Opinião

A máquina Google

Foto

As críticas e a indignação que emergiram em alta voz da comunidade científica e universitária, por causa dos resultados e dos métodos de avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, deram a conhecer aos leigos um sistema quantitativo que se exprime em índices bibliométricos, rankings de revistas e toda uma hierarquia meramente numérica. Quem tem uma ideia de como os algoritmos governam o mundo terá pensado que eles estenderam os seus longos braços a mais um domínio. Isso é verdade, mas na origem as coisas passaram-se de maneira inversa: foi o poderoso algoritmo PageRank do Google que se inspirou no sistema de classificação das publicações académicas, introduzido pela universidade alemã no final do século XIX, que consistia em compilar o número e a matriz das citações bibliográficas. É o que afirmam Sergey Brin e Lawrence Page, num artigo de 1998 onde fazem uma descrição do sistema PageRank, de que são os inventores (o artigo chama-se The anatomy of a large-scale hypertextual web search engine e está disponível na rede). Brin e Page, então estudantes da Universidade de Stanford, usaram o sistema que calculava o “valor” das publicações universitárias de uma maneira puramente matemática, baseada no número de citações de que um artigo é objecto em relação a outros artigos (é a quantidade relativa que permite estabelecer uma hierarquia). Eles explicam: “As citações literárias académicas foram aplicadas à web, particularmente contando as citações ou as ligações [backlinks] que vão dar a uma dada página. Isso dá-nos uma ideia aproximada da importância ou da qualidade da página.” A genealogia do algoritmo PageRank é, portanto, livresca, clássica. Mas, como sabemos, ele introduziu uma ruptura revolucionária nas tecnologias de busca de informação (os chamados “motores de busca”): pela primeira vez, o mar completamente liso, contínuo e horizontal, que era o modo como se apresentava a Internet, foi reconfigurado pelo Google numa hierarquia dinâmica, baseada na visibilidade e na importância de cada site. Cada página web é classificada e o seu valor é determinado pelo número e pela qualidade das ligações (links) que ela obtém. Mais precisamente, uma ligação vinda de um site com uma classificação elevada tem mais valor do que uma outra ligação vinda de um site com uma classificação mais baixa. O Google explora assim o saber humano; de cada vez que clicamos, estamos a alimentá-lo com a nossa inteligência (e, pormenor a não esquecer, estamos a deixar Brin, Page e todos os investidores um pouco mais ricos). O algoritmo PageRank, na medida em que calcula automaticamente o “valor” de cada ligação na web e decide sobre a importância e a visibilidade de um determinado documento em função do número e da qualidade das ligações que remetem para ele, pode pois ser descrito e analisado como a representação empírica da produção e da acumulação de valor — esse conceito fundamental da economia política, aqui transposto para o centro do “capitalismo cognitivo”. O Google transforma portanto a inteligência em riqueza. Analisando-o, mostrando como ele gera valor sem produzir um único conteúdo, mas capturando os milhões e milhões de sites da web, comportando-se como o mais poderoso parasita que alguma vez existiu, somos levados a entrar na questão mais geral do modo como o capitalismo cognitivo extrai mais-valia. Lendo e ouvindo as reações à avaliação dos centros de investigação, podemos concluir que ela exige em primeiro lugar produção de valor do capitalismo cognitivo. É a vingança do algoritmo.