Opinião

Joseph Daul: um grande europeu

1. Antes mesmo de sabermos se Juncker será ou não eleito Presidente da Comissão, vale a pena conhecer o político e o homem que, nos últimos anos, mais directa e empenhadamente contribuiu, para que chegássemos a este verdadeiro momentum constitucional.

A homenagem é tanto mais justa quanto ele acaba de deixar o Parlamento Europeu (PE) e o cargo de presidente do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE), embora continue a ser, desde a recente morte de Wilfried Martens, presidente do PPE. E é tanto mais oportuna, quando desponta agora por aí a insinuação de vezo populista de que o europeísmo é uma forma qualificada de “anti-patriotismo”. Pois bem, Joseph Daul é bem o exemplo do casamento do melhor patriotismo francês com a mais funda convicção europeia.

            2. A primeira vez que, em plena preparação do Tratado Constitucional, se formulou como objectivo a ideia de lançar, nas eleições europeias, um candidato a Presidente da Comissão foi numa reunião política do PPE no Estoril, algures em 2002. A formulação fica a dever-se a dois espanhóis e a um alemão. A Gil Robles, antigo presidente do Parlamento Europeu, a Iñigo Méndez de Vigo, actual Secretário de Estado dos Assuntos Europeus do governo espanhol, e a Elmar Brok, um dos decanos e ainda hoje o mais influente dos deputados europeus. A ideia de que o Presidente da Comissão Europeia deveria pertencer à família política que vencesse as eleições foi fazendo o seu caminho e foi já claramente assumida em 2009, em que o PPE foi o único partido a apresentar um candidato, embora tivesse essa escolha muito facilitada por estar em jogo a recondução de Durão Barroso. O problema, com todos os seus corolários, só viria a pôr-se, portanto e verdadeiramente, em 2014.

            Ao longo de toda a legislatura 2009-2014, Joseph Daul bateu-se pela ideia de que o PPE deveria apresentar um candidato ao posto de Presidente da Comissão, que pudesse, de algum modo, “preencher” a formulação do Tratado de Lisboa que obrigava o Conselho Europeu a “ter em conta os resultados das eleições para o PE”. Considerava este passo indispensável para reforçar a legitimidade democrática das instituições europeias e para “religar” a Europa aos cidadãos. A verdade é que muitos dos dirigentes nacionais dos partidos do PPE – e, em especial, os que ocupavam cargos de chefe de Estado ou de Governo e, por conseguinte, tinham assento no Conselho – estavam seriamente renitentes à apresentação formal de um candidato em período pré-eleitoral. As resoluções aprovadas no PE e a circunstância de tanto o Partido Socialista Europeu como os Liberais se mostrarem determinados ao lançamento de candidaturas próprias pôs uma enorme pressão sobre o PPE.

3. E aqui o papel de Joseph Daul foi mais uma vez capital. Foi ele – basicamente ele e mais ninguém (Wilfried Martens encontrava-se já gravemente doente) – que convenceu os líderes partidários do PPE que, perante o avanço das candidaturas adversárias, o PPE não podia deixar o terreno deserto. E foi ele, mais do que qualquer outro, que tirou da algibeira o nome de Jean-Claude Juncker. Um nome que pudesse representar a identidade e as raízes democrata-cristãs do PPE e que fosse capaz de reunir o consenso do norte e do sul da Europa, que entretanto tinham visto a sua relação muito desgastada pela crise das dívidas soberanas. E ao mesmo tempo um nome que fosse capaz de fazer pontes para os restantes partidos do arco pró-europeu e que, em termos de notoriedade, pudesse rivalizar com a mais do que certa candidatura socialista de Martin Schulz. Do Verão de 2013 ao dealbar de 2014, Daul correu a Europa inteira na defesa intransigente da necessidade de ter um candidato e na aposta inabalável no nome de Juncker.

4. Esse tremendo esforço persuasivo junto dos líderes do PPE, que se revelou vitorioso, foi precedido de uma longa preparação no parlamento. Sem nunca abdicar das posições programáticas do PPE, Joseph Daul soube sempre dialogar com os restantes partidos pró-europeus e negociar com eles uma agenda institucional. A lealdade e a solidez da sua relação com Martin Schulz, quer quando este foi líder parlamentar dos socialistas, quer quando passou a Presidente do PE, são lendárias. Os dois – com posições ideológicas e programáticas muito distintas e marcadas – souberam sempre cumprir pontualmente os compromissos assumidos. E isso, deve-se em grande parte à autoridade moral e ao carisma pessoal de Joseph Daul, que entre correligionários e adversários, foi sempre capaz de suscitar uma atitude de total confiança, de cumprimento escrupuloso da palavra dada. A mesma qualidade que, aliás, viria a revelar-se decisiva quando teve de convencer os seus pares do PPE.

5. Joseph Daul é, antes de tudo o mais, um agricultor alsaciano. De uma simplicidade desconcertante, é depositário da memória dos horrores da guerra civil europeia. Em nada corresponde ao tipo normativo do alto político francês. Não frequentou as grandes escolas, não dispõe da retórica cartesiana, não ostenta o porte nem a pose, não professa um laicismo militante ou sequer discreto, não fala inglês (embora seja fluente em alemão). Cresceu numa Alsácia em reconstrução, educado (segundo o próprio) pelas organizações católicas de juventude agrária e operária; declara-se abertamente cristão. Nos momentos mais difíceis da crise, foi capaz de defender a Grécia e a Letónia e, com algum ciúme dos deputados alemães, nunca deixou de ser o interlocutor preferencial de Angela Merkel (que lhe admira a franqueza e a discrição).   

 Em sete anos e meio de liderança parlamentar, notabilizou-se pela sua profunda crença na Europa e no projecto europeu, pelo seu desarmante desapego pessoal, pelo raro sentido de justiça ao lidar com a multiplicidade de delegações nacionais que fazem parte de um grupo político europeu. Joseph Daul é um grande europeu. E nós havemos de colher os frutos das árvores que, ainda e sempre como agricultor, ele tem sido capaz de plantar.

  

 

SIM. José Manuel Fernandes. Por exclusivo mérito, o deputado europeu foi eleito coordenador do PPE para a Comissão do Orçamento. Um posto chave, muito relevante para os fundos comunitários e para Portugal.

NÃO. PS, eleições primárias. O nível do debate que está a pautar o discurso de ambos os candidatos é mau para o PS, para os próprios e, em especial, para a democracia. É demasiado primário…