Conselho europeu: o peso da crise na hora de escolher os chefes

Os líderes europeus testam os efeitos da crise na escolha dos chefes das suas instituições. Ontem, 422 eurodeputados deram o “sim” definitivo a Juncker

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Jena-Claude Juncker recebe as felicitações de Martin Schulz AFP

Jean-Claude Juncker estará presente para sondar os governos sobre os comissários que tencionam mandar para Bruxelas. Quer despachar rapidamente a composição da sua Comissão e precisa que os líderes escolham a sucessora ou sucessor de Catherine Ashton que é também uma das suas vice-presidentes.

Mas ninguém ontem queria apostar no resultado desta cimeira europeia. Os líderes podem decidir só escolher quem vai chefiar o Serviço Europeu de Acção Externa, um cargo apesar de tudo menos importante (sobretudo para os grandes países) do que o de presidir ao Conselho Europeu. Mas podem também decidir quem substitui, em Novembro, Herman van Rompuy. A questão é que ainda não há ninguém que se destaque nesta corrida. Um terceiro cenário, já um pouco no domínio dos milagres, admite que a cimeira pode já debruçar-se sobre os nomes e as pastas dos futuros comissários, como pretende Juncker.

Nunca foi fácil à União Europeia fazer estas escolhas, que devem submeter-se a equilíbrios muito difíceis: políticos, geográficos (entre Norte e Sul e Leste e Oeste), de dimensão (pequenos e grandes) ou, ainda, entre países do euro e de fora do euro. Acresce que, desta vez, o PE e a Comissão resolveram acrescentar o equilíbrio de géneros. Juncker anda a bater a todas as portas para garantir um número significativo de mulheres comissárias. A crise, como disse uma fonte diplomática em Lisboa, “tornou este exercício ainda mais complicado”. Até porque uma das suas consequências foi a desvalorização das instituições europeias, muito particularmente da própria Comissão e a concentração do poder no Conselho Europeu e, dentro deste, num número restrito de países. “Este poderia ser o momento para dar um sinal forte da unidade e da vitalidade da Europa, mas ninguém espera que tal venha a acontecer.” Da mesma forma, também não se espera desta cimeira que se prolongue pela madrugada para tentar fechar este dossier antes do Verão. Por todas as razões e mais uma: a chanceler faz 60 anos a 17 de Julho. Tem uma festa marcada para a sede da CDU em Berlim, com mais de mil convidados. Já teve a sua prenda de anos, no Rio de Janeiro. Quer fazer escolhas que correspondam à sua visão da Europa e não está, dizem fontes diplomáticas de Bruxelas, numa disposição de grandes cedências.

Entretanto, já há nomes a circular com maior ou menor insistência. Matheo Renzi, o novo primeiro-ministro de Itália (que detém a presidência rotativa), quer que a sua ministra dos Negócios Estrangeiros, Frederica Mogherini, substitua Ashton à frente do serviço diplomático, apesar da sua experiência breve no cargo. Há nomes muito mais fortes mas que, por isso mesmo, não recolhem grandes simpatias. É o caso de Carl Bildt, ex-primeiro-ministro sueco, que não agrada a algumas capitais ocidentais pelas suas posições duras contra Moscovo, embora agrade às capitais de Leste pela mesma razão. O mesmo se poderia dizer de Radek Sikorski, o chefe da Diplomacia polaca. Em contrapartida os países do Leste europeu desconfiam das posições demasiado conciliadoras de Roma perante Vladimir Putin.

Se as coisas se complicarem, há outro nome de reserva: a actual comissária búlgara Kristalina Georgieva que merece a apreciação geral pela forma como geriu a pasta da ajuda humanitária. Não seria, no entanto, um nome forte, que indicasse que a Europa leva mesmo a sério a sua política externa.

Quanto ao cargo, mais relevante, de presidir ao Conselho Europeu, não há ainda ninguém que se tenha destacado pelo empenho em ocupar o cargo. Há, naturalmente, a primeira-ministra da Dinamarca (que se diz moderadamente socialista). É politicamente frágil. Merkel não se lhe opõe: seria uma forma de contentar os britânicos com alguém de fora da zona euro. Mas o contrário também é verdadeiro e deve prevalecer: a França e muitos outros países acham que a personalidade escolhida tem de presidir também ao Conselho Europeu dos membros da moeda única e que isso não faria sentido. Depois, há uma vasta lista de primeiros-ministros actuais ou anteriores, que vai do holandês Mark Rutte, de quem a chanceler gostaria e os liberais do PE também, mas que já declarou não estar interessado, até ao irlandês Enda Kenny, passando por Enrico Letta, de quem os socialistas gostariam mas que tem em Renzi, que o destituiu, um opositor feroz. “Não há ninguém que se destaque claramente”, diz a mesma fonte diplomática em Lisboa. Finalmente, Luis de Guindos, o ministro das Finanças espanhol, parece estar a fazer o seu caminho para vir a presidir ao Eurogrupo quando o seu homólogo holandês sair no próximo ano.

Falta ainda lembrar que Durão Barroso não desistiu de aproveitar um qualquer impasse para ser o candidato da conciliação para o Conselho Europeu. Esteve recentemente no Eliseu com François Hollande. As hipóteses que lhe são atribuídas são muito escassas.

Resta a Comissão, que também não será fácil. Juncker já disse que queria um socialista na pasta da UEM (uma vice-presidência). Pierre Moscovici, anterior ministro das Finanças, será o comissário francês e poderia ambicionar o lugar. Berlim já fez saber que se opõe. Os pelouros mais ambicionados e com mais poder, para além da UEM, são o Mercado Interno (é preciso coragem para liberalizar os serviços), a Concorrência e o Comércio Externo (quem vai negociar a Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento). São 27 países a satisfazer.