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Maus, de Art Spiegelman
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Fabrizio Bensch/Reuters

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“Maus”, de Art Spiegelman

A obra que proporcionou o Pulitzer ao seu autor demonstra a capacidade da arte em organizar o caos, dominar o horror e impor criação onde a morte exerce o seu domínio

O Homem é capaz de tudo. Art Spiegelman (Estocolmo, 1948), nascido Itzhak Avraham ben Zeev, fez da destruição obra-prima da novela gráfica.

"Maus" (Bertrand), obra que proporcionou o Pulitzer ao seu autor, demonstra a capacidade da arte em organizar o caos, dominar o horror e impor criação onde a morte exerce o seu domínio.

A edição da Bertrand reúne os dois volumes publicados separadamente: “Parte I — O meu pai sangra história” e “Parte II — E aqui começaram os meus problemas”.

A criação de Art Spiegelman, filho do judeu Vladek outrora cativo em vários campos de concentração, é a demonstração de vitória da vida sobre a morte.

A saga da família Spiegelman é constituída por perda financeira, de perda de dignidade e de tudo o que nos faz humanos.

A 2ª geração existe apesar dos esforços da Alemanha nazi em exterminar homens como se fossem uma praga de ratos. Existe e apela à memória para aprender através dela.

O património cultural do pai passa para o filho, que amplifica o seu alcance através da arte. A destruição, com os seus horrores e desumanidade, fomentou o acto criativo. A origem desta obra está na ignomínia do holocausto. Art Spiegelman tenta compreender o inominável para entender o seu pai, Vladek.

A relação entre os dois é tão difícil como aceder às dolorosas memórias sobre o holocausto, pois isso implica que o filho tem de conviver com o pai.

O patriarca Spiegelman é um homem de saúde precária, sovina, dotado de uma impressionante capacidade de improviso para não gastar dinheiro, um exímio manipulador de consciências e capaz de actos racistas. Ele aproxima-se do estereótipo da imagem criada pelos nazis. O autor não "adoça" a imagem do seu pai judeu. Ele mostra-o como é, pelo menos para si. Não sente a necessidade de recorrer a eufemismos para contrariar os actos animalescos do nazismo. Independentemente das características, um homem não é uma raça, uma raça não define um homem, e em circunstância alguma deve ser tratado como animal a exterminar.

"Maus", que significa "ratos" em alemão, ironiza com o antropomorfismo que os alemães usaram na propaganda para caracterizar os judeus (ratos), os polacos (porcos) e outras nacionalidades.

A relação entre gerações torna-se cada vez mais difícil; o filho deixa de ser um espectador para ser interveniente.

"Maus" recorda-nos que a posição do leitor é de conforto, por mais chocado que se sinta, pois pode sair desse universo ao fechar o livro. Ele, artista, também. Tal não acontece quando na condição de filho. A aproximação física e temporal age sobre a realidade.

A impossibilidade do leitor em habitar esse universo de horror é uma bênção, mas também o impede de realmente descodificar o "genoma" do mal.

É-se espectador do passado, para o melhor e para o pior. Art Spiegelman também está nessa condição.

"Maus" é ainda mais do que uma história de sobrevivência; é também uma tentativa de percorrer o indizível até o inocular.

"Maus" é uma obra-prima para ler e reler.

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