BES fez regressar fantasma da crise aos mercados internacionais

Juros da dívida pública portuguesa a 10 anos ultrapassaram os 4% em dia de instabilidade e nervos nos mercados.

O sector bancário liderava esta manhã as perdas
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O sector bancário liderava esta manhã as perdas Rafael Marchante / Reuters

Num regresso surpreendente a um passado recente, Portugal voltou ontem a dominar os noticiários económicos internacionais. E mais uma vez pela negativa, com a crise no BES a ser vista como motivo para o nervosismo e instabilidade que se sentiu ontem nos mercados financeiros, um pouco por todo o mundo.

Ao mesmo tempo que em Portugal as acções do BES caíam a pique até que fosse suspensa a sua negociação e o principal índice da Bolsa de Lisboa perdia mais de 4%, os principais mercados internacionais registavam perdas também significativas, principalmente no sector financeiro. Na Alemanha e na França, as bolsas terminaram o dia com perdas entre 1% e 1,5%. O índice Dow Jones da bolsa de Nova Iorque descia 0,5% a meio da sessão.

Por surpreendente que pareça – dada a dimensão da banca portuguesa comparada com a dos gigantes do sistema financeiro internacional –, o nome que estava na boca de investidores correctores e analistas durante o dia de ontem era o do BES. “O BES é o acontecimento mais importante neste momento com impacto nas acções europeias. Os investidores estão a largar as acções e as obrigações deste banco português”, afirmava durante a manhã ao Financial Times um analista do banco holandês Saxo Bank, assinalando que “este caso atingiu o sector financeiro europeu como um torpedo e reavivou nos investidores os seus pesadelos mais negros acerca da Europa”.

A explicação para que os mercados dessem tanta importância ao caso BES está, como explicava também ao Financial Times um responsável do Deutsche Bank, no facto de “os problemas no banco terem trazido de novo para a ribalta as questões sobre a saúde dos bancos da periferia e os mecanismos ainda em construção para lidar com instituições em dificuldades”. Uma nota publicada pelo banco Barclays à tarde colocava ainda a questão: como é que, durante a sua presença, a troika não conseguiu detectar estes problemas? Será que existem razões para duvidar das garantias das autoridades de que a estabilidade do sistema financeiro está assegurada?

É por causa destas incertezas que alguns dos investidores que, nos últimos meses, voltaram a aumentar a sua exposição à Europa periférica tiveram ontem uma reacção negativa às notícias vindas de Portugal. Foram vários os sinais de desconfiança. O Banco Popular tenha sido forçado, em Espanha, a adiar uma colocação de dívida de 750 milhões de euros que tinha planeada para esta quinta feira. O também espanhol Liberbank caiu 10% em bolsa, depois de ter anunciado que tinha uma exposição de 0,93% ao Espírito Santo Financial Group. E o Estado grego registou uma procura abaixo do planeado numa emissão de dívida pública a três anos.

E terá sido também por conta da incerteza em torno do BES que os títulos de dívida pública portugueses se tornaram, nos últimos dias, menos atractivos para os investidores internacionais. As taxas de juro da dívida a 10 anos fecharam o dia de ontem acima dos 4%, acentuando as subidas que já se tinham registado em dias anteriores. Este valor ainda está contudo bastante longe dos atingidos no auge da crise.