Morreu Alfredo Di Stéfano, um dos melhores futebolistas de sempre

O antigo avançado do Real Madrid tinha 88 anos e não resistiu a um historial de problemas cardíacos.

Di Stéfano era o presidente honorário do Real Madrid
Foto
Di Stéfano era o presidente honorário do Real Madrid Javier Soriano/AFP

Sempre que perguntavam a Eusébio da Silva Ferreira qual era para ele o melhor jogador de todos os tempos, o “Pantera Negra” respondia sempre com o mesmo nome e não era Pelé, nem Maradona. Para Eusébio, o melhor futebolista de sempre foi Alfredo Di Stéfano, avançado que fez história no Real Madrid, presente nos cinco títulos europeus consecutivos. Morreu nesta segunda-feira, aos 88 anos, o avançado que foi internacional por três países diferentes: pela Argentina, onde nasceu, pela Colômbia, onde se exilou, e por Espanha, onde viveu quase toda a sua vida. A “Flecha Loira”, como lhe chamou no início da carreira um jornalista argentino, é a alcunha que ficará para sempre.

O último mês da vida de Di Stéfano foi marcado por várias idas ao hospital, não apenas devido ao coração, mas também por falhas de outros órgãos vitais. Mas o antigo avançado do Real completara 88 anos de idade na passada sexta-feira e sentia-se em condições de ir almoçar fora com a família no dia seguinte, mas começou a sentir-se mal durante a refeição. Di Stéfano, que tinha um historial recente de problemas cardíacos, foi internado de urgência no hospital Gregório Maranón, em Madrid, e sofreu uma paragem cardiorrespiratória durante 18 minutos, caindo num coma do qual já não acordou.

Segundo o próprio Di Stéfano contou, o futebol apareceu na sua vida por acaso. Nascido em Barracas, um bairro de Buenos Aires, a 4 de Julho de 1926, Alfredo Di Stéfano Laulhé começou por jogar em equipas de bairro e não pensava que alguma vez pudesse ganhar dinheiro com futebol. “Um dia, apareceu lá em casa um electricista que era jogador do River Plate e que conhecia o meu pai. Perguntou pela família e a minha mãe disse que um dos filhos jogava futebol”, contou Di Stéfano em entrevista ao El País, em 2008. Di Stéfano tinha 17 anos quando foi fazer testes aos “milionários”. Ficou. Dois anos depois, em 1945, estreava-se pela primeira equipa do River.

Passou o ano de 1946 emprestado ao Huracán, mas regressou ao River e foi em 1947 que começou a deixar a sua marca. Conquistou o título argentino e a Copa América com a selecção. Ainda passou mais um ano e meio no seu país, até que, em meados de 1949, uma greve de futebolistas faz com que Di Stéfano vá para a Colômbia, para representar o Milonarios de Bogotá. Até 1952, conquista três títulos de campeão e torna-se internacional pelo país (um estatuto que a FIFA não lhe reconheceu).

O nome de Di Stéfano já começava a ser conhecido na Europa e, durante uma digressão pelo velho continente, atrai o interesse de vários clubes. Em Espanha, Santiago Bernabéu, o presidente do Real Madrid, faz tudo para o contratar e vai ter sucesso, não sem antes um diferendo com o Barcelona, que terá sido resolvido a favor dos “merengues” com influência política. Di Stéfano estava livre para actuar pelo Real e para começar a fazer história. Em 11 anos no Real, de 1953 a 1963, conquistou oito títulos de campeão espanhol, mais cinco Taças dos Campeões Europeus consecutivas, entre 1956 e 1960, um domínio que seria rompido pelo Benfica.

Eleito por duas vezes (1957 e 1959) como o melhor jogador do mundo, Di Stéfano foi por cinco vezes o “pichichi” do campeonato espanhol e chegou à selecção do seu país de acolhimento em 1957, nunca disputando, porém, um Campeonato do Mundo (nem com Espanha, nem com Argentina). Ainda passou dois anos no Espanyol, sem a mesma eficácia, e terminou a carreira com 40 anos.

Como treinador, o sucesso não apareceu na mesma dimensão. Conquistou títulos de campeão com o Boca Juniors e o Valência (com o qual também ganhou uma Taça das Taças), mas com o Real Madrid apenas ganhou uma Supertaça de Espanha. Ainda treinou River Plate, Sporting, Elche, Rayo Vallecano e Castellón.

Fica para a história um avançado rápido, inteligente, goleador e de enorme longevidade. O antigo internacional inglês Bobby Charlton, citado pela BBC, ficou impressionado quando o viu jogar pela primeira vez, em 1957, já Di Stefano tinha 31 anos: “Quem é este homem? Recebe a bola do guarda-redes, diz aos defesas o que fazer. Onde quer que ele esteja, está sempre pronto a receber a bola. Nunca vi um jogador tão completo. Era como se ele tivesse o seu próprio centro de comando no jogo”.

Uma passagem-relâmpago pelo Sporting
Di Stéfano teve uma curta e turbulenta passagem pelo futebol português. Antes de se iniciar a época 1974-75, João Rocha, presidente do Sporting, ofereceu emprego ao antigo avançado “merengue”. Foi um acordo verbal, não houve contrato assinado. Di Stéfano iria dirigir uma equipa que tinha feito a “dobradinha” nacional e que tinha chegado às meias-finais da Taça das Taças.

“Para nós foi um grande motivo de orgulho. Ele era um monstro do futebol”, recorda ao PÚBLICO Carlos Pereira, antigo defesa “leonino”. Mas a chegada foi mesmo o único momento pacífico. “Não teve tempo para conhecer a equipa e não foi ele que planeou a pré-época”, conta Vagner, médio brasileiro, o capitão de equipa. Segundo Fernando Tomé, também médio dos “leões”, Di Stéfano não estava satisfeito com o plantel. “Queria um ‘portero’, um defesa-esquerdo e um avançado. Dizia que o Damas e o Botelho [dois dos guarda-redes] eram muito fininhos. Ele queria jogadores mais bem constituídos”, recorda Tomé.

Os testemunhos dos jogadores do Sporting da altura apontam para uma ruptura total entre Di Stéfano e João Rocha que começou na digressão da equipa ao Brasil, que incluiu uma derrota com o Cruzeiro por 6-0, sendo que antes os “leões” já tinham cumprido um torneio de pré-época em Sevilha, também com resultados desastrosos. Poucos dias depois do regresso do Brasil, a 8 de Setembro, o Sporting tinha o seu primeiro compromisso para o campeonato contra o Olhanense, em Faro, que resultaria num triunfo da equipa algarvia, a primeira de sempre sobre os “leões” de Lisboa. Oficialmente, Di Stéfano ainda era o treinador, mas foi o adjunto Osvaldo Silva a comandar a equipa no banco. Pouco depois, consumou-se a ruptura. Di Stéfano saiu de Alvalade sem receber salário ou indemnização e João Rocha referiu-se a ele como “um turista malcriado”.