem ganhasse de mil a dois mil euros pagava duas vezes mais do que quem ganhasse menos de mil euros; quem ganhasse mais de dois mil euros pagava três vezes mais do que quem ganhasse menos de mil. Dois dos colegas ganhavam menos de mil euros, outros dois ganhavam de mil a dois mil euros, e os restantes ganhavam mais de dois mil euros. Dos colegas que ganhavam menos de mil euros, cada um pagou dez euros”.

Em relação àquele texto, as questões foram: “Qual foi o custo total do jantar?” (60 €, 90 €, 120 € ou 150 €?); “No fim do jantar, os seis colegas continuaram a conversa noutro local. No momento de pagar, mantiveram o mesmo critério para dividir a despesa comum de 36 euros. Dos colegas que ganhavam mais de dois mil euros, quanto pagou cada um? (9 €, 12 € , 15 € ou 18 €?)

A identificação de imagens que correspondiam a uma série de ensaios que “o António” realizou, com carros a deslizarem pela mesma rampa inclinada (variando o tipo de rodas, a inclinação da rampa e o número de blocos transportados) foi outro dos pedidos feitos aos professores. Estes tiveram ainda de associar três temas (“crítica às despesas supérfluas”, “direito à festa”, e “censura ao excesso de prudência) a cinco provérbios – “o néscio calado, por sábio é contado”, “o rir e folgar não é pecado”, “arremenda o teu pano, chegar-te-á para todo o ano”, “quem não se aventurou não perdeu nem ganhou” e “se estiveres em tua tenda, não te acharão na contenda”.

Ainda não são conhecidas as classificações dos professores que fizeram a prova, mas o Ministério da Educação e Ciência já assegurou que eles serão divulgados de maneira a produzirem efeitos no próximo ano lectivo.