Mestria e espírito de aventura

Morreu o contrabaixista Charlie Haden, um dos mais influentes jazzmen de sempre e um músico cuja imensa obra trespassa toda a história dos últimos 50 anos de jazz.

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Charlie Haden a ensaiar para um concerto em Madrid, em 2007 REUTERS/Andrea Comas
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Charlie Haden ao receber o seu último Grammy, em 2005 Robyn Beck/AFP

A morte de Charlie Haden, sexta feira passada, em Los Angeles, deixou em choque toda a comunidade do jazz. E fê-lo de forma transversal, atingindo todos os sectores do jazz, do mais vanguardista ao mais conservador, impactando ainda todos os que o conheceram por colaborações fora deste género musical, como aquelas que realizou com Rickie Lee Jones ou com o mestre Carlos Paredes. Tinha 76 anos.

Charlie Haden nasceu a 6 de Agosto de 1937 em Shenandoah, Iowa, crescendo na cidade de Springfield, Missouri. A sua família tinha um programa de rádio dedicado ao country & western, e Haden começou a cantar em público apenas com dois anos. Aos 15 foi-lhe diagnosticada pólio, uma doença que lhe paralizou as cordas vocais. É nessa altura que decide aprender a tocar contrabaixo. Em 1957, com apenas 20 anos, muda-se para Los Angeles, e integra-se rapidamente na comunidade jazz da West Coast. São dessa altura as suas colaborações com Ornette Coleman, ao vivo e em disco, verdadeiros tubos de ensaio, revolucionários, para o jazz que haveria de vir. The Shape of Jazz to Come (1959), Change of the Century (1960) e This is Our Music (1961), todos gravados com o lendário quarteto de Coleman, são álbuns que redefiniram o papel dos instrumentos solistas no jazz, gerando uma explosão de novas possibilidades harmónicas e melódicas.

Mas se o seu trabalho com Coleman lhe valeu algumas escaramuças (com o público) e o reconhecimento como um ícone do jazz de vanguarda, a sua carreira viria a revelar-se bem mais diversificada. Ao longo de 60 anos tocou e compôs nos mais variados contextos. Um deles, e talvez aquele onde o seu lado poético e revolucionário mais se revelou, foi a extraordinária Liberation Music Orchestra, uma formação alargada onde militaram muitos dos grandes improvisadores da época - Gato Barbieri, Don Cherry, Andrew Cyrille, Tom Harrell, Paul Motian, Joe Lovano, Dewey Redman, Carla Bley ou Roswell Rudd, entre muitos outros. Interpretavam canções de protesto ou com fortes conotações políticas, num ambiente de festa e celebração onde jazz, folk e música do mundo se uniam para passar a mensagem ao maior número possível de pessoas. E é no segundo álbum deste grupo, The Ballad of the Fallen, que Haden grava uma versão memorável de Grândola Vila Morena (1982), tema de José Afonso que ficara como símbolo da revolução de Abril 74, reforçando uma ligação a Portugal que havia começado em 1971, por ocasião do primeiro Cascais Jazz.

Nessa altura, tocando pela primeira vez em Portugal, contra tudo o que seria razoável e permitido pelo sistema, Haden saudou o Movimento de Libertação de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique, dedicando-lhe a canção Song for Che. O impacto foi histórico e a casa quase foi abaixo. Impedido de viajar, Haden foi detido pela PIDE, levado para a prisão e interrogado, acabando em liberdade após a intervenção do adido cultural dos Estados Unidos em Lisboa. Voltaria a Portugal por diversas vezes, incluindo passagens pelo Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Guimarães Jazz, acabando por cruzar-se com Carlos Paredes, com o qual gravou o álbum Dialogues, em 1990.

Outra das facetas do contrabaixista, esta bastante mais ligada a um jazz mainstream, embora não menos poético e imaginativo, é aquela que o levou a formar o ensemble Quartet West, numa parceria com o pianista Alan Broadbent, o saxofonista Ernie Watts e o baterista Larance Marable, dedicada à revisitação de temas do Film Noir, essencialmente dos anos 40. A música, radicalmente oposta àquela que havia criado com Coleman nos anos 1960, é profundamente cinemática e elegante, ornamentada com sofisticados arranjos de cordas e pin-ups vocais. Falando dessas diferenças e aludindo ainda a Rambling Boy, um álbum de country gravado em família com a sua mulher e filhos, Haden referia; "Quando pensamos no jazz como forma de arte, pensamos nos escravos a construir as linhas dos caminhos de ferro e na música que saiu dessa luta, mas pensamos também em todos os emigrantes irlandeses, escoceses e ingleses que trouxeram a sua música para as montanhas Ozark, onde eu nasci e fui criado. É toda uma só música. E eu só poderia ter nascido aqui."

Talvez por isso, ou por ter um espírito eternamente aventureiro e inquisitivo que lhe valeu o epíteto, por parte do New York Times de "um dos mais dotados e aventureiros contrabaixistas da história do jazz", Haden não parou nunca. Como sidemen, integrou alguns dos projectos mais influentes dessa história, sendo o mais importante o quarteto americano de Keith Jarret, com o qual gravou o surpreendente número de 13 álbuns, entre eles os superlativos The Survivor's Suite e Eyes Of The Heart.

Integrou o quarteto Old and New Dreams, basicamente o mesmo quarteto de Ornette Coleman, sem o líder e com Dewey Redman no seu lugar. Registou duos históricos com alguns dos grandes nomes do piano jazz, incluindo o brilhante Steal Away, gravado em duo com Hank Jones e dedicado à reinterpretação de espirituais negros, hinos e folk songs.

Numa carreira absolutamente gigante e diversificada, onde Haden tocou sempre com emoção e um som profundo, quente e vibrante, couberam ainda três prémios Grammy, o último dos quais pelo álbum Land of the Sun, em 2005, e colaborações com Hampton Hawes, Art Pepper. Jan Garbarek, Egberto Gismonti, Pat Metheny, Dizzy Gillespie, Lee Konitz, Joe Henderson, Alice Coltrane, Archie Shepp, Gonzalo Rubalcaba, Brad Mehldau, Michael Brecker ou Ralph Towner, entre muitos outros. Premonitoriamente, editou no início deste ano Last Dance, gravado em duo com Keith Jarrett, álbum cujas duas últimas canções se intitulam Every Time We Say Goodbye e Goodbye.

Crítico de jazz

Texto actualizado às 20h10