Entrevista

“A condição física tornou-se o parente pobre do futebol”

Paulo Badajoz, especialista em preparação física, diz que “alguma coisa não correu bem” na preparação de Portugal. E destaca a importância de avaliar os jogadores e adaptar o treino à sua condição física e às características do meio onde vão jogar.

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Paulo Badajoz José Maria Ferreira

A temperatura, a humidade, a relva. Ou até pormenores como a almofada em que os jogadores dormem, porque a alteração na rigidez do pescoço altera a postura da coluna, um dos factores que podem contribuir para lesões. Quando os atletas mudam de local de competição e treino, é preciso ter em conta vários factores, para que não haja perdas de rendimento e risco de lesões. Professor na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e especialista em preparação física, Paulo Badajoz, de 53 anos, diz que é preciso avaliar o que correu mal na preparação da selecção portuguesa, porque ficou evidente que os jogadores estiveram abaixo das suas capacidades.

As lesões na selecção portuguesa durante o Mundial 2014 foram muito discutidas. O que é pode justificar este elevado número de lesões?
Em primeiro lugar, queria referir que não há grande diferença entre o que podem ser lesões musculares provocadas no futebol, no basquetebol, no râguebi ou até no ténis, que é uma modalidade individual. O que está aqui em causa são acções motoras de cada atleta, que são específicas de cada modalidade, mas que têm características comuns de força, velocidade, resistência, flexibilidade ou coordenação. Quando se diz que no futebol é normal haver lesões, somos da opinião de que no futebol é tão normal haver lesões como noutras modalidades de alto rendimento, porque se trata de acções muito intensas e de alto risco. Por exemplo, quando pegamos numa botija de gás, e não estamos habituados, podemos provocar uma lesão. O que aqui supomos é que os atletas estejam perfeitamente adaptados à exigência do trabalho que lhes é pedido. Como é que se faz essa adaptação? A partir do treino e de uma monitorização ao longo do processo de treino, para saber a que nível estão os atletas. Como é que é possível haver tantas lesões? Não temos todos os dados na mão, mas há evidências. A evidência maior é que os padrões de execução dos atletas — na corrida, passe, recepção, posicionamento em campo — não estão a ser a adequados face ao que esperaríamos, porque conhecemos estes atletas. Há uma evidência de que alguns dos atletas estarão com problemas do foro da condição física.

Sabemos que há uma série de factores que podem contribuir para lesões, desde a alimentação, hidratação, até à adaptação ao meio e o treino. Qual destes lhe parece preponderante para esta falta de condição física?
Estamos a falar de atletas de alto rendimento e altamente profissionais. As pessoas que dirigem todo o staff técnico e de apoio são pessoas que são profissionais. Acredito que os atletas estejam monitorizados e que haja controlo de todos os factores de que falou. Havendo sinais evidentes de desidratação e subnutrição não acredito que os médicos e o preparador físico da selecção não os reconhecessem de imediato. Haverá, porventura, outros factores que foram menos cuidados, porque não se pensou que tivessem tanta influência. Não é de todo gratuito pensar que a adaptação ao tipo de relvado face à humidade não provoque uma reacção muscular à qual o atleta não está adaptado. Uma das coisas que o treino produz é a capacidade de adaptação. Quando mudamos muitas vezes de zona de treino, precisamos de um período de adaptação.
 
Isso aumenta risco de lesão?
Se as condições de prática são diferentes – seja ao nível do relvado, temperatura, humidade, etc. –, tenho um desajustamento e é preciso reajustar o treino. Posso alterar coisas muito simples, como mexer no tipo de aquecimento ou no tipo de retorno à calma. Há outros detalhes como o tipo de almofada em que o jogador dorme. O jogador levou a sua almofada? A almofada possibilita não só prazer e conforto, mas também é rija o suficiente para evitar o aumento da rigidez do pescoço? É que a rigidez do pescoço determina imediatamente uma rigidez da coluna vertebral. Não sei se foi feito, mas isto é pormenor engraçado de algo que faz a diferença. O mesmo se pode dizer do tipo de sono, que, juntamente com outras mudanças no meio, pode potenciar o risco de lesões. Sabendo isto tudo, os responsáveis podem mexer no treino. Podem alterar a rotina do aquecimento, até de forma individual, ou a recuperação do esforço. Num clima muito frio, posso usar calças que apertam a parte muscular. Posso usar mais ou menos massagem com gelo. Sobre a selecção portuguesa não sei o que foi feito. O que posso dizer é que houve uma evidência de que, de jogo para jogo, os mesmos jogadores não tiveram a prestação a que estamos habituados.

O que significa que algo correu mal...
Alguma coisa não correu bem. As responsabilidades não podem atribuídas até termos os dados na mão. Esta casa está aberta a estudar o assunto. É possível pegar nos jogadores e no período de um mês perceber o que não está bem e perceber quais os procedimentos que possam ter escapado. Eu não acredito, tal como outros colegas meus não acreditam, que eles tenham índices de hidratação ou de nutrição baixos.

Centrava mais a sua análise na adaptação e no treino?
Sim, nas adaptações do treino para o desenvolvimento das capacidades dos atletas para aquilo que os esperava, as temperaturas, humidade, etc. Se me perguntar se as temperaturas e a humidade têm influência, digo que têm. Se me perguntar se fossem mais cedo, poderiam ter um período de adaptação maior, também é um facto. Mas também digo que num mês, poderiam ter dez atletas adaptados e seis não adaptados.

Portugal, como outras selecções, foi primeiro para os EUA e só depois para o Brasil. Era preferível ter ido directamente para o Brasil?
Se eu viajo para os EUA numa segunda-feira, faço uma adaptação ao jet lag. A selecção ficou dez dias nos EUA e supostamente o efeito de jet lag desaparece. Mas logo a seguir fez outra viagem. Neste período nos EUA houve jogos e foram alteradas as rotinas de treino de todos os atletas, uns que vieram de Madrid, outros do Mónaco, outros de Portugal. Todos eles têm condição de prática diferenciada, porque uns treinam mais em terreno molhado do que outros, por exemplo. Eles são profissionais e estão mais preparados para se adaptarem, mas toda a rotina deles muda. Quando vou para os EUA, entro num processo de adaptação e quando estou adaptado, mudo novamente a rotina e encontro outras condições. O que se pode fazer? Podemos mexer no envolvimento, nas tarefas ou no indivíduo que as executa. E principalmente posso mexer no treino. Se tiver um piso muito rijo e os jogadores se queixam dos gémeos, tenho de fazer mais exercícios de recuperação para os gémeos. Se atletas se queixam dos quadríceps, então tenho de introduzir ou reforçar exercícios para essa zona. É preciso adaptar o treino às necessidades que o envolvimento pede, face às tarefas que quero desempenhar e face aos indivíduos que tenho.

 A adaptação seria menos exigente se a selecção tivesse ido directamente para o Brasil…
Eu tenho a ideia de que sim. Agora, há equipas que fizeram o mesmo trajecto que nós e que não tiveram os mesmos problemas que nós. Falta aqui a outra parte da questão: que é se atempadamente planeei este trajecto e adaptei o treino. É possível ter uma fase preparatória. Por exemplo, atletas que fazem ciclismo, muitas vezes usam salas de altitude ou câmaras isobáricas. Essas são ferramentas que produzem um efeito fisiológico que nos aproximam das condições que vamos encontrar. Outra coisa muito importante é que temos períodos de esforço e de recuperação. É preciso saber qual foi o período de trabalho dos jogadores durante o ano inteiro e qual foi o período de repouso.

Um Mundial de futebol realiza-se no final da época e, no caso do Brasil, significa condições climatéricas muito diferentes para as selecções europeias. É possível responder a este desafio em termos de condição física?
É, senão estavam todas as selecções lesionadas. Há selecções que parecem em boas condições. A solução é fácil, a sua execução é que já não é tão fácil. Exige uma equipa de trabalho. Desapareceu a figura do treinador, com o preparador físico, o fisioterapeuta e o médico ao lado. É certo que não se devem imiscuir nas funções uns dos outros, mas devem criar sinergias para que o treino, a recuperação e toda a preparação sejam efectivas. Outro aspecto importante é, depois de conhecer o envolvimento e as tarefas, conhecer o atleta. Na minha modesta opinião, faço a avaliação funcional dos atletas. Podia pô-los numa passadeira de laboratório, ou num ginásio, mas com uma bateria de testes reduzida no terreno posso saber onde estão as dificuldades deles. A avaliação das capacidades físicas de um atleta tem um carácter diagnóstico das lesões. Em função da avaliação dos atletas, é preciso adequar ou não o processo de treino aos jogadores, globalmente ou individualmente. Posso ter bidiários para jogadores que vêm de uma época longa. Porque um é um treino táctico ou técnico e outro é de recuperação. Um preparador físico não chega para tanta gente.

O médico da selecção disse que havia um índice de suspeição lesional acima de outros anos. O que significa isso?
Até sou responsável por processos de reintegração desportiva pós-traumática e não tenho bibliografia que me explique o que é o índice de suspeição lesional. Calculo que seja uma tradução livre do inglês de um conceito que é o de factores de risco. Esses factores de risco é que estabelecem em que situação está o jogador que estamos a avaliar. Por exemplo, no caso das lesões nos músculos posteriores da coxa, há estudos que falam de factores de risco como desequilíbrio entre o músculo que faz a acção e o que não faz a acção, desequilíbrios na coordenação dentro do músculo e entre diferentes músculos, o aquecimento, a fadiga acumulada, técnicas de corrida, má postura na coluna ou na bacia. Com base nestes factores, podemos dizer se um atleta tem maior ou menor predisposição para uma determinada lesão. Acresce a isto que há lesões que são recorrentes. Quem tiver uma lesão no músculo posterior da coxa, muitas vezes reincide nesse ano. É como se falássemos de um diabético, que depende de uma rotina. Um atleta com uma lesão destas também fica dependente de uma rotina.  

Quando detectamos esses factores de risco, imagino que haja um nível a partir do qual seja aconselhável o atleta não ser convocado?
Percebo a pergunta. Se tiver o meu melhor jogador lesionado, levo-o ou não? A minha resposta é saber primeiro o quanto ele está lesionado. Se ele reduziu em 20% o valor de potência, não posso pedir-lhe que faça muitos sprints. Mas se calhar consigo que ele num espaço de 10/15 metros tenha uma acção que faça a diferença. O que faço? Reestruturo a equipa em função da limitação daquele jogador. Se detecto que um atleta tem um risco muito elevado de lesão, posso não o levar. Ou posso fazer outra coisa, que é, avaliando o historial médico e desportivo do atleta, saber se tenho margem para o recuperar.  Se souber que o jogador não produz 100%, mas produz 80% e faz alguma diferença, vou monitorizá-lo constantemente.

Sei que não quer entrar em casos particulares, mas falou-se muito do Cristiano Ronaldo. Ele chegou a dizer que nunca jogou sem dores. Como vê estas declarações?
Para mim não existe o melhor do mundo em futebol. Há vários jogadores com capacidades extremas. Mas considero o Cristiano Ronaldo, dos que conheço, o melhor atleta de futebol que vi até hoje. Acaba o treino e ele treina-se mais uma hora. Esta capacidade de empenho faz dele este grande atleta. Tem também uma capacidade de resiliência e isso por vezes leva-o a dizer coisas que saem do fundo do coração. O alto rendimento não dá saúde. Quem quer estar naquele nível todos os fins-de-semana, faz sacrifícios. Se tivesse o Cristiano Ronaldo nas mãos, não permitiria que ele tivesse meia lesão, sequer, como o Nadal ou o Michael Jordan. É o homem que faz a diferença. Não estou a dizer que as pessoas estão a fazer mal o seu trabalho, mas a questionar até que ponto aquela máquina aguenta tudo. O treinador do Real Madrid percebeu e mandou-o parar, porque precisava dele a 80% na Liga dos Campeões.

Olhando para o trajecto dele no Real Madrid e na selecção, Cristiano Ronaldo está a correr riscos graves de lesão?
Não posso dizer até que ponto esse risco é grave. Sei que, associada à lesão de que se falou, pode haver outras situações de risco, por compensação. Todos nós quando coxeamos, por dor um pé, compensamos o défice de uma perna com outra perna. Por vezes, cria-se uma catadupa de pequenos problemas. Era fundamental para o atleta que ele fosse reavaliado de maneira funcional para perceber o momento da condição clínica real e a situação desportiva real. O Real Madrid tem profissionais competentes para o fazer. Há evidências de que ele não está bem.

As tendinoses no joelho normalmente devem-se a quê?
Regra geral, surgem por sobrecarga de trabalho. Isso não quer dizer demasiados jogos. Ter muitos jogos numa época não é condição sine qua non para ter mais lesões. É evidente que existe fadiga residual acumulada ao longo de uma época e estamos mais cansados. Se tiver os tempos de recuperação adequados, é possível manter um atleta activo durante muito tempo. Os atletas de basquetebol da NBA fazem 80 jogos por ano, com viagens constantes de 2000 ou 3000 km, jogam à quarta e ao fim-de-semana. Como é que se mantém? Dando algum descanso aos jogadores. Por isso, é que Michael Jordan ficava no banco algum tempo, porque o treinador sabia quanto tempo ele devia estar em esforço. Esta gestão do esforço e do repouso é que determina também o risco de lesão.

Há várias selecções com problemas físicos e há quem questione se faz sentido o futebol manter esta estrutura de época desportiva, com 50 ou 60 jogos e o Mundial no fim…
O que é preciso é uma nova abordagem ao treino de futebol. Está na altura de o futebol olhar para as outras modalidades. Está na altura de o futebol olhar não somente para os aspectos técnicos e tácticos, mas de forma mais integrada os outros aspectos que envolvem a prestação motora dos atletas. Não é negligenciável o que se faz na chamada pré-época. Para mim, é a base em que construo tudo o que vai até ao final. Quando há paragens no campeonato, muita gente fica preocupada. Para mim, quando a época pára fico feliz, porque posso reavaliar os meus atletas, saber em que grau estão e reestruturar ou manter o meu treino.

Já o ouvi dizer que o treino no futebol é pobre…
O futebol evoluiu muito, as exigências são superiores. O futebol, sendo um espectáculo, ficou muito centrado na ideia da táctica e da técnica dos atletas. A condição física tornou-se o parente pobre do futebol e tem-se a ideia de que só jogando se desenvolve as capacidades físicas. Na nossa abordagem nesta casa, não é o que fazemos. O basquetebol, o voleibol, o râguebi têm condição física planeada ao longo da época. Jogando desenvolve-se certas capacidades até certo ponto, mas é preciso complementar. A condição física é treino complementar. Há dias em que esse treino é não fazer nada, noutros é velocidade, noutros é resistência. O futebol tem alguns bons exemplos, mas não em números suficientes. Tem 17% de lesões em permanência. No início da época, há níveis de 30% de lesionados num plantel de uma equipa.

É muito elevado?
É, mas admitido como normal, porque se diz que o futebol tem um esforço muito grande. Chamo a atenção para modalidades como o futebol australiano ou basquetebol da NBA ou o râguebi, que têm muitas lesões de contacto. Mas não é admissível que no futebol haja um valor elevado de lesões que não são de contacto. Na Copa América de 2011, num total de 63 lesões, 32 não foram de contacto, foram estiramentos, roturas, contracturas, etc. Na minha perspectiva, não é aceitável ter 17% de lesões em permanência.