Opinião

Que futuro para Portugal?

Os portugueses vão ter de acordar e aceitar que o seu futuro está em Portugal e não em Bruxelas.

Portugal, em breve, assemelhar-se-á a um campo longilíneo de refugiados ao longo do mar. Sem agricultura, sem pesca, sem indústria que possa competir na UE, Portugal terá nas suas costas uma espécie de deserto a partir dos 30 a 40 quilómetros da costa.

Nesse interior abandonado, quase sem emprego, serviços de saúde, tribunais repartições de Finanças e escolas, os jovens acumular-se-ão sempre e mais na pequena faixa litoral, deixando em risco a própria existência do país que foi herdado dos antepassados. Sem esperança e com uma taxa de mortalidade superior à da natalidade, é o destino do país que está em causa, enquanto nação independente.

Endividado, incapaz de fazer do euro um meio de se afirmar na UE e no mundo, com dirigentes políticos a baterem-se pelas suas coutadas, impotente para ganhar a confiança popular que virou as costas às instituições, Portugal caminha ao sabor dos ventos e entregue aos desígnios dos credores, os verdadeiros donos do país.

O país está numa encruzilhada: ou continua o caminho da dependência e da pobreza ou muda o rumo. No primeiro caso, continuará à mercê dos agiotas internacionais que têm tido nos Governos portugueses os seus mandatários para gerirem o país de acordo com os mandantes. A austeridade irá ser o eixo da governação: punir os de baixo para que os de cima se tornem ainda mais ricos. Virá, sem dúvida, o reino da pobreza. Uma sorte de punição por ter acreditado numa vida com direitos.

O país tornar-se-á “competitivo” com base em salários e nível de vida baixos e ocupando na UE em lugar subalterno. As multinacionais cairão no país para lhe sacar as suas riquezas. As reformas laborais irão continuar provavelmente até ao dia em que não haja limite para as grandes empregadoras: fim dos horários de trabalho, do salário mínimo, redução das férias, termo à contratação coletiva…

Portugal será aquilo que a UE e os seus credores querem que ele seja. A vontade dos portugueses pouco contará, salvo se tiverem a coragem de mudar o rumo. E, se a tiverem, irão seguramente travar um imenso debate acerca do futuro do país no euro: a moeda única ajuda ou afunda-nos? É plausível que um pequeno país periférico venha a receber ajuda suficiente da UE para recuperar dos seus atrasos ou esses atrasos agravar-se-ão? E se sair do euro quais os problemas que surgirão? O país tem força para os enfrentar? E que perspectiva abre o regresso ao escudo?

Uma maior integração de Portugal num projeto federalista dá garantias de que o país contará com apoios que lhe permitam fazer frente aos atrasos ou significará o seu abandono no quadro dos numerosos países-regiões atrasados em relação ao Norte e Centro da Europa? Um debate aprofundado sobre esta matéria poderá esclarecer o modo como Portugal deve abordar os modos de enfrentar uma crise que já vem dos séculos passados, ou seja, a incapacidade de produzir o suficiente para endireitar as suas contas.

A política seguida vai no sentido de tornar o país mais pobre no seu conjunto, virando-o para um certo tipo de exportações que não garantem, em grande medida, a sua constância e continuidade. Além de que até agora as exportações não chegam para pagar as importações.

Para agravar toda a situação, esta linha condutora da ação governativa aprofunda o fosso entre uma ínfima minoria cada vez mais rica (uma camada da burguesia compradora) e a imensa maioria, cada vez mais pobre, levando a que a classe média se aproxime mais e mais das camadas mais desfavorecidas.

Esta é a realidade. A União Europeia privilegia o monetarismo e o liberalismo, o que acarreta para Portugal um papel secundaríssimo, dado o peso da divida e o seu pouco desenvolvimento. Conduzidos como cidadãos sem vontade, paralisados pelo pavor de uma ausência de futuro, os portugueses vão ter de acordar e aceitar que o seu futuro está em Portugal e não em Bruxelas. Vai custar. Mas será inevitável se quiserem ser verdadeiramente livres e senhores do seu país.

Advogado