Hospitais atendem cada vez mais grávidas com fome

No Hospital Amadora-Sintra, mas também no Pedro Hispano, em Matosinhos, há grávidas que são internadas para garantir que são alimentadas. Ministro diz que são casos próprios dos “tempos difíceis” que o país atravessa. O problema agudiza-se,segundo os assistentes sociais, porque as instituições que lhes deveriam dar apoio estão em ruptura.

Há grávidas que chegam aos serviços de urgência dos hospitais com fome. No Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, há mulheres que chegaram a ficar internadas “um ou dois dias apenas porque tinham que se alimentar”, segundo adiantou o diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia daquele hospital, Pedro Tiago, à Rádio Antena 1. No Hospital Amadora-Sintra há também casos de bebés que não recebem alta porque as famílias não têm condições para os acolher.

Apesar de não ser uma situação generalizável a todas as maternidades ou hospitais, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, reconheceu que chegam cada vez mais ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) “pessoas em condições difíceis próprias dos tempos difíceis em que estamos”. No final da visita que efectuou esta segunda-feira ao IPO de Lisboa, Macedo sustentou que a resposta aos casos sociais tem vindo a ser melhorada, sendo que estará em curso uma “revisão da legislação para que todos os casos de carácter social possam ser tratados na sua esfera própria que é a social”.

O problema aqui é que as instituições “a quem está atribuída essa função estão no limite dos seus recursos”, como adiantou ao PÚBLICO a presidente da Associação dos Profissionais de Serviço Social (APSS), Fernanda Rodrigues. “Há uma clara desproporção entre os recursos que têm e as necessidades a que têm de responder, também porque assistimos ao empobrecimento de grupos da população que não estavam a ter de lidar com situações deste tipo”, declarou aquela responsável, para quem “é paradoxal que, numa altura em que as políticas parecem estar a orientar-se para a promoção da natalidade, haja situações tão complexas a afectar, não só grávidas e crianças, mas famílias inteiras”.

Tal como se verificava tradicionalmente entre os idosos, começam a ser também mais expressivos os casos de bebés cuja alta é protelada porque as respectivas famílias não têm condições para os receber. “O internamento corresponde a carências de vária ordem e o recurso ao internamento não abona nada a favor dos serviços aos quais compete dar resposta”, insiste a presidente da APSS.

No caso do Amadora-Sintra, que detém uma das maiores maternidades do país, tornou-se “cada vez mais frequente”, ter de ser o hospital a alimentar as grávidas para viabilizar a realização de alguns exames. “Há alguns exames que fazemos, nomeadamente o CTG [destinado a avaliar a frequência cardíaca do feto e as contrações uterinas], que não vale a pena fazer se a grávida não tiver comido porque o bebé não está reactivo”, adiantou à Antena 1 a enfermeira especialista em saúde materna Elsa Guerreiro, segundo a qual são cada vez mais as mulheres que à pergunta sobre se comeram alguma coisa se desculpam com o facto de terem saído de casa à pressa ou de se terem esquecido da carteira. 

A situação agravou-se no último ano, segundo aquela responsável. E os problemas sentidos pelas grávidas estendem-se, claro, aos bebés. “Logo na admissão, no caso de os pais estarem desempregados, elas são automaticamente referenciadas à assistente social, para saber se é necessário algum apoio ou não, mas, efectivamente, temos muitas crianças retidas na instituição, que não têm alta, porque a família não tem condições para as acolher”, acrescentou ainda Elsa Guerreiro.

AO PÚBLICO, fonte daquele hospital adiantou que em 2013 houve 687 crianças encaminhadas para os serviços sociais pelos serviços de Pediatria. Daquele universo, 400 casos relacionavam-se com carências económicas, às quais se aliavam também a falta de condições psicológicas ou da disponibilidade de apoio da família (358 casos) e a existência de ambientes familiares problemáticos (147 casos).

No Hospital de Santa Maria, por seu turno, não há conhecimento de situações deste tipo, conforme adiantou o director do serviço de Obstetrícia, Luís Graça, admitindo que tal decorra do facto de ali irem parar os utentes de zonas como Alvalade, Campo Grande e Lumiar, onde não haverá tantos casos de miséria. No hospital de Braga também não há conhecimento de situações similares, mas aqui será por se tratar de uma zona “de cariz ainda rural, onde as redes de solidariedade familiares e de vizinhança funcionam e impedem que quem precisa chegue a uma situação tão dramática”, conforme adiantou fonte daquele hospital.