"A era em que alguma coisa podia ser desconhecida ou ignorada acabou"

Michael Azerrad testemunhou nos Estados Unidos o resultado da ética "do it yourself" aplicada à música e fez dela um livro, o influente Our Band Could be Your Life. É um dos convidados de um seminário na Faculdade de Letras do Porto.

Dan Deacon é apontado por Michael Azerrad como alguém que na sua cidade, Baltimore, preserva a ética <i>do it yourself</i> de uma forma contemporânea
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Dan Deacon é apontado por Michael Azerrad como alguém que na sua cidade, Baltimore, preserva a ética do it yourself de uma forma contemporânea Paulo Pimenta
Michael Azerrad, jornalista e escritor, um dos convidados do seminário “<i>Another Music In a Different Room</i>”
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Michael Azerrad, jornalista e escritor, um dos convidados do seminário “Another Music In a Different Room DR

Chega o punk, os Ramones e os Sex Pistols. Salta-se para os Talking Heads e, daí, directamente para os Nirvana. Onde estavam os Black Flag, os Replacements, os Sonic Youth ou os Minutemen, bandas determinantes pela música e pela postura política (declarada ou não), expressa no Do It Yourself (DIY) aplicada à gravação, edição, distribuição, divulgação e concertos?

Como não estavam, Michael Azerrad escreveu Our Band Could Be Your Life – Scenes from the American Indie Underground 1981-1991, que se tornou uma obra de referência não só pela documentação de uma época e de uma comunidade de músicos, mas pelo retratar de uma ética contracultural, orgulhosamente alheia à grande indústria.

Michael Azerrad é, a par do historiador de arte Will Straw ou do professor de Estudos Culturais George McKay, um dos convidados do seminário avançado “Another Music In a Different Room”, entre 14 e 16 de Julho na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Coordenado pela socióloga Paula Guerra e pelo sociólogo australiano Andy Bennett, o seminário está integrado no congresso “Keep It Simple, Make It Fast” que teve lugar esta semana e que foi acontecimento académico aberto à rua – para além da Faculdade de Letras, envolve-se a Casa da Música, o Plano B ou a Matéria Prima e, além das palestras e discussões, fazem-se DJ sets, montam-se exposições. Desconfiado da intervenção da Academia no contexto rock, mas “disponível para ser convencido”, Michael Azerrad respondeu por email às perguntas do PÚBLICO.

Viveu enquanto fã e jornalista a cena independente americana à qual dedicou Our Band Could Your Life. Tendo em conta o que testemunhou à época e o que vê hoje, será correcto afirmar que aquilo que mudou foi, basicamente, a tecnologia: a cultura DIY mantém-se, mas agora, em vez de fanzines existem sites e blogues, e a promoção é feita em meio digital, nas redes sociais.

O objectivo da cultura DIY é o mesmo que era nos anos 1980 – usar a tecnologia para permitir às pessoas a criação dos seus próprios media, em vez de aceitarem passivamente aquilo que as grandes empresas decidem que devem ver e ouvir. Nos anos 1980, uma tecnologia como a fotocopiadora tornou-se mais disponível ao público – foi isso que nos deu a fanzine. Pouco depois, as máquinas de gravação caseira de 4 pistas deram-nos a música indie “lo-fi” gravada autonomamente. Agora, temos a internet e temos muitos blogues. Agora, o software de gravação é muito barato e fácil de utilizar, e temos músicos a fazer gravações muito sofisticadas em casa. Era esse o sonho de qualquer comunidade DIY dos anos 1980: que cada um criasse a sua própria cultura.

Num mundo globalizado, ligado em tempo real pela internet, ainda é possível assistir ao nascimento de uma verdadeira cena musical local, enraizada e inconfundível da cidade em que nasceu?

As pessoas podem fazer música em conjunto, mesmo se separadas por grandes distâncias, através do email e da partilha de ficheiros. Mas não existe substituto para a partilha do mesmo espaço físico —enquanto seres humanos, florescemos nesse contexto, está na nossa natureza. Há coisas que resultam disso que nunca aconteceriam no mundo virtual. É por isso que o Occupy Wall Street lutou tão arduamente para se manter no Zuccotti Park [em Manhattan, Nova Iorque].

Há grandes comunidades [musicais] espalhadas por todos os Estados Unidos: Nashville, Houston, Nova Orleães, Oakland e muitas outras. Há uma fantástica em Baltimore: o excepcional Dan Deacon monta concertos em lofts com vários tipos diferentes de música. O Jenn Wasner, da banda Wye Oak, cantou recentemente num álbum de Drew Daniel, da banda de electrónica Matmos. Os Future Islands nasceram nessa comunidade, tal como os Beach House. Nenhuma dessas bandas tem um “som de Baltimore”, o que é bom – a ideia por trás do punk rock era criar um contexto em que os artistas podem ser eles mesmos, não imitarem-se uns aos outros.

As bandas retratadas em Our Band Could Be Your Life formavam uma comunidade que desejava manter-se independente do universo mainstream. Eram guiadas pela noção de que a música devia ser criada, vivida e divulgada enquanto manifestação artística intocada pelo comércio capitalista. Actualmente, essas posições ideológicas não são tão radicais. Por exemplo, na maioria dos casos, bandas e seus fãs não vêem o licenciar de canções para publicidade como uma traição.

Isso acontece precisamente por a cultura indie/DIY ter sido espectacularmente bem-sucedida. Integrou-se no mainstream, em parte porque as pessoas que vêem dessa comunidade chegaram à meia-idade e atingiram posições de poder no meio cultural. Nos anos 1980, o underground não queria ter nada a ver com o mainstream, e vice-versa. Mas agora esse tipo de música tem uma demografia muito atractiva comercialmente. E as empresas vão para onde está o dinheiro. 

Havia um ethos político muito mais marcado no indie dos anos 1980. Basta ver todas as bandas que compuseram canções anti-Ronald Reagan. Ele era o rosto para exprimirem o seu descontentamento politico. E os músicos seguiam o caminho do dinheiro. Há alguns anos, a banda canadiana Godspeed You! Black Emperor publicou um diagrama ligando as várias editoras multinacionais a várias empresas e actividades que consideravam censuráveis. Já não há muitas bandas com esse tipo de consciência. E isso é muito triste.

Há alguns meses, quando da edição de Morning Phase, Beck dizia-nos: “Outras eras tinham outras limitações, mas parecia existir mais liberdade e espontaneidade na criatividade. Sinto que há melhor música a ser feita agora, mas que há menos música com essa pureza de espírito”. Num momento em que todos temos uma consciência tão aguda da cultura pop, quando toda a informação está disponível, a especificidade da música como emanando de um lugar e como autobiografia tende a diluir-se?

Talvez essa ideia de lugar não seja essencial à boa música, talvez esse seja um valor ultrapassado a que as pessoas se agarram porque são incapazes de abordar música nova com um espírito aberto. Quando a ser autobiográfica, toda a música o é inerentemente – é uma gravação sónica dos pensamentos e sentimentos de alguém num tempo particular.

Vivemos tempos muito estúpidos. Não sei o que se passa em Portugal, mas o discurso político nos Estados Unidos é dominado por idiotas ignorantes e irados. Neste contexto, criar algo que demonstra inteligência, bom gosto e que revela boas ideias é uma afirmação muito poderosa.

Escreveu Our Band Could be Your Life porque quase nada existia que documentasse uma geração de bandas cuja relevância tinha escapado ao grande público e aos media mainstream. Entre a diversidade de cenas que coexistem actualmente, existe alguma que sinta que está a ser ignorada e à qual deveríamos prestar atenção?

A era em que alguma coisa podia ser desconhecida ou ignorada acabou. A música mais obscura é levada à atenção do público muito rapidamente. A prova é que podia inventor uma cena ou um género para responder à sua pergunta, mas depois iria googlá-la e perceberia instantaneamente que eu estava a inventar tudo. Hoje, tudo o que existe é documentado.

Vem ao Porto para um seminário sobre as cenas musicais contemporâneas. A ideia de universidades e académicos a estudarem a música rock seria estranha à geração punk. Acha importante que a cultura pop seja reconhecida desta forma pelo meio académico, considerando a relevância que ela tem assumido, social e culturalmente, de uma forma transversal, nos últimos 50 anos?

Quando era pequeno, os académicos não levavam a música popular urbana muito a sério. Não se estudava a música rock nas universidades, isso seria completamente ridículo, as pessoas rir-se-iam da ideia. Aprendi sobre música rock a ler livros, jornais e revistas, a ouvir música e a ir a concertos. E os meus livros não assumem de todo um tom académico ou intelectual. Vejo com alguma desconfiança pegar em algo que é tão livre e divertido e transformá-lo num compêndio universitário. Mas estou disponível para ser convencido.