No Porto pensa-se a música popular e pensa-se o mundo

Formas alternativas de experimentar o mundo, movimentos sociais ou activismo político com música lá dentro. São esses alguns dos tópicos a abordar numa conferência e seminário internacional sobre culturas musicais urbanas que está a decorrer no Porto. Falámos com um dos coordenadores, o australiano Andy Bennett.

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Iggy Pop, um exemplo que continua a servir de modelo para diversas gerações Miguel Manso
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O sociólogo australiano Andy Bennett

É no Porto. Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mas porque a ideia é envolver a cidade, também está a acontecer na Casa da Música, na Matéria Prima ou no Plano B, com palestras, debates, documentários, DJs, música ao vivo ou exposições. É um congresso. Começou terça e vai até esta sexta-feira. Depois, entre segunda e terça-feira da próxima semana, adoptará o modelo de seminário. Há investigadores de diversos países e áreas, com saliência para as ciências sociais, mas também não é um mero evento académico.

O centro é a música. Mas como música nunca é apenas música, reflectir-se-á também sobre culturas urbanas, novos movimentos sociais, activismo político, questões de género, identidades, consumos culturais contemporâneos ou produção local ou global. O mundo, na sua complexidade, em ligação com a música.

O acontecimento chama-se Keep It Simple, Make It Fast! e os coordenadores responsáveis por colocar a reflectir sobre música inúmeros especialistas e não especialistas, do professor catedrático Augusto Santos Silva ao professor de estudos culturais George McKay, do investigador Rui Telmo Gomes ao historiador de arte Will Straw, são a socióloga Paula Guerra, que acabou de editar “A Insustentável Leveza do Rock”, e o sociólogo australiano Andy Bennett, director do Griffith Centre Of Cultural Research da Universidade de Queensland, e autor de obras de referência como “Music, Style and Aging” ou “Popular Music and Youth Culture”.

Durante muitos anos, em Portugal, escasseavam trabalhos académicos sobre cultura popular. A produção ensaística era quase nula. Nos meios de comunicação era avaliada como mero entretenimento. E de forma reveladora também estava ausente das políticas culturais. Hoje é, apesar de tudo, um pouco diferente.

Embora subsistam equívocos. Uma das noções que continua enraizada é essa ideia de que a cultura popular, em particular a cultura rock, é coisa da juventude, de jovens para jovens, sobre o que é isso de ser jovem. Como se fosse um ritual de iniciação.

O que se vislumbra cada vez mais é que a música se constitui também como modelo para as diversas fases da vida adulta, como tem constatado Andy Bennett, que tem abordado o assunto nas suas obras, existindo cada vez mais músicos veteranos em actividade e também público consumidor que foi envelhecendo em simultâneo.

“Quando estava a escrever ‘Music, Style and Aging’ e depois de falar com muitos hippies ou punks envelhecidos constatei facilmente que, mesmo quando já não adoptavam a espectacularidade visual de outrora, a sua identidade era construída à volta da forma como continuavam a absorver aqueles estilos”, diz-nos Andy Bennett. “Ou seja, absorveram aqueles valores e continuarão a praticá-los até ao último dia. Por outro lado as indústrias culturais adaptaram-se a esta nova realidade, porque Paul McCartney ou os Rolling Stones continuam aí, nos seus 70 anos, e ainda são modelo para quem com eles cresceu nos anos 1960. E o mesmo se poderia dizer de Iggy Pop ou de John Lydon (Sex Pistols) que continuam muito activos.”  

Não é difícil perceber que tem razão. Durante décadas as diferentes cenas musicais, e os diversos géneros associados, pareciam conflituar. Reagiam umas às outras. Os pais não consumiam o mesmo que os filhos. Hoje parecem sobrepor-se.

“Nas cenas musicais dos últimos dez anos existe uma maior tolerância geracional”, afirma Andy Bennett. “Em vez de conflito, parece existir uma maior continuidade. Há sobreposição de idades nos participantes destas manifestações culturais e respeito mútuo, uma sinergia e flexibilidade entre bandas mais novas e mais velhas, pelo facto das segundas serem referência das primeiras.”  

Uma coisa parece certa. Os conceitos de cena musical, as suas dinâmicas, a forma como se revelam, são diferentes hoje. Durante décadas distinguíamo-las pelas criações, condutas ou consumos.

Para todas elas vislumbrávamos um imaginário, personalidades, rituais ou orientações. Por norma esses movimentos nasciam localizados e os mais populares propagavam-se, sucedendo-se uns aos outros de forma linear ou sincrónica. Hoje parece que transportamos excesso de história. E também excesso de música.

“Isso é muito interessante, mas depende da parte do mundo onde nos situamos”, riposta Andy Bennett, dando o exemplo da Tunísia, onde estudantes a seu cargo fazem trabalhos de doutoramento sobre heavy-metal, rap ou electrónica. “À medida que a cultura popular ocidental vai sendo absorvida noutras latitudes, acontecem coisas fascinantes. Na Tunísia não há mediação temporal. Quer dizer, alguém ligado ao heavy-metal acaba por absorver, hoje, em simultâneo, os Led Zeppelin, Iron Maiden ou Mettalica, sem noção de que são de diferentes eras. É como se existisse uma compressão temporal. É aliciante perceber como é que um jovem da Tunísia reconfigura o que nos parece óbvio.”

A nossa percepção do tempo tornou-se porosa. É como se vivêssemos num tempo múltiplo, dinâmico e heterogéneo, onde passado, presente e futuro se confundem. Em vez de uma história da cultura popular com um percurso preciso e contínuo, temos cada vez mais regressos, descontinuidades, recuperações e convivências. “Quando era jovem tudo parecia encaixar: houve o glam-rock nos anos 70, depois o punk, a new wave, a música de dança ou o grunge e passávamos o tempo a falar de novos estilos de música, de novas modas, de novas ideologias. Agora todos esses elementos confluem juntos para a mesma paisagem cultural, está tudo misturado, parece que já não existe princípio e fim.”

A tecnologia, e a internet em particular, viabilizaram o acesso a todas as músicas, de todas as épocas, num ápice. Ou pelo menos, é essa a nossa percepção. Tudo está em circulação permanente, não apenas música, mas também os discursos que a suportam. Há muita informação. E mais rápida. O que não significa de melhor qualidade. E os acontecimentos advêm de forma estilhaçada.

Nem sempre é fácil produzir sentido para estes anos de híper-representação e de micro propagação viral. Nem sempre é simples vislumbrar movimentos de expressão artística e cultural, universais e duráveis, como nos habituámos a ponderar, mas eles continuam a existir, sob formas mais ou menos visíveis.

A conferência internacional do Porto não só pretende dar conta de todas estas novas dinâmicas, como nesta era do efémero e do virtual, dá também atenção às reconfigurações que se vão operando sobre acontecimentos com história que julgamos todos dominar como o punk. Mas a verdade é que as perspectivas são ilimitadas, até porque o princípio norteador do punk (a filosofia ‘faça-você-mesmo’) nunca esteve tão presente na criação de um circuito de difusão e circulação alternativo ao da cultura dominante.

Embora, claro, também a dicotomia entre cultura dominante e alternativa possa ser posta em causa. “Na obra ‘Club Cultures’ (1996), Sarah Thornton já descrevia como é que a cultura dominante era construída com os mesmos termos da alternativa. Hoje temos permeabilidades. Se olharmos para algumas das bandas alternativas de maior grandeza do nosso tempo, como os ingleses Arctic Monkeys, constatamos que são demasiado dominantes para os códigos alternativos. E vice-versa. Noutro espectro, por causa da internet, temos hoje bandas que operam em universos paralelos ao da indústria tradicional. Ou seja, de alguma forma, temos hoje uma indústria ultracomercial e do outro lado um filão alternativo que corre na internet. Temos dois extremos.”

É verdade que, hoje, já ninguém acredita que a música pode mudar o mundo. Mas a música pode contribuir para pensarmos sobre as construções ideológicas do mesmo. “E se a música puder contribuir para a transformação ideológica, então a sociedade tenderá a transformar-se”, diz Andy Bennett. “Nos anos 1960, através dos hippies, parecia existir essa ideia de que a música, por si só, poderia mudar o mundo. Hoje ninguém acredita nisso. Logo nos anos 1980, com o Live Aid, Bob Geldof percebeu-o (e John Lennon, antes dele, também o havia entendido), dizendo que a música por si só não iria mudar o mundo, mas poderia juntar as pessoas à sua volta e muitas delas com acesso aos meios de comunicação globais poderiam fazer chegar uma mensagem ao mundo, no sentido da alerta e da consciencialização.”

É isso. A música está intimamente ligada à maneira de indivíduos ou comunidades pensarem ou agirem, estando conectada com movimentos culturais, sociais ou políticos e com formas alternativas de experimentar o mundo. No Porto pensa-se a música. Pensa-se o mundo.