Torne-se perito Entrevista

Duo com Nova Iorque em fundo

Ao mesmo tempo que viviam uma gravidez, Sara Serpa e André Matos conceberam um disco sublime. Primavera é um sedutor lugar de sintonia.

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JEN PAINTER

Durante quatro anos, Sara Serpa e André Matos entraram em estúdio para registar um duo que crescia dentro da sua casa em Nova Iorque e regularmente transbordava para concertos aqui e ali. Mas talvez por essa familiaridade e esse conforto de estarem a dois, nunca levavam até ao fim o formato e saíam de estúdio sem a convicção de que havia um disco a palpitar naquelas gravações. Desta vez, em 2013, decidiram que estava na altura de avançar sem hesitações. E para isso, valeram-se, por exemplo, dos 93 anos da professora de piano Sophia Rosoff, com quem partilharam os resultados da primeira sessão de estúdio. Seguidora dos métodos holísticos de Abby Whiteside, Rosoff emergiu como uma espécie de oráculo. “Temos este tema, não sabemos muito bem como resolvê-lo, estamos um pouco bloqueados”, anunciava Sara. “Estivemos duas ou três horas em casa dela, tocámos, ela deu a sua opinião e a sua bênção, e saímos de lá a pairar."

Para o guitarrista, foi igualmente “um momento marcante”, mas André destaca “as dores de cabeça de tanta concentração” para integrar devidamente os ensinamentos de uma mulher-farol que tanto é procurada pelo jazzman Fred Hersch como pela pianista clássica Mitsuko Uchida. A ideia passada por Rosoff aos dois, de que o ritmo do corpo deve ajudar a conduzir a música e de que a abordagem de um instrumento implica muito mais do que a ponta dos dedos, a que se juntaram os os conselhos obtidos junto do notável compositor Guillermo Klein, foram usados pelo casal na busca de extrair a maior justificação possível para cada melodia. Cuidaram dos pequenos trechos musicais como do bebé que estava ao mesmo tempo em gestação. “Quisemos tratar bem cada melodia, garantir que cada momento fosse mesmo precioso, não fosse fortuito”, acrescenta a cantora. 

Esse cuidado estende-se do primeiro ao último segundo de Primavera, concretizado num equilíbrio delicado, belo e pouco percorrido por voz e guitarra. O deadline para as gravações foi relativamente fácil de estabelecer: quando o filho de ambos decidisse espreitar o mundo, forçavam também o nascimento do disco. Mas para ter a certeza de que cumpriam esse calendário recorreram a outro estratagema – marcaram estúdio em Nova Iorque, cidade onde vivem e onde os custos de gravação são altíssimos.

Primavera é, num certo sentido, um processo de descoberta e revelação. Embora há muito colaborassem nos projectos um do outro, Sara e a André não tinham ainda investido a sério na exploração de uma linguagem que, até agora, existia apenas num plano potencial. “Esse código já estava desbloqueado”, defende o guitarrista, “mas acho que não tínhamos ainda encontrado alguma coisa que pudéssemos fazer os dois e em que acreditássemos plenamente. Também não sabíamos que era isto, mas aconteceu assim, criou-se uma certa forma e deixámos a coisa avançar.” Ao vivo, justamente, o duo tinha passado sobretudo pela interpretação de standards de jazz e algumas escolhas de música brasileira, outras vezes experimentado um formato mais livre, mas sempre sem passar pela criação de um reportório que estruturasse em definitivo a identidade partilhada.

Primeiro, pensaram em algo de absoluta crueza, apenas guitarra e voz, num esquema essencialmente acústico. Depois, sem comprometer a notável intimidade que ensopa cada um dos temas, permitiram-se uns apontamentos de piano assinados por Sara e as intromissões parcimoniosas de Greg Osby (saxofone), Leo Genovese (melódica, kosikas, bombo, piano e guitarra de brincar) e Pete Rende (teclados). Tudo simples, sem cair num excesso que camuflasse a ligação entre uma guitarra que evita exemplarmente a esparrela da replicação ad nauseam do som de Bill Frisell ou Kurt Rosenwinkel e o fraseado vocal que tão depressa soa a um saxofone como a um canto etéreo de uma pop paredes-meias com a música litúrgica. E os dois fazem-no concentrando-se com inteligência na composição e não na demonstração técnica. É nessa escolha que Primavera revela todo o seu fundo encanto.

A energia dos outros

Primavera apanha Sara Serpa num soberbo movimento ascensional no meio jazzístico nova-iorquino. Depois de ter sido arrebanhada por Greg Osby para a sua trupe de colaboradores próximos a partir do MySpace, passando a gravar para a editora deste (Inner Circle), veio recentemente a integrar o quarteto vocal Mycale (um dos projectos de John Zorn para interpretar a sua obra, aqui a partir do Book of Angels), com o qual gravará no início de 2015, e foi distinguida há semanas pela prestigiada revista Downbeat na sua exigente lista anual de Rising Stars. Ainda que não force a mão nesse sentido, o álbum mapeia também de forma natural as relações musicais estabelecidas pelos dois em Nova Iorque, convocando Osby, Genovese e Rende, mas também composições de Guillermo Klein e Ran Blake. “Desde que fomos para Nova Iorque, conhecemos músicos que nos abriram muitos horizontes, não em termos comerciais, mas de cabeça e na maneira como pensamos a música e as suas possibilidades”, descreve André. Sara fala sobretudo de “uma energia que se põe na música, uma força vital” que os percursos alheios lhe inspiram.

“Ao princípio, uma pessoa cai em Nova Iorque de pára-quedas, mas depois vai percebendo e sabendo lidar com as personalidades e as musicalidades de cada um”, dizem ainda. Só que a chegada ao solo dos pára-quedas do casal foi amortecida de forma considerável pelo facto de Greg Osby ter agido de imediato no reconhecimento do talento da cantora. “Houve o lançamento da editora e os discos, todo um buzz à volta disso e, de repente, propiciou-se tocarmos em sítios como o Village Vanguard onde, se calhar, demoraríamos anos a chegar”, admite Sara. Mas essa “situação privilegiada”, como lhe chama André, deve-se àquilo em que Primavera é pródigo: uma linguagem que repele clichés, que se banha numa inventividade magnífica (oiça-se a exemplar Kubana, inesperadamente evocadora das criações mais exultantes de Ryuichi Sakamoto) e que integra poemas de Fernando Pessoa e e.e. cummings sem soar reverente ou bafienta. Aquilo que dizem ser a maior generosidade de Nova Iorque, oferecer espaço para cada um encontrar a sua voz, Sara e André conseguem-no a dois neste disco. Sem dessintonias nem atalhos fáceis.

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