Pelé e Garrincha: os génios opostos do futebol brasileiro

Nasceram ambos na pobreza e subiram na vida graças ao futebol. Juntos, Pelé e Garrincha nunca perderam na selecção brasileira. Um ainda vive, como o rei do futebol. O outro morreu aos 49 anos, pobre e viciado no álcool.

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Garrincha e Pelé DR
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Garrincha em 1963 Corbis
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Pelé fotografado dias antes do Mundial de 1962 AFP
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Mural no Museu do Futebol, no Maracanã, que foi desmontado com a construção do novo estádio Reuters

Um é considerado o futebolista que esteve mais próximo da perfeição. O outro é qualificado como o maior driblador da história e um jogador que não podia ter acontecido. Pelé não tem pejo em afirmar que nasceu para o futebol como “Beethoven nasceu para a música”. Garrincha dizia que os treinadores não tinham nada que lhe dar indicações, porque ele sabia qual era a jogada certa: fintar o adversário e cruzar para a área. Um viveu para marcar golos, o outro para driblar o João, como chamava a todos os adversários. Pelé foi um profissional exemplar e toda a vida soube tirar o merecido partido da fama que ganhou. Garrincha afogou-se no álcool e morreu aos 49 anos, abandonado e esquecido.

As carreiras dos dois maiores vultos do futebol brasileiro foram bem diferentes, embora as suas vidas tivessem vários pontos de contacto. A primeira semelhança entre Garrincha e Pelé é que ambos saíram da periferia e da pobreza. Manuel Francisco dos Santos, de sangue índio, nasceu a 28 de Outubro de 1933, em Pau Grande, uma pequena localidade a 70 km do Rio de Janeiro. Edson Arantes do Nascimento nasceu a 23 de Outubro de 1940 em Três Corações, Minas Gerais. Ainda em criança mudou-se para Bauru, no interior do estado de São Paulo.

Cedo os dois ganharam as alcunhas que os acompanharam por toda a vida e por todo o mundo. Manuel gostava muito de caçar pássaros e a irmã Rosa encontrou semelhanças entre uma pequena ave chamada Garrincha, que recusava o cativeiro, e aquele rapaz irrequieto e avesso a regras. Já Edson costumava ver os jogos do pai no São Lourenço, uma modesta equipa de Minas, que tinha na baliza um guarda-redes chamado “Bilé”. O pequeno Edson apreciava as defesas do “goleiro” e gritava “defende, Bilé”. A expressão acompanhou-o quando se mudou para São Paulo, onde ninguém sabia quem era Bilé. Os amigos de Edson acabaram por achar que Bilé era Pelé e assim nasceu um nome que é hoje conhecido por todo o mundo — a AFP escreveu há dias que toda a gente já disse ou escreveu o nome Pelé.

Outra semelhança nas vidas destes dois génios é que o futebol apareceu cedo (e tarde) na vida deles. Cedo, porque ambos começaram desde pequenos a jogar à bola com os amigos, mostrando dotes para aquele desporto que já era o mais popular no Brasil. Tarde, porque nenhum deles começou a jogar em grandes clubes muito cedo, como acontece nos nossos dias. Pelé foi levado aos 15 anos para o Santos pelo ex-futebolista Waldemar de Brito. Garrincha chegou ao Botafogo aos 19, depois de ter tentado fazer testes em vários outros grandes clubes do Rio, sem que nenhum se interessasse por aquele rapaz com ar de aleijado. A chegada de Garrincha ao Botafogo, aliás, é uma das grandes lendas do futebol brasileiro: um rapaz desconhecido de pernas tortas (tinha a perna esquerda seis centímetros mais curta do que a direta) enfrentou no primeiro treino Nilton Santos, o lateral-esquerdo da selecção brasileira, e fintou-o várias vezes. A história foi exagerada, mas é confirmada por Ruy Castro, na excelente biografia Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrincha.

É no futebol profissional que as trajectórias de Garrincha e Pelé se começam a afastar, dentro e fora de campo. É certo que ambos marcaram épocas nos respectivos clubes (um no Botafogo, tricampeão carioca; o outro no Santos, dez campeonatos paulistas, seis brasileiros e duas Taças dos Libertadores), mas começou a perceber-se que eram génios opostos. Com uma vida desregrada (o álcool e as aventuras sexuais foram uma constante da sua vida), Garrincha nunca foi um atleta exemplar. Mas via o futebol como uma fonte de diversão, a ponto de ter recebido a alcunha de “Alegria do Povo”. Já Pelé era um atleta poderoso e um competidor nato, que ganharia a alcunha de “Rei”. João Máximo, um dos grandes jornalistas brasileiros e que tem 79 anos, viu os dois jogar e considera estes epítetos totalmente adequados.

“Rei remete para uma certa nobreza, respeita-se o rei. O outro é quem diverte. Vi um jogo do Garrincha contra o meu time, o Fluminense, na final do campeonato de 1957, que foi uma desgraça para a torcida do Fluminense. Perdemos de 6-2. Mas o estádio foi brindado com uma grande actuação do Garrincha. Ele era brincalhão. O futebol para ele era um brinquedo. Para Pelé, havia aquela importância de ganhar o jogo, de ser campeão”, diz ao PÚBLICO João Máximo, numa opinião partilhada pelo escritor Sérgio Rodrigues. “O Pelé era mais sério, era um jogador profissional. O Garrincha era um brincalhão, tinha um pouco de palhaço no campo. As pessoas riam mesmo do que ele fazia.”

Adversários no Santos e Botafogo, Garrincha e Pelé construíram juntos algumas das páginas mais brilhantes da história da selecção brasileira. Foram campeões mundiais em 1958 e 1962, ao que Pelé juntaria um terceiro título em 1970, naquela que terá sido a melhor selecção de todos os tempos. Os dois estrearam-se no Mundial de 1958, na Suécia, onde chegaram debaixo da desconfiança de um seleccionador que chegou a ser acusado de preferir os jogadores brancos aos negros.

Nenhum dos dois começou o Mundial como titular e Garrincha esteve mesmo em risco de não ser seleccionado. É que todos os jogadores foram sujeitos a testes antes da prova. Conta João Máximo: “Antes da Copa de 1958, a selecção contratou um psicólogo para examinar os jogadores. O Nilton Santos foi um dos primeiros a fazer os testes, em que tinham, por exemplo, de botar um triângulo dentro do círculo, depois um quadrado dentro do triângulo. O Nilton percebeu que algo ia correr mal com o Garrincha e disse ao médico: ‘doutor, vem aí um rapaz chamado Garrincha. Ele não vai saber nada disso que o senhor está pedindo, mas não liga não, porque ele joga muito futebol’. Não sei o que aconteceu lá dentro, mas o João Carvalhais, o psicólogo, aprovou o Garrincha.”

Na Suécia, o Brasil conquistou o primeiro título mundial, com Garrincha em boa forma e Pelé a mostrar ao mundo que era o novo craque. Com apenas 17 anos, marcou seis golos, a melhor estreia de um jogador na história dos Campeonatos do Mundo, e apontou um dos mais fantásticos golos da sua carreira, ao passar a bola por cima de um defesa sueco e rematar sem deixar cair a bola.

Quatro anos depois, no Chile, a dupla juntou-se e o Brasil foi novamente campeão, desta vez conduzido por um notável Garrincha. É que Pelé lesionou-se no segundo jogo, contra a Checoslováquia, e não jogou mais. “Sem Pelé, apareceu o Mané”, como se costuma dizer no Brasil. Garrincha mostrou então recursos que então eram pouco habituais no seu repertório, como golos de cabeça ou de pé esquerdo - marcou quatro ao todo. "Garrincha, de que planeta vienes?”, foi a manchete do jornal chileno El Mercurio.

“Quando eu falo de futebol, coloco o Garrincha à parte, ou acima, se preferir, para não comparar com ninguém, porque é um fenómeno. O Garrincha não podia jogar futebol: ele era aleijado, não tinha condição, tinha o problema da bebida. Como é que posso analisar um jogador se ele tem tudo o que a lógica do futebol condena? É um ser de outro planeta”, diz João Máximo, que gosta de recordar uma analogia feita por Araújo Neto, um jornalista brasileiro: “O Garrincha, como o Brasil, não poderia ter acontecido. E, como o Brasil, aconteceu. Um era analfabeto, aleijado, alcóolatra. O outro é enorme, com o número de analfabetos e a corrupção que teve, não era para acontecer, mas aconteceu.”

Os dois fenómenos do futebol brasileiro ainda estariam juntos no Mundial de 1966, em que o bicampeão Brasil cairia na fase de grupos, perdendo com a Hungria e Portugal. Ainda assim, manteve-se a regra (nunca quebrada): com Pelé e Garrincha em campo, o Brasil nunca perdeu um jogo, somando 35 vitórias e cinco empates. Frente aos húngaros, apenas Garrincha jogou, contra Portugal só Pelé esteve em campo.

O Mundial de 1966 marcou a despedida de Garrincha, que já entrara em decadência e era uma sombra do jogador que o L’Équipe descreveu como “o ponta-direita mais extraordinário que o futebol já conheceu." Depois do trauma de 1966, Pelé caminhou para a imortalidade no Mundial de 1970 e nas exibições memoráveis pelo Santos. “O Pelé foi realmente o jogador que esteve mais perto da perfeição. Foi um jogador completo”, diz João Máximo, que vê futebol desde os anos 1950.

Alguns contemporâneos destes dois jogadores chegaram a dizer que Garrincha foi melhor do que Pelé. Em 2011, Eusébio disse no Rio: “'Houve um brasileiro melhor que Pelé: Garrincha. Tinha uma perna torta e outra normal, como podia fazer tudo aquilo? Era um paralítico. Ele era muito melhor do que todos nós, mas era do povo, gostava de uma bebida que não era água e, por isso, ficou marginalizado.”

Mas a regularidade e a extensa gama de recursos de Pelé — bem como a rivalidade com Maradona — ajudou a que os brasileiros se unissem em torno da ideia de Pelé como o melhor jogador de todos os tempos. Ruy Castro concorda que Pelé era mais completo, mas também salienta que o “vídeo só começou em 1962”: “Isso foi uma coisa que beneficiou o Pelé, porque ele ainda tinha dez anos de carreira pela frente. A preservação de golos gravados em vídeo é muito maior do que os filmados em película: 99% dos golos e grandes jogadas do Garrincha se perderam. A memória da carreira do Pelé é espectacular e no caso do Garrincha você vê sempre as mesmas três ou quatro jogadas.”

Acabadas as carreiras de futebol (Garrincha em 1972 e Pelé em 1977), acentuaram-se as trajectórias divergentes destes dois homens. Pelé soube conviver com a fama, fez negócio com a publicidade, manteve-se como uma referência desportiva do Brasil e foi até ministro do Desporto, apesar de muitas vezes se destacar pelas declarações polémicas. “O Pelé sempre jogou grande futebol e as pessoas sempre o admiraram como jogador. De vez quando, fazia uma declaração que politicamente podia ser errada, as pessoas gozavam, mas se acostumaram ao Pelé. Ele faz parte da vida do Brasil normalmente”, diz Ruy Castro. “As pessoas exigem que o Pelé seja bom de entrevista, que fale bem. Não pode. Se ele fosse intelectualmente brilhante, seria um ser que não existe. Ele fez bem o que tinha de fazer”, acrescenta João Máximo, dizendo que se brinca com Pelé por ele se referir a si próprio na terceira pessoa.

Já Garrincha, que morreu em 1983 aos 49 anos, entrou ainda em maior decadência quando deixou de jogar. “Os últimos dez anos da vida do Garrincha foram muito tristes. Ele era apanhado embriagado, desmaiado na rua, levado para hospitais em pronto-socorro”, conta ao PÚBLICO o seu biógrafo Ruy Castro.

Na biografia, o escritor conta o último encontro entre Pelé e Garrincha, em 1982. Os dois juntaram-se em Copacabana: “Ali, naquele cenário das Mil e Uma noites, estavam os dois maiores heróis do futebol brasileiro: um deles saudável, próspero, reluzente; o outro inchado, humilde e encanecido”, escreve Ruy Castro, contando que, com um brilho malicioso nos olhos, Garrincha ainda brincou com Pelé. “Ó, rei, você não tem uns trocados sobrando pra me emprestar? Você anda cheio das verdinhas.”

A vida do Anjo das Pernas Tortas, como lhe chamavam, sempre foi pautada por momentos trágicos: uma vez atropelou o pai e, em 1969, sofreu um acidente de carro em que a sogra morreu. O seu filho com a cantora Elza Soares morreria também num acidente de automóvel (já depois da morte do pai), o mesmo acontecendo com Nenem, outro filho de Garrincha que morreu num acidente em Portugal, em 1992. Foi como se alguns dos filhos seguissem os passos trágicos do pai, que morreu sozinho numa cama de hospital. Uma “estrela solitária”, como lhe chamou Ruy Castro.

“Garrincha mostrou, de forma bastante espectacular, que não há rede de segurança na sociedade brasileira, enquanto Pelé, ao contrário de quase todos os seus pares, fez uma carreira depois do futebol. Garrincha pensou sempre no curto prazo. Pelé estava — e ainda está — sempre a fazer planos. Garrincha sempre contestou o sistema, Pelé tornou-se o sistema”, escreve o jornalista Alex Bellos, no livro Football, The Brazilian Way of Life.

A morte precoce de Garrincha acabou por lhe dar uma aura mítica. Uma ideia que Bellos sintetiza quase na perfeição: “Os brasileiros põe Pelé num pedestal, mas não o amam como a Garrincha”, não só pela atracção natural por figuras trágicas mas também porque um “simboliza o vencedor e outro o jogar por jogar”. “O Brasil não é um país de vencedores, é um país de pessoas que se gostam de divertir”. Ou, como resumiu o Le Monde, “Pelé marcou a história, Garrincha os corações.”