Opinião

Aventuras do “consenso”

Cavaco não se engana, apesar de que será ele o principal excluído.

No Conselho de Estado, o dr. Cavaco voltou a pedir “diálogo”, “entendimento” e “consenso”. O que de certeza não espantou ninguém. Desde o princípio do século XIX que a força divide os portugueses e que a fraqueza, com alguma dificuldade, os junta. Porquê? Porque não há nenhuma força independente autónoma na sociedade capaz de aguentar sozinha uma crise ou uma catástrofe nacional. O movimento independentista do Brasil reforçou, primeiro, a Monarquia e, a seguir, a revolução de 1820, em que entrou a facção “realista” e a facção “liberal”. Tudo isto para a Pátria se regenerar e sobreviver. Não se regenerou e sobreviveu, como de costume, na miséria e na discórdia interna. Mas ficou a esperança do dia miraculoso em que se fizesse a tão esperada “união nacional”.

Depois da grande guerra “civil” (1832-1834), D. Pedro e, quando ele morreu, D. Maria tentaram desesperadamente fabricar um Governo em que entrassem os principais representantes do “radicalismo” e da “moderação”. Não conseguiu; e dali em diante, com peripécias de vário género e espécie, começou uma guerra civil larvar, que duraria até 1851. Exausto e sob a tutela das Potências, Portugal aceitou então um condomínio pacífico entre as partes em conflito (a segunda “Regeneração”), dominado por Rodrigo da Fonseca e, mais tarde, Loulé e Fontes Pereira de Melo. Mas, quando as coisas não corriam bem, como não correram por causa da guerra do Paraguai (1864-1870), que desvalorizou e diminuiu as remessas do Brasil, os dois bandos que se alternavam no Governo não hesitaram em se misturar numa extraordinária aliança a que chamaram a “Fusão”.

Com a bancarrota de 1892, o rei continuou a cumprir os preceitos formais, que regiam a convivência partidária, distribuindo por cada partido a sua ração, enquanto o regime tranquilamente se afundava. Para não se afundar com ele, D. Carlos criou um partido novo, contra o qual a “rua” e os políticos se coligaram. D. Carlos e o filho, como se sabe, acabaram a tiro e D. Amélia abriu um período que ela esperava de “Acalmação”; um país fraco não aguentava um Governo forte. Mas, para mal dele, foi obrigado a aguentar: a ditadura do partido jacobino, dito “Democrático” e, no fim, durante 50 anos, Salazar. A guerra civil como meio de resolver hoje os problemas domésticos não parece prática. Resta a união da fraqueza. Cavaco não se engana, apesar de que será ele o principal excluído.