Crónica de jogo

Só ao 32.º tiro belga o muro norte-americano foi abaixo

Lukaku, no prolongamento, foi o segredo para quebrar a resistência do guarda-redes Tim Howard, autor de uma exibição histórica. Bélgica venceu EUA por 2-1.

Tim Howard foi quase omnipresente na baliza norte-americana
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Tim Howard foi quase omnipresente na baliza norte-americana Sergio Moraes / Reuters

Quando o Mundial de futebol deste ano acabar é cada vez mais provável que os adeptos entrem em depressão. A cada dia que passa, a prova não pára de surpreender, mesmo que no fim impere a lógica, como aconteceu nesta terça-feira, em Salvador, onde a Bélgica se apurou para os quartos-de-final, ao derrotar os Estados Unidos (2-1).

O resultado foi normal, porque a Bélgica era favorita e, tal como os restantes primeiros classificados da fase de grupos, segue em frente na prova. Mas o que se passou em campo foi tudo menos banal: tratou-se de mais um jogo memorável, com dezenas de oportunidades falhadas pelos belgas, uma exibição notável do guarda-redes Tim Howard e um final emocionante, com os americanos a ameaçarem o empate até ao fim do prolongamento.

À partida o talento belga era bem mais favorito do que a força americana. E depois de três encontros em que só marcou nos 20 minutos finais, a selecção europeia entrou em campo com vontade de acertar na baliza mais cedo. Quase o conseguia. Logo aos 42 segundos, o jovem Origi (titular no lugar de Lukaku) isolou-se, mas permitiu a defesa a Tim Howard.

Estava dado o mote para o que seria o jogo. A Bélgica, com o seu futebol rendilhado, à espera de encontrar um buraco na defesa norte-americana. E os Estados Unidos, com o guarda-redes Tim Howard em grande, apostados nos lances de bola parada e no contra-ataque.

Com Eden Hazard ainda sem desequilibrar como já fez no Lille e no Chelsea, foi muitas vezes Kevin de Bruyne a assumir o papel de “maestro”. O médio do Wolfsburgo desperdiçou uma das muitas boas oportunidades dos red devils, ao rematar ao lado (23’), antes de pôr à prova a atenção de Tim Howard (45’+2’).

Na primeira parte, a Bélgica até conseguiu algumas boas jogadas de ataque, graças à velocidade e técnica dos seus jogadores, mas faltou o acerto no último passe e na finalização.

Logo após o intervalo, a equipa comandada por Marc Wilmots apertou o assalto à baliza de Howard, que continuou a brilhar (cabeceamento de Mertens aos 47’ e remate de Verthogen aos 57’) e a contar com a má pontaria dos belgas: Origi acertou na trave (56’), Verthogen atirou ao lado (57’) e foi imitado nos minutos seguintes por Mertens e Witsel. A Bélgica tentava de todas as maneiras, dentro e fora da área, mas esbarrava no muro americano, principalmente numa exibição histórica de Howard.

Origi, um jovem avançado do Lille que antes do Mundial era desconhecido até para alguns colegas de selecção, mostrou enormes recursos: velocidade, jogo de cabeça, capacidade de jogar de costas para baliza, bom drible. Só lhe faltou mesmo o instinto matador que teve, por exemplo, no jogo com a Rússia, quando se estreou a marcar pela selecção.

O jovem de origem queniana voltou a perder duelos com Howard (71’ e 85’). E quando resolveu dar oportunidades aos colegas, o fim foi o mesmo: bola ao lado ou em Tim Howard, que bateu o recorde de defesas em Mundiais desde que há registos (11 nos 90 minutos e 15 no total do encontro). Os EUA limitavam-se a defender mas, ironicamente, podiam ter marcado no último minuto de descontos dos 90’, não fosse Wondolowski atirar por cima.

Pela quinta vez nos oitavos-de-final deste Mundial, um jogo seguiu para prolongamento. Marc Wilmots precisava de um joker para descobrir o caminho do sucesso para a baliza de Howard. Tirou Origi e apostou em Lukaku, o que se revelou providencial.

Logo no início do prolongamento, o avançado do Chelsea que esteve emprestado ao Everton correu pela direita e fez o cruzamento para o golo de Kevin de Bruyne (93’). A resistência americana acabou ao 32.º remate belga.

Noutra competição e frente a outra equipa, um golo destes significaria o fim. Mais ainda quando Lukaku aumentou a vantagem belga para 2-0, aos 105’, batendo finalmente Howard, que minutos antes lhe tinha negado o golo por duas vezes.

Só que esta equipa de Klinsmann nunca desiste. Mesmo com pouco futebol nos pés, a crença e a velocidade são um perigo para qualquer adversário. O treinador alemão lançou Julian Green e o jovem de 19 anos do Bayern Munique reduziu para 2-1 ao 107’, com um belo remate. No minuto seguinte, Jones atirou ao lado e aos 114’ Courtois evitou o empate. Os belgas mereceram o apuramento, mas só respiraram de alívio quando soou o apito final. A Argentina é o próximo adversário.    

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