Pippo quer saber

É um homem diferente que hoje abre o Festival de Almada. Eis Pippo Delbono, o bom gigante que deixou de ter medo. Do corpo, dos outros, da história, mas ainda não de si. E, por isso, la nave va…

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Orquídeas abre o 31.º Festival de Almada

Um dia uma senhora disse-lhe: “Sr. Delbono, gosto tanto do teatro que faz, vi todos os seus espectáculos, mas tenho um pedido a fazer-lhe”. Pippo, o imenso e bufão Pippo, o colérico e doce gigante Pippo, o homem que parece sempre estar prestes a quebrar, parou e sorriu. Talvez se lembrasse do que ouvira a mãe dizer à outra mulher com quem partilhava o quarto de hospital, dias antes de morrer: “O meu filho pode não ter conseguido fazer mais nada, mas ao menos foi bom actor”.

Pippo, o bom actor, ouviu da mulher que tinha visto todos os seus espectáculos: “Gostaria de lhe pedir que um dia fizesse um espectáculo que não falasse do amor pasoliniano, do amor passional e do amor maternal, como já fez tão bem em todos os outros. Gostava que fizesse um espectáculo sobre um outro tipo de amor, maior, sim, um amor universal. Precisamos tanto disso nos dias de hoje”.

Orquídeas, que hoje abre o 31º Festival de Almada, será essa carta a um amor maior de um homem que não se coíbe de citar o monólogo de Hamlet para perguntar, a si e a quem continua a vê-lo, se ser, ou não ser, actor, encenador, homossexual, gordo, velho, bailarino, escritor, realizador, doente mental, paraplégico, homem, mulher, italiano, apátrida, resistente, cobarde ainda vale de alguma coisa. “Dormir, morrer, nada mais”, diz Hamlet, diz Pippo, voz soterrada em memórias, do fundo da sala, como se lançasse sobre os espectadores, por cima deles, flecha apontada ao centro do palco, um último grito: “Estamos cansados destas revoluções”, diz Pippo citando Jean-Paul Marat, o que morreu na banheira durante a revolução francesa.

O silêncio no lugar dos discursos

“Continuo à procura”, diz-nos o encenador, presente em Portugal depois de A Mentira (2010, Centro Cultural de Belém), ensaio furioso sobre a falência moral da Itália, e depois de, desde há dez anos, nos ter vindo mostrar um percurso de raiva, de gritos, que ele nunca deixa de sentir como de uma imensa fragilidade e insegurança.

“Lembro-me sempre de uma frase do Eduardo di Fillippo: passamos a vida à procura de uma linguagem e se não a encontrarmos, morremos”. Orquídeas é, então, a possibilidade de construção de uma linguagem mas agora, 27 anos depois de O Tempo dos Assassinos (que passou por Serralves em 2007), o silêncio ocupou o lugar dos discursos, a paisagem colectiva abriu lugar auma presença individual que já não é egoísta, o ritual substituiu a repetição.

“Quero continuar a perder-me, não quero apenas compreender”. Há agora, e disso Pippo Delbono tem consciência “como não tinha naquela altura de raiva”, que há um tempo que, antes de ser sobre o contexto, é sobre a presença individual. Os corpos desfilam sem medo de se sentirem abandonados perante a ausência de metáforas. Os corpos deixaram de ter medo. “Há sempre um lado ritual, de ficção, no gesto teatral, que fica entre a comédia e a tragédia, entre quem joga ao quê e quem decide que papel atribuir, quem tem medo e quem provoca esse medo. Há sempre uma decisão que é difícil de tomar: quem é o vazio e quem é a paisagem”.

Pippo quer saber como pode a verdade continuar a ser verdadeira se for posta em cena. Pippo quer saber se é ainda possível olhar para um palco vazio e tornar o silêncio visível. Pippo quer que o acto colectivo que é o teatro não esqueça que é, também, um acto individual. “Quero encontrar um tempo no palco”. “Quero ser eu mesmo”.

Pippo quer saber “como [pode] conquistar a verdade” neste mundo, como o descreve no espectáculo, “onde os vivos já estão mortos e os mortos talvez estejam, ainda, entre nós”. Pippo: “Não tenho nada para oferecer a alguém que não seja esta minha confusão”. E então este Orquídeas será o seu Roma, como a cidade foi para Fellini o bestiário perfeito para a possibilidade material de um discurso sobre a memória. “O teatro serve para as pessoas se encontrarem. Todos os dias se produz um encontro. Eu partilho aquilo que vejo, o que me dão, conforme o sinto. Talvez seja possível admitir que hoje a raiva já não me serve, como o teatro, se for entendido como verdade absoluta, esconde as suas diferentes facetas que o constroem. Mas, no teatro, no palco, perante tantas pessoas diferentes todos os dias, o que lhes dou é uma forma de amor”.

A dado momento do discurso com que vai fragmentando Orquídeas, Pippo diz que se deveria tentar traçar “uma linha entre o bem e o mal”. Essa linha, esse fio invisível que vai cosendo o espectáculo, chama as diferentes memórias de uma ópera que Mussolini interditou, junta as palavras de Wilde, Cebrian, Bukowski, Shakespeare ou Koltés, aproxima os corpos da sua família, como chama aos que com ele “atravessam o deserto de querer saber mais” e segura aquele, como dizia Stendhal, que percebeu que o amor deve ser colhido à beira de um precipício.  “Não inventemos mais histórias”, pede Pippo ao falar de um desejo de identificação que gostaria de ver reflectido nos espectadores. Do palco vazio, tão fúnebre como celebratório, Pippo o gigante, Pippo o homem que há muito tempo que achava que já não estaria cá, olha para esta sua “confusão” e lembra-se das palavras da mãe, no dia antes de morrer: “Não te deixarei, apenas seguirei em frente. Vigilar-te-ei. “