“Ó Autoridade Palestiniana, diz-nos onde andas”

Abbas foi à Turquia pedir ao Governo para apoiar a trégua proposta pelo Egipto ao Hamas
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Abbas foi à Turquia pedir ao Governo para apoiar a trégua proposta pelo Egipto ao Hamas Ozan Kose/AFP

Ao décimo primeiro dia da ofensiva israelita contra a Faixa de Gaza – horas depois do início da invasão terrestre –, o presidente da Autoridade Palestiniana (AP) começou a mostrar que o é. Foi ao Cairo pedir ao ministro dos Negócios Estrangeiros francês ajuda para convencer a Turquia e o Qatar a negociar a paz (únicos países que o Hamas admite como mediadores) e viajou em seguida para Istambul.

Ao mesmo tempo, soube-se que Mahmoud Abbas escreveu à Suíça (Estado depositário das Convenções de Genebra), solicitando ao país que organize uma conferência de urgência sobre a situação nos Territórios Ocupados. Soube-se porque o jornal Neue Zürcher Zeitung, de Zurique), o escreveu, e a AFP o confirmou em Berna.

Na verdade, a carta de Abbas é de 9 de Julho, um dia depois de Israel começar a bombardear Gaza – estranho é que o líder da AP não tenha partilhado essa informação nem com os palestinianos, nem com o resto do mundo.

Pouco antes de noticiar a revelação do diário suíço, a agência francesa lembrava as críticas a Abbas. A principal era a aparente recusa em usar a única verdadeira arma de que dispõe: graças ao estatuto de Estado observador da ONU, obtido em Novembro de 2002, a Palestina pode pedir acesso a convenções e tratados internacionais – em Abril, tornou-se membro da 4.ª Convenção de Genebra, que “protege os civis em tempos de guerra”. Os suíços, escreve o jornal, “estão a avaliar o pedido de Abbas” para agir ao abrigo desta convenção.

O problema de Abbas não é ter escrito às autoridades federais suíças. É ter deixado muito por dizer desde dia 8 e ter proibido manifestações de solidariedade com Gaza em cidades da Cisjordânia como Ramallah ou Jenin – algumas não passavam de pequenas concentrações que as forças de segurança palestinianas dispersaram com granadas de gás lacrimogéneo. Ao tratar os palestinianos como Israel, Abbas não fez muito pela sua imagem junto do povo que diz representar.

“Oh, Autoridade, diz-nos onde andas”, gritaram na quarta-feira mais de 200 manifestantes em Bireh, perto de Ramallah. No mesmo dia, o ministro palestiniano da Saúde, Jawad Awad, decidiu visitar Gaza. Entrou vindo do Egipto, atravessando a fronteira de Rafah, como tantos palestinianos têm tentado, em sentido contrário e sem sucesso, em fuga das bombas. O cortejo de Awad foi recebido com ovos e sapatos e obrigado a recuar. “Abu Mazen [Abbas] é um colaborador”, gritaram alguns habitantes do enclave.

Um dirigente do Hamas a viver exilado no Cairo, Moussa Abu Markouk, criticou a agressão contra o ministro, descrevendo-a como “irresponsável”. Teoricamente, a Fatah de Abbas e o Hamas deveriam governar em unidade o conjunto dos Territórios Palestinianos desde que, a 23 de Abril, anunciaram um acordo de reconciliação e um executivo de “consenso nacional” com personalidades independentes (várias nunca chegaram a conseguir entrar em Gaza).

O acordo de Abril deveria ter servido para enterrar a divisão que vem de 2007, quando a Fatah e o Hamas se enfrentaram com armas, meses depois da chegada do Hamas ao poder em Gaza. Como ninguém reconheceu o resultado das eleições legislativas de 2006, o movimento e os 1,8 milhões de habitantes da região vivem desde então sob bloqueio.

Mais isolado do que nunca, depois de ter abandonado Damasco (e perdido assim o apoio do Irão) por se ter posto ao lado dos sírios que ousaram pedir o fim da ditadura e morrer por isso, o Hamas tinha interesse num acordo com Abbas. O governo de “consenso nacional” era também essencial para qualquer acordo de paz com Israel. Um e outro estão hoje muito mais longínquos.