Estudos clássicos: “Esta investigação em Portugal acabou. Ponto final”

Centro de Lisboa pode passar de 61 mil euros anuais para 7500. Em Coimbra, de 160 para 15 mil.

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Delfim Leão é o coordenador científico do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Sérgio Azenha

O que faz uma unidade de investigação com 7500 euros por ano? “Nada”, diz a directora do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, Cristina Pimentel. Este foi um dos centros que, na última avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), viu o financiamento descer. Também o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, com 15 mil euros anuais, só vai poder comprar livros e manter as revistas. “É toda uma área de investigação que desaparece. Havendo dois centros nestas circunstâncias, é acabar com a investigação em estudos clássicos em Portugal. Acabou. Ponto final”, diz Cristina Pimentel.

Os dois centros tiveram Bom na última avaliação, uma nota que lhes reduziu os orçamentos. Na unidade de Lisboa, que tem 27 doutorados integrados, isto é, com vínculo ao Estado, se o Bom que tiveram na avaliação de 2007/2008 lhes permitia 61 mil anuais – montante que, com os cortes dos últimos anos, já ia em 40 mil –, agora têm 7500 para organizar e participar em congressos, editar uma revista, comprar bibliografia, actualizar bases de dados, ir ao estrangeiro, traduzir, pagar a uma funcionária, entre outras despesas. Em Coimbra, o centro passou de Excelente, com direito a 160 mil euros anuais, para Bom e 15 mil euros. “Só dá para comprar livros e manter as revistas”, diz o coordenador científico, Delfim Leão. Este centro apoia, por exemplo, 40 jovens investigadores, que, caso não haja uma reviravolta na decisão da FCT, ficarão de mãos a abanar. Também Cristina Pimentel se mostra preocupada com os jovens investigadores. “O que vai acontecer? Vão emigrar?” Os dois centros apresentaram recursos, pedindo para passar à segunda fase da avaliação e ter direito a uma visita presencial do painel de avaliadores.

Com os montantes agora atribuídos, fica em causa a maioria dos projectos destes centros, dos quais fazem parte académicos como Frederico Lourenço (passou de Lisboa para Coimbra), que traduziu, entre outras obras, a “Ilíada” e a “Odisseia”, ou Maria Helena da Rocha Pereira (Coimbra). Não só são as traduções do grego e do latim a ficar pelo caminho e comprometer outras áreas de investigação, como a filosofia ou a história da ciência, em que é preciso ter acesso a textos antigos escritos por matemáticos e físicos. Em Lisboa, alguns projectos que poderão sucumbir consistem em publicar textos de mulheres que escreveram em latim em Portugal no século XVI ou, por exemplo, identificar, transcrever, traduzir e publicar manuscritos inéditos de missionários portugueses na China e em Goa. “Como é que se vai a Goa? À boleia?”, questiona Cristina Pimentel.

Avaliação à distância
Para além de o painel que atribuiu as classificações não ter portugueses ou especialistas em estudos clássicos, a avaliação não foi presencial: “Não haver essa visita presencial é profundamente castrador da avaliação, porque quem nos avalia, avalia sem estar no terreno, sem perceber as especificidades, sem conhecer bem o próprio país, é o aspecto mais limitador”, diz Delfim Leão.

Em 2007/2008, este centro teve Excelente, mas nessa altura a avaliação foi presencial: “Tivemos algumas recomendações que aplicámos na íntegra, coisas a melhorar, e todas as avaliações intermédias que houve entretanto, a última um dia antes de sair este resultado, foram sempre excelentes. Nunca tivemos qualquer indicação da FCT de que não estivéssemos a seguir o caminho certo”, diz o coordenador para quem “avaliar apenas por uns papéis é muito falacioso”.

Com 7500 euros anuais, Cristina Pimentel não consegue “fazer nem organizar nada”: “Não dá sequer para pagar à única assistente administrativa que temos. Só temos uma e, ainda por cima, o relatório final dos avaliadores põe em dúvida que uma assistente administrativa chegue para levarmos a cabo o nosso projecto. Ficamos com dinheiro para lhe pagar seis meses de ordenado. A própria revista ‘Euphrosyne’ [que o centro edita anualmente] custa aproximadamente isso por ano.” São impressos 500 exemplares com cerca de 500 páginas cada. “Se quiser editar a revista, não tenho dinheiro para mais nada. E teríamos de mandar a assistente administrativa embora”, afirma a directora que considera que a FCT vai “matar” estes centros a partir do próximo ano.

Ambos os responsáveis garantem que, com estas notas, é difícil encontrar outro tipo de financiamento, como verbas internacionais. E mecenato para apoiar estudos clássicos em Portugal não parece viável, uma vez que os empresários interessam-se por produtos vendáveis, justifica Cristina Pimentel.

No caso de Coimbra, antes da última avaliação, as verbas rondavam os 160 mil euros, tendo chegado a ser 200 mil. Pagavam “todo o esforço de internacionalização”, participação e organização de congressos, traduções, despesas de pessoal, de colaboradores que davam apoio administrativo, de bolseiros de investigação, de actualização bibliográfica, de água, luz. “Com 15 mil euros, só conseguimos é comprar livros e manter as revistas. Tudo o resto deixa de ser possível”, diz Delfim Leão. “É um golpe praticamente fatal, é mesmo duro”, acrescenta o responsável que não vê hipótese de dar “esperança” aos jovens investigadores que eram envolvidos em projectos, quer com bolsas do centro, quer com apoios pontuais para deslocações a congressos, por exemplo. Este centro tem, além de 50 doutorados integrados, 52 doutorandos, dos quais 60% estrangeiros, que estão a fazer doutoramento com investigadores da casa. Alguns têm bolsa da FCT ou outras, muitos são apoiados, de diferentes formas, pelo centro.

Em Coimbra, para além da componente de investigação e entre inúmeras actividades, as peças traduzidas são levadas à cena por grupos de teatro, como o Thíasos, o grupo residente da Faculdade de Letras. O centro também organiza o Festival Internacional de Tema Clássico, no qual preparam um livro de bolso para dar como bilhete às pessoas e que tem a peça traduzida: “Foi muito apreciado pela comissão anterior que nos avaliou”, diz Delfim Leão. Criaram ainda uma biblioteca digital, na qual disponibilizam todas as publicações do centro, e a partir da qual são descarregados todos os meses 15 mil livros.

O centro de Lisboa soma, entre 2008 e 2012, 169 publicações em revistas internacionais validadas pelos pares; 160 livros e capítulos em obras de circulação internacional; e 163 publicações nacionais. No caso de Coimbra, o total das publicações é 549.