Narciso acusado de se apropriar de 17 mil euros e de iPhone

O ex-autarca, que vai a julgamento, terá criado negócio fictício para tirar dinheiro da associação a que presidia. Terá ainda participado à PSP o furto de um telemóvel para ter outro mais moderno, diz o MP.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Em 2011, quando liderava a associação de solidariedade na qual terá montado um esquema para se apropriar de 17.500 euros, Narciso Miranda, segundo o Ministério Público (MP), terá também participado à polícia o furto de um iPhone 3GS que nunca deixou de estar em seu poder. De acordo com a acusação, esta queixa foi um mero ardil para o ex-autarca acompanhar o avanço da tecnologia. Um iPhone 4 foi-lhe comprado pela instituição da qual o ex-autarca saiu naquele mesmo ano.

O socialista que liderou a Câmara de Matosinhos durante 29 anos está acusado de simulação de crime, peculato e participação económica em negócio. O julgamento ainda não está marcado, mas o seu advogado, Artur Marques, assegurou ao PÚBLICO que não requereu a instrução do processo, uma fase que serviria para contestar a acusação deduzida em Maio. O PÚBLICO tentou sem sucesso contactar Narciso Miranda. Uma arquitecta, filha de Narciso Miranda, e um terceiro arguido, gerente de uma sociedade, também vão a julgamento, acusados de falsificação de documentos, burla qualificada, peculato e participação económica em negócio.O episódio relativo ao telemóvel é apenas um dos capítulos de uma história, sustentada pelo MP, que terá afectado durante mais anos e de outras formas a Associação de Socorros Mútuos de São Mamede de Infesta. Foi o próprio presidente da assembleia daquela instituição que denunciou Narciso Miranda, quando, depois da saída do ex-autarca, uma auditoria interna de Março de 2011 revelou inúmeras irregularidades. Ainda em Fevereiro de 2010, Narciso Miranda terá decido constituir a AP- Gestão, Lda, uma sociedade por quotas direccionada para o fornecimento de serviços médicos. O objectivo era prestar serviços à associação de solidariedade que presidiu entre 2008 e 2011. Não integrou, porém, a gerência nem se fez sócio da sociedade que foi formada por duas pessoas, uma delas filha do ex-autarca. Na associação, afirma o MP, Narciso Miranda assegurou a contratação da empresa para um serviço que nunca foi prestado.Chegou até a indicar os nomes de cinco outras empresas que o conselho de administração da associação deveria convidar a apresentar preços para o serviço pretendido. Ao conselho nunca disse que essas empresas eram lideradas também por um dos gerentes da AP-Gestão e que a filha estava também nessa sociedade que apresentou, após convite, uma preço mais baixo do que todas as outras.Durante esse ano, a empresa recebeu 17.500 euros, montante idêntico ao que depois passou para a empresa 111 Arquitectos, da qual Narciso detinha 80% do capital. Terá sido, sublinha o MP, um negócio fictício para “justificar contabilisticamente” a saída de dinheiro da associação para posse do ex-autarca. Também à empresa de AP-Gestão, a 111 Arquitectos não prestou o serviço contratado de consultoria.O maior rombo na associação de solidariedade foi, porém, provocado antes, quando a instituição decidiu atribuir à empresa Egusalis a prestação de serviços de exames cardiologia. Entre 2010 e 2011, o gerente da empresa, também arguido no processo, facturou à associação 60 mil euros relativos a exames que não foram feitos.A associação exerce funções no apoio na saúde dos seus sócios. Nesse contexto, tem vários protocolos de cooperação com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para consultas, tratamentos e exames nas suas instalações.O responsável da Egusalis terá falsificado vinhetas e assinaturas de médicos e de utentes em documentos carimbados pela associação. Os serviços seriam comparticipados pelo SNS através da Administração Regional de Saúde do Norte, mas a fraude foi descoberta a tempo. O Estado não foi, por isso, lesado, tendo a associação assumido todo o prejuízo.