O longo abraço da filiação

Rei Lear foi só um pretexto para os alemães do colectivo She She Pop olharem para os pais e perceber que havia algo de comum entre a exibição, que era a sua, e a utopia, que era a deles. Testament é a fulgurante estreia em Portugal de um grupo que aprendeu a ter saudades

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Muitas coisas mudaram desde que os pais de Sebastian, Fanni, Lisa, Miekee e Ilia os confrontaram, no palco, e lhes disseram que um teatro sem metáforas era uma interpretação errada daquilo que eles - Joachim, Peter, Manfred e Theo – tinham procurado fazer dos escombros de um país derrotado pela guerra. Testament, do colectivo alemão She She Pop, é um ensaio sobre o que separava os pais dos filhos, uns defensores de um passado reconstruído, outros, herdeiros de um presente efémero.

Deveríamos escrever “separa”, no presente porque, como nos explica Ilia, filha de Theo, “haverá sempre uma leitura diferente, de cada um de nós, sobre o que estamos a fazer”.

“É muito difícil partilhar algo de tão íntimo como é a relação com os nossos pais e, no entanto, talvez não exista outra forma de o tentar senão usando-nos de um jogo de confronto”, diz-nos dias antes de chegar à Culturgest, onde este fim de semana integra a programação do Festival de Teatro de Almada .

Parece um paradoxo mas, na verdade, aquilo que os seus pais mais desejavam era que os filhos conseguissem ir mais longe do que eles conseguiram. Mas neste palco que começou por ser a réplica de uma sala de tribunal, nos rostos de pais e de filhos escreve-se a história recente da Alemanha. Diz Ilia: “Eles são a geração que definiu estética e socialmente a cultura alemã. Eles são a geração que reergueu o país. Eles são a geração que reformou e influenciou o futuro. Nós somos, dizem eles cheios de graça, os que mal interpretaram a máxima dos quinze minutos de fama de Andy Warhol. Nós somos aqueles que se exibem. Nós somos aqueles de quem eles não gostavam. Nós somos as filhas maldosas. Nós somos as filhas deles”.


O que é isto da transmissão

Será por isso que Testament tem um longo subtítulo, auto-explicativo e, no entanto, intensa e apaixonadamente especulativo: “preparações tardias para uma nova geração a partir de Lear.” Lear, claro, o de Shakespeare, o rei que todos dizem velho e demente que decide perder as filhas para que não veja perder o reino. “Andamos todos a perguntar o que é isto da transmissão e como é que a partir do choque podemos conviver”, explica a actriz, co-autora de um espectáculo onde os pais depressa deixaram de ser uma desculpa para pensar a herança para passarem a ser a causa que precisava ser defendida.

Testament é tanto sobre as relações pessoais entre pais e filho quando a filiação é o modo privado que cada um tem de ver a história, com H maiúsculo, escrita à  mesa de jantar. “É verdade que os nossos pais foram educados a pensar que o teatro só existia se houvesse metáfora e é também verdade que eles não gostavam do que fazíamos antes. Mas é ainda mais verdade que aquilo a que eles chamavam de ‘urgência por existir’ foi algo que nos foi ensinado. Por eles.”

PÚBLICO -
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O colectivo alemão She She Pop estreia-se em Portugal - com os pais

O teatro existe aqui, como na maioria dos espectáculos deste colectivo, como dispositivo altamente viciado. O que lhes interessa, no modo como contextualizam documentos privados em contextos culturalmente reconhecíveis (seja Shakespeare, o movimento punk, ou literatura de bolso), é a capacidade de construção de um discurso comum. “O olhar que lançamos sobre o outro é, também, um olhar que lançamos sobre nós. Se anteriormente insistíamos num confronto com o público, agora, provavelmente por os nossos pais estarem em cena, esse confronto passa a ser interior e íntimo. Nem sempre o conseguimos partilhar”.

O que distingue este colectivo na paisagem alemã, e de certo modo justifica o sucesso que, nos últimos anos, os levou a estarem presentes nos mais relevantes palcos e festivais, é um modo de olhar para a presença em palco como o reclamar de uma existência maior do que o acto de fazer teatro. É como diz Cordélia, a filha que recusa o reino por não querer recusar o pai: o tempo revelará a estratégia escondida, e quem guarda as falhas, por elas será exposto.  

No percurso de uma companhia com quase 20 anos de existência, Testament – repegando em algumas ideias de Álbum de Família (2008), onde eram as suas memórias que desfilavam, e antes de Sagração da Primavera (2014), dançada com as mães tanto quanto Testament é interpretado pelos pais -  faz figura de espectáculo de análise aos métodos de trabalho até agora utilizados, e onde a ideia de teatro-documentário – ou seja a partir de documentos e estritamente interessada em olhar para a realidade como matéria passível de reflexão – não é suficiente para o descrever.

Não deixa, por isso mesmo, de ser curioso que a primeira apresentação da companhia em Portugal seja feita através de um espectáculo que os próprios reconhecem fugir ao modo como habitualmente trabalham. “O nosso trabalho recusou sempre a negociação e agora descobrimo-nos como filtros de uma realidade que, por ser a nossa, de todos os dias, se torna mais difícil de trabalhar”.

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