Papa quer encontrar "soluções" para o celibato dos religiosos na Igreja

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"O celibato não é um dogma de fé", sublinha o Papa Francisco ANDREAS SOLARO/afp

Francisco reconhece que esta é uma questão que, mesmo não sendo urgente nem grave, a Igreja deve discutir

O Papa Francisco reconheceu, numa conversa com o fundador do jornal italiano La Reppublica, que a Igreja deve ponderar o celibato obrigatório dos padres, uma questão que não considera urgente mas para a qual quer encontrar "soluções".

Foi já a terminar o seu terceiro encontro com Eugenio Scalfari, fundador do jornal e ateu convicto, que Francisco falou sobre um dos temas que, de forma regular, despontam no debate entre católicos, sem que o Vaticano alguma vez tenha aceitado abrir uma discussão.

"O celibato foi estabelecido no século X, 900 anos após a morte de Cristo, e a Igreja católica de rito oriental permite que os seus padres se casem", recordou o Papa, que já em Maio, no regresso da peregrinação ao Médio Oriente, tinha sublinhado que o celibato obrigatório "não é um dogma de fé" e, por isso, "a porta está sempre aberta" a uma mudança.

Na conversa com Scalfari, que o jornal reproduzia ontem, Francisco terá ido mais longe: "É certamente um problema, ainda que não seja grande. Precisa de tempo, mas há soluções e eu vou encontrá-las."

Numa reacção à publicação do artigo, o porta-voz do Vaticano afirma que as "frases atribuídas ao Papa "entre aspas" resultam da memória do jornalista e não são uma transcrição precisa de uma gravação ou muito menos de uma verificação da parte daquele a quem são atribuídas". O padre Federico Lombardi, que já tinha feito um reparo idêntico aquando da publicação de uma anterior conversa, sublinha que não se tratou "de uma entrevista no sentido habitual do termo", embora o sentido geral da conversa seja correcto.

Com as igrejas de vários países ocidentais a enfrentarem uma grave crise de vocações e com sinais de aumento no número de padres que abandonam o sacerdócio para se casarem, há muitas vozes a defender o fim da obrigatoriedade do celibato e a pedir a Francisco que inclua o tema nas reformas que propõe para a Igreja.

Pela frente têm a oposição de boa parte das chefias católicas e dos sectores mais conservadores, que insistem que só sem as responsabilidades familiares pode um padre dedicar-se plenamente ao serviço da Igreja. Francisco, no regresso do Médio Oriente, descrevia o celibato como "uma regra da vida que muito aprecia" e "uma dádiva à Igreja" por parte dos que são ordenados.

Ao La Reppublica, o Papa voltou também a falar sobre a pedofilia, que descreve como uma "lepra" da sociedade, a que a Igreja não é imune. Revelou que os seus assessores lhe mostraram estatísticas de que "a pedofilia na Igreja está ao nível dos 2%".

"Estes dados deveriam tranquilizar-me, mas acho-os gravíssimos. Dois por cento dos pedófilos são padres e até bispos e cardeais. E muitos outros, ainda mais numerosos, sabem mas condescendem, punem mas não revelam o motivo. Acho esta situação insustentável e é minha intenção confrontá-la com toda a severidade que merece."

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