Opinião

Salvem o BES e deixem cair a família

O BES é um banco too big to fail. Mas a família não. Há quem fale numa relação incestuosa a nível das holdings.

É verde, viscoso e propaga-se a uma velocidade estonteante. Quem entrar em contacto com o vírus do BES começa a sentir vertigens e arrisca-se a uma queda valente. O trambolhão do BES, que ontem chegou a cair mais de 18%, foi tal que o regulador teve de suspender a negociação das acções, colocando o banco numa espécie de quarentena para não infectar as restantes empresas da bolsa.

O regulador tentou evitar o contágio, mas o pânico rapidamente se instalou nos mercados. A Portugal Telecom, já bastante infectada por ter estado em contado directo com o BES, afundou-se mais 7%, a banca foi toda atrás e nenhuma das empresas do PSI 20 saiu ilesa. Numa questão de segundos o que valia muito passou a valer pouco e o que valia pouco passou a não valer nada. Os juros da dívida pública dispararam e tiveram a maior subida desde a crise política de 2013, quando Portas apresentou a demissão “irrevogável”.

A crise no BES saltou fronteiras e fez mossa por esse mundo fora. Portugal voltou a ser manchete em todos os jornais internacionais. “Global markets tumble amid fears over portuguese lender”, escrevia ontem o The Wall Street Journal para nos contar que o vírus do BES já tinha contagiado as bolsas europeias e nos EUA. O espanhol Banco Popular cancelou uma venda de dívida convertível, o grupo farmacêutico italiano Rottapharm abortou um IPO e na Grécia o Governo reduziu uma colocação de dívida pública por falta de procura.

O Espírito Santo não é um banco too big to fail a nível europeu. Mas a Lehman Brothers também não o era quando faliu. Pela reacção ontem dos mercados é fácil perceber que existe um risco sistémico, caso o BES vá ao charco. O assunto é particularmente sensível nesta altura em que bancos europeus estão todos a tentar alindar os balanços para realizarem os testes de stress do BCE.

O Banco Espírito Santo tem nesta altura dois problemas: um de liderança e outro de contabilidade. O problema de liderança já foi aparentemente resolvido pelo Banco de Portugal, que tratou de afastar Ricardo Salgado e toda a família da gestão executiva do banco. Não se sabe se por falta de competência, de idoneidade ou de honestidade. Nunca o disse. Carlos Costa limitou-se a abrir uma porta para que Ricardo Salgado e Companhia saíssem com alguma dignidade. E nem isso conseguiram.

Resta um problema de contabilidade. É verdade que os rácios de capital do banco são sólidos. Mas o problema do BES resulta de uma intrincada teia de holdings: a ES Control, o quartel- general da família, detém 56,5% da ES International, que, por sua vez, é dona de 100% da Rioforte, que, por seu lado, controla 49% da ESFG, que é o maior accionista do BES, com 25% do capital. Estas empresas da família têm todas relações entre si, emprestam dinheiro e compram coisas umas às outras numa relação que ontem um colunista do Financial Times qualificava de “terrivelmente incestuosa”.

É uma espécie de matrioska financeira. E no final há uma boneca pequenina que está falida. Aliás, uma das justificações dada pela Moody’s para baixar o rating da ESFG é precisamente a “falta de transparência em torno não só da situação financeira do Grupo Espírito Santo, mas também da amplitude das ligações intragrupo”.

O problema é que ao final do dia não se percebe até que ponto o banco está ou não refém dessa cascata de holdings. E aí é que o mercado começa a desconfiar. Se as holdings falirem, o problema é da família, azar o deles. Mas se as holdings contagiarem o banco, o problema já é de todos nós.

O que se sabe até agora é que o BES emprestou 200 milhões à Rioforte e outros 780 milhões à ESFG. É muito dinheiro e aí o problema não é tanto de quem pediu emprestado, mas de quem emprestou. Como dizia o magnata americano Jean Paul Getty: “Se deves 100 dólares ao banco, o problema é teu. Mas se deves 100 milhões, o problema já é do banco.” Apesar de tudo, mil milhões de euros de perdas o BES terá com certeza estofo para aguentar em caso de default das holdings. O problema é que, além dos empréstimos, os clientes de retalho do BES têm uma exposição às holdings da família que chega aos 651 milhões; e a exposição dos clientes institucionais do banco às empresas do grupo é de 1,94 mil milhões. Em caso de incumprimento, quem vai responder por esta dívida que não é do BES, mas que o banco vendeu nos seus balcões? Há aqui um enorme risco, nem que seja jurídico, que o banco tem de explicar.

Mas nem o Banco de Portugal, nem BCE, nem o Governo vão deixar cair o banco. Se as holdings da família estão falidas e não têm dinheiro para pagar o que o banco e os clientes lhes emprestaram, o Estado deveria simplesmente obrigar a família a vender a posição de 25% que detém no BES e usar o dinheiro para saldar pelo menos parte do que devem. Isto, partindo do princípio que os 25% ainda não estão hipotecados e a servir de colateral a algum empréstimo. Com novos accionistas, fazia-se um rebranding, até porque hoje em dia o maior passivo do BES é reputacional; é o nome da família “Espírito Santo”, que carrega na marca. E se a família recusar sair do BES, o Estado tem sempre a bomba atómica de nacionalizar o banco. E aí não há nenhum vírus que sobreviva.