Clara Riso: uma jovem programadora para dirigir a Casa Fernando Pessoa

A nova responsável substitui no cargo a escritora Inês Pedrosa e vai acumular a direcção artística e a gestão.

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Clara Riso foi leitora de Português do Instituto Camões em várias cidades da Europa de Leste, nomeadamente em Budapeste e Belgrado. Diogo Tavares

O presidente da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) da Câmara Municipal de Lisboa, Miguel Honrado, anunciou esta terça-feira que Clara Riso, leitora de Português do Instituto Camões em Budapeste entre 2004 e 2012, irá dirigir a Casa Fernando Pessoa.

Segundo Miguel Honrado, a nova directora entrou em funções na segunda-feira e foi já apresentada esta terça-feira à equipa da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Clara Riso sucede à jornalista e escritora Inês Pedrosa, que se demitiu do cargo em Abril deste ano, após ter permanecido seis anos à frente da instituição.

O presidente da EGEAC adiantou ainda que a Casa Fernando Pessoa passará, a partir de agora, a ser dirigida num modelo unipessoal e com um mandato de quatro anos, avaliável no final de cada período, para ser rotativo. A anterior direcção, que tinha um mandato até 2015, era composta por Inês Pedrosa, na direcção artística, e Carmo Mota, na direcção executiva.

Miguel Honrado escusou-se a comentar as circunstâncias da demissão de Pedrosa, dizendo apenas que esta tinha decidido "dar o lugar a outra pessoa”, e acrescentando que o balanço da sua direcção “é bastante positivo, porque trouxe à Casa Fernando Pessoa uma grande notoriedade".

Como o PÚBLICO então noticiou, Pedrosa demitiu-se alegando que desejava dedicar-se a novos projectos, mas a sua saída coincidiu com um inquérito que lhe foi movido pela EGEAC (empresa tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa), cujas conclusões apontavam para a cessação do contrato.

"Clara Riso é uma pessoa ligada a projectos da língua e cultura portuguesas, sobretudo no estrangeiro, tem uma grande experiência na gestão de projecto e dinâmica de projecto, e também em gerir recursos humanos e financeiros", disse ainda o presidente da EGEAC, que salientou a transversalidade do trabalho da nova directora, ligando a língua e a literatura a áreas como o teatro, a dança e as artes plásticas.

“Quisemos uma pessoa que fosse eminentemente uma programadora”, disse ao PÚBLICO, notando que os anteriores directores “tinham essa competência, mas eram antes de mais escritores e jornalistas de renome”. E a escolha de Clara Riso, de 35 anos, é também, realça Honrado, “um modo de responsabilizar uma nova geração de gestores culturais”.

Assumindo que a EGEAC “dialogou com várias pessoas”, diz que no contacto com Clara Riso “transpareceu logo uma correspondência ao perfil que procurávamos”. E uma das características desse perfil era tratar-se de “uma pessoa que, em relação ao complexo e denso mundo pessoano, fosse equidistante”.

“Para mim é um desafio muito estimulante, que assumo com grande empenho e entusiasmo", disse ao PÚBLICO a nova directora, que esclareceu estar neste momento “a fazer o diagnóstico do que foi feito até aqui, e do trabalho em curso, para depois avançar com propostas que sejam pertinentes, viáveis e criativas”.

Leitora de Português em Budapeste, na Hungria, e depois, por um breve período, em Belgrado, na Sérvia, as suas funções incluíam deveres de programação, uma vez que era responsável pela acção cultural externa, o que, observa, a obrigou a manter-se “sempre actualizada com o que se passava no meio literário e artístico português” e em contacto com instituições e artistas.

Não sendo uma pessoana, e interessando-lhe “abrir a Casa a novas áreas culturais”, Clara Riso sublinha que “o eixo será sempre a obra de Fernando Pessoa”, uma obra “de tal forma complexa, múltipla, revisitável, em constante produção de sentidos, que é um estímulo contínuo à programação”.

Formada em Línguas e Literaturas Modernas/Estudos Portugueses e em Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), com a tese Livros de folhetos: memória e montagem – os casos de Carlos de Oliveira e Herberto Helder, que teve como orientador o ensaísta e poeta Manuel Gusmão, a nova directora tem ainda um mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com uma tese sobre mobilidade artística transnacional, e integra desde 2001 o Centro de Estudos Comparatistas da FLUL.

Colaborou também com a companhia Real Pelágio, da coreógrafa e bailarina Sílvia Real e do músico Sérgio Pelágio, foi investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e tem desenvolvido trabalho de programação em diversas áreas, do teatro e da dança ao cinema e à música.

Coordenadora das duas edições de Grandes Lições, publicações do programa de cultura contemporânea Próximo Futuro, da Gulbenkian, com direcção artística de António Pinto Ribeiro, Clara Riso é ainda autora de diversos trabalhos no domínio do ensaísmo literário, tendo-se interessado especialmente por autores como Herberto Helder, Carlos de Oliveira, Luiza Neto Jorge ou Nuno Bragança.

O pessoano italiano Antonio Cardiello, que coordenou com Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari o projecto de digitalização e colocação on-line da biblioteca particular de Fernando Pessoa, e que é consultor da CFP, mostra-se “agradado” com a nomeação de Clara Riso, que conhece bem e cujas capacidades elogia, mas não esconde a surpresa pelo facto de a escolha ter recaído em alguém que, ao contrário dos seus antecessores no cargo, “não é uma figura pública”.

“Conheço-a desde 1999, fomos colegas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na disciplina de Estudos Pessoanos, do professor Fernando J. B. Martinho”, diz Cardiello, que a descreve como “uma aluna brilhante, uma pessoa muito culta, muito amável, com qualidades humanas e intelectuais invulgares, e com uma grande facilidade em juntar pessoas”.

“Não é uma pessoana”, reconhece, “mas a Inês Pedrosa também não era, como não o eram os anteriores directores”, e Clara Riso, diz, “tem um amplo conhecimento da literatura portuguesa”.

Admitindo que o percurso da nova directora, quer como “professora no estrangeiro”, quer na “organização de eventos”, não inclui nenhuma experiência comparável à do cargo que agora irá ocupar, Cardiello observa, no entanto, que o facto de “ser alguém com quem é fácil dialogar”, e que “deixa as pessoas muito à vontade”, pode ser uma mais-valia no relacionamento com a “turbulenta família dos pessoanos”.

Independentemente dos méritos da nova directora, este consultor da CFP acha que o seu mandato irá “depender muito do orçamento de que vai dispor”. E admite que exista a intenção de “equilibrar a situação em termos de gastos” e de se “mudar um pouco a maneira de gerir a Casa".

Entre os projectos que já tinham sido acordados com a direcção cessante, o pessoano espera que não venha a ser sacrificado um trabalho de levantamento e tratamento sistemático da marginália que Pessoa deixou manuscrita nos livros da sua biblioteca.

Já o pessoano Richard Zenith não conhece a nova directora, mas congratula-se com o facto de a escolha não ter recaído num pessoano. “Tenho sempre dito que é preferível que não seja um pessoano a dirigir a Casa, mas alguém com um perfil mais vasto… e que mantenha alguma distância do homem”.