Nicolas Sarkozy constituído arguido após 15 horas de interrogatório

Investigadores suspeitam de corrupção e tráfico de influências por parte do antigo Presidente francês. Sarkozy terá tido informações sobre processos em que era investigado e influenciado um alto magistrado.

Sarkozy na terça-feira à noite quando foi levado da polícia judiciária para o tribunal
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Sarkozy na terça-feira à noite, quando foi levado da polícia judiciária para o tribunal Pascal Rossignol/Reuters

Depois de ter sido interrogado durante cerca de 15 horas, o ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy foi constituído arguido por suspeita de corrupção e tráfico de influências.

No processo foram também interrogados e também constituídos arguidos o seu advogado Thierry Herzog e o alto magistrado Gilbert Azibert. 

O caso provoca grande comoção em França, onde a instituição do Presidente tem especial prestígio e onde há uma forte protecção da sua imunidade (Jacques Chirac, outro antigo Presidente condenado, foi-o por acções cometidas enquanto presidente da Câmara de Paris e acabou por ser condenado a uma pena, suspensa, de prisão, não chegando a ser detido).

O timing, com a discussão da liderança no partido de Sarkozy para um congresso em Outubro, levou a acusações dos partidários do antigo Presidente. O actual líder, François Hollande, reagiu esta quarta-feira ao caso sublinhando o princípio da independência da Justiça e disse ainda que Sarkozy deve beneficiar da “presunção de inocência”.

Sarzoky foi ouvido na segunda-feira e, após chegar ao gabinete anticorrupção da Polícia Judiciária em Nanterre, ficou detido para interrogatório.

Depois de questionado, foi conduzido ao Tribunal de Grande Instância de Paris, onde chegou por volta das 23h30 (hora de Paris, menos uma hora em Lisboa) e foi constituído arguido por violação do segredo profissional, corrupção e tráfico de influência activos, segundo um comunicado citado pela agência francesa AFP. Estes crimes têm penas de até dez anos de prisão.

Sarkozy deixou o local pelas 2h da manhã, precisa o diário Le Monde, 18 horas depois do início do período de detenção (que poderia ser de 24 horas, extensível por mais 24), sem estar submetido a quaisquer medidas de controlo judiciário, indicava ainda o comunicado.

O processo segue agora para a fase de investigação, e depois um juiz decidirá se formaliza uma acusação ou não.

Em causa está uma alegada tentativa de Sarkozy de obter informações sobre processos em que era investigado – do caso das suspeitas de financiamento ilegal do antigo ditador líbio Muammar Khadafi à sua campanha para as presidenciais de 2007 às verbas dadas por Liliane Bettencourt, herdeira da L’Oréal. Escutas ao seu telefone feitas no início do ano passado pareciam mostrar que o Presidente tinha informação sobre os processos e referiu-se mesmo a alguém que lhe daria essas informações.

Mais: há suspeitas ainda de que prometeu um cargo a um alto magistrado – Gilbert Azibert, também constituído arguido – para não só lhe dar informação como para influenciar o processo. Azibert pediu recentemente que as agendas de Sarkozy, usadas no âmbito do caso Bettencourt, que terminou com Sarkozy ilibado, não pudessem ser usadas noutros processos que decorrem ainda, como o do financiamento líbio – algo que beneficiaria o antigo Presidente. A decisão acabou por ser a contrária e as agendas poderão ser usadas.

As escutas a outros responsáveis revelaram ainda várias tentativas de pessoas próximas de Sarkozy se informarem sobre o processo líbio, interpelando directamente os investigadores.

Uma das principais razões para a constituição de Sarkozy como arguido terá sido a sua utilização de um segundo telefone registado num nome falso, com o qual tinha conversas com o seu advogado, que tinha também outro telefone com outro nome. Numa delas, ainda segundo as escutas, teriam combinado conversas para ter nos telefones normais, mostrando saber que estavam sob escuta.

A investigação surge no momento em que Sarkozy se preparava para concorrer à liderança do seu partido como primeiro passo para uma nova candidatura presidencial – por isso, os seus apoiantes criticam-na como tendo um objectivo político.