Opinião

De onde vem o dinheiro, António Costa?

Costa poderia começar a dar o exemplo e a praticar a transparência que apregoa.

Eu faço parte daquela maioria esmagadora de comentadores que considera António Costa muito melhor político do que António José Seguro. Mas como dizia o tio do Homem-Aranha – é uma frase que aprecio citar –, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. E entre essas responsabilidades existe uma exigência acrescida de transparência, tanto nos actos públicos como nas contas de campanha – dois campos onde António Costa tem vindo a fazer muito menos do que devia.

Um problema é directamente seu, e não atinge Seguro. António Costa não é deputado, nem líder partidário – é presidente da Câmara de Lisboa. No entanto, quem olhe para a televisão à hora do almoço e à hora de jantar, vê Costa a dar mais voltas a Portugal do que Joaquim Agostinho. Para todos os efeitos, ele está em campanha, e numa campanha mais aguerrida do que as próprias legislativas. Mandaria, por isso, o bom senso que suspendesse o mandato durante as primárias. Se a sua cabeça está no Largo do Rato e não no Largo do Município, não faz sentido algum António Costa andar a receber o ordenado de presidente de câmara.

O segundo problema já atinge tanto Costa como Seguro, e o próprio Partido Socialista como um todo: a transparência das contas da campanha. É um problema recorrente, e é um problema grave. O jornal online Observador questionou os dois candidatos sobre o tema, e eles pareciam irmãos gémeos. A candidatura de António Costa respondeu: “Nos termos do regulamento eleitoral, apresentaremos o orçamento de campanha na data prevista”. E a de António José Seguro: “Nos termos do regulamento, o orçamento será apresentado no momento da formalização da candidatura”. Quando se trata de chutar para canto, os políticos portugueses distinguem-se tanto entre si quanto Dupond e Dupont.

E o que diz o regulamento eleitoral das primárias, afinal? Que as candidaturas devem ser formalizadas até 14 de Agosto, e que o secretariado nacional irá elaborar um orçamento específico “para as campanhas de esclarecimento” até 15 de Julho (se esse orçamento existe, não o encontrei em lado algum), com vista “a assegurar as condições de igualdade entre as candidaturas”. Só que o próprio Jorge Coelho, presidente da comissão eleitoral das primárias, admitiu que ainda não sabe como as contas serão fiscalizadas.

Tanta coisa que está a mudar no país, menos a transparência das contas eleitorais. António Costa já gastou rios de dinheiro antes de sequer oficializar a candidatura: os cenários impecáveis, o muitíssimo profissional site Mobilizar Portugal, os alugueres dos espaços, o design "XPTO", os equipamentos de som, os veículos que andam em campanha, o pessoal associado a tudo isto. Esta máquina tem um preço altíssimo e os contribuintes têm toda a legitimidade para perguntar quem a está a pagar.

Na já citada reportagem do Observador, éramos informados de que os assessores de imprensa de António José Seguro “continuam a ser os mesmos que tem enquanto secretário-geral” e que “os de António Costa são dois dos assessores que tem na câmara”. Costa, que tem grandes possibilidades de chegar a primeiro-ministro, poderia começar a dar o exemplo e a praticar a transparência que apregoa. Como é que ele está a pagar tudo isto? De onde vem o ordenado dos seus assessores? Eu gostaria muito de saber. E não devo ser o único.