Morreu Bobby Womack, um dos últimos mestres da soul

O lendário cantor de soul norte-americano Bobby Womack morreu esta sexta-feira, aos 70 anos, avança a revista Rolling Stone que cita um representante da editora XL Recordings que não avança as causas da morte.

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Womack nasceu em Cleveland, Ohio, no seio de uma família de músicos Stephen Lovekin/Getty Images/AFP

Bobby Womack sobreviveu para um último regresso, ao gravar com Damon Albarn, dos Blur, o álbum The Bravest Man In The Universe. Estávamos em 2012 e Womack, músico no activo desde os oito anos, guitarrista exemplar, compositor talentoso, senhor de uma imponente voz soul, tinha 68. Dois anos depois, com uma digressão europeia marcada para breve, a sua editora, a XL Recordings, deu a notícia. Bobby Womack não sobreviveu mais. Morreu esta sexta-feira, aos 70 anos. As causas não foram divulgadas, mas a sua saúde era frágil: fora-lhe diagnosticado Alzheimer e sofria de diabetes.

“Verei o meu irmão na Igreja”, tweetou Damon Albarn em reacção à morte. Albarn fora responsável pelo renascimento do cantor no final da vida. Admirador da obra de Womack, convidou-o a participar em Plastic Beach, álbum de 2010 dos Gorillaz. A primeira abordagem não foi bem-sucedida. Womack desconfiava do apreço de Albarn e temia desiludi-lo – “achava que ele dava demasiado crédito a coisas que tinha feito há 35 anos”. Além disso, não fazia a mínima ideia do que eram e que música tocavam os Gorillaz. “Gorillaz? Só conheço os Monkees”, disparou. Albarn insistiu, Womack acedeu. Gravou duas canções para Plastic Beach e uma delas, Stylo, onde colabora também o rapper Mos Def, tornou-se mesmo o primeiro single do álbum.

Dois anos depois, chegava The Bravest Man In the Universe. Era o seu primeiro álbum de originais em 18 anos e era um álbum único: o velho e o novo, a tradição soul e a electrónica recente e a sua voz impondo-se sobre as produções de Richard Russel e Damon Albarn.

Em 1997 tínhamos voltado a recordá-lo quando Quentin Tarantino utilizou Across 110th street no genérico inicial de Jackie Brown (a canção, curiosamente, fora originalmente composta como banda-sonora do policial blaxploitation homónimo, estreado em 1972 e com Anthony Quinn como protagonista). Nessa altura, voltámos às suas canções e redescobrimos a sua obra, num momento em que Womack regressava discretamente à actividade, depois de um longo período de desistência em que pôs a guitarra de lado para passar os dias em frente à televisão, aborrecendo-se.

Em 2012, quando conhecemos The Bravest Man In The Universe, vimo-lo verdadeiramente perante nós. Vivo, activo. O “pregador” estava de volta (era conhecido como “The Preacher” devido às longas dissertações com que apresentava as canções nos concertos).

Para este ano está marcada a edição de um novo álbum em colaboração com Damon Albarn e Richard Russell, onde ouviremos convidados como Stevie Wonder, Rod Stewart, Snoop Dogg ou Ronald Isley, dos Isley Brothers. Womack chamou-lhe The Best Is Yet To Come, título que ganha uma trágica ressonância agora que Albarn corre para o twitter para prestar homenagem ao ídolo. “Verei o meu irmão na igreja”. Palavras apropriadas. Foi precisamente na igreja que, para Womack, dono de um percurso de vida muito pouco católico, tudo começou.

Bobby Womack nasceu a 4 de Março de 1944 em Cleveland. Filho de um operário na indústria do aço, músico em part time (a mãe tocava órgão na igreja baptista da comunidade), não tinha ainda dez anos quando integrou os Womack Brothers, o grupo que o pai criou reunindo os cinco filhos. O fervor religioso dos pais impôs que o grupo se dedicasse ao gospel, pondo de parte a profanidade da soul e do rhythm’n’blues, cuja interpretação seria garantia de condenação eterna. Tal não demoraria a mudar. Porque entretanto, dá-se o momento decisivo no percurso de Bobby Womack. Sam Cooke, o grande cantor soul, o autor de A change is gonna come, vê o grupo actuar em 1956 e propõe-se ajudá-los na carreira.

Em 1960, Cooke funda a sua própria editora, a SAR Records, assina o quinteto e produz e compõe os arranjos do primeiro single dos irmãos, Looking for a love. A banda já não se chamava Womack Brothers, mas sim The Valentinos, e Bobby Womack e os irmãos já tinham abandonado o lar familiar - à conta de terem trocado o gospel em favor da soul, o pai expulsara-os de casa. “Ele queria que eu fosse para o céu, mas eu nunca vi ninguém voltar do céu e dizer: ‘Eh pá, o céu é muito bom’”, recordava ao Ípsilon. Womack acabaria por perdoar o pai. “Ele não sabia para mais. Pensava que podíamos entrar no céu a cantar. Mas, como digo neste disco [The Bravest Man In The Universe], às vezes é melhor ser mau. Penso na minha vida e concluo isso: apesar de ter sido tantas vezes mau, sobrevivi. E os bons caíram. Onde está a justiça?”

A humildade da declaração fundava-se numa evidência. Bobby Womack sentia-se sozinho, musicalmente, no mundo actual. “Venho de uma época em que havia Marvin Gaye, Sam Cooke ou Wilson Pickett, e quando um deles abria a boca para cantar não se confundia com mais ninguém. Esses tipos eram estrelas, não eram gente a tentar ser estrelas”. Mas nós sabemos o que fez Bobby Womack. Sabemos o suficiente para devolver a pergunta. Onde está a justiça agora que perdemos outro dos bons, um dos últimos da sua geração, geração abençoada?

Com os The Valentinos, Bobby Womack inscreveu o seu nome na história rock ao co-compor o It’s all over now que, em 1964, se tornaria o primeiro single dos Rolling Stones a chegar ao topo das tabelas de vendas. Com o fim dos The Valentinos, na sequência da morte de Sam Cooke, assassinado no mesmo ano durante uma discussão com o gerente de um motel, iniciou um percurso onde o brilho e a turbulência andaram a par. Casou com viúva de Sam Cooke e foi proscrito por parte da comunidade musical – defendeu-se dizendo que só queria protegê-la, tal como Cooke o havia protegido. Separar-se-iam anos depois, quando a mulher descobre que ele havia dormido com a enteada.

Inicialmente, foi um verdadeiro músico para músicos. Gravou em discos de Joe Tex, dos Box Tops ou de Aretha Franklin. O talento enquanto compositor foi notado por Wilson Pickett, que cantou várias das suas músicas. Não só por Pickett: compôs Breezin’, que George Benson tornaria um sucesso, e compôs Trust me, que Janis Joplin incluiu no seu último álbum, Pearl. Ele que tocara anteriormente com um jovem Jimi Hendrix pré-estrelato, ver-se-ia mais tarde, em 1971, envolvido naquela que é considerada hoje uma das obras-primas da soul e do funk, There’s a Riot Goin’ On, de Sly & The Family Stone (contribuiu com a guitarra e com a sua inconfundível voz de barítono).

O primeiro álbum a solo, Fly Me To The Moon chegou em 1968. Nele encontrávamos o seu primeiro êxito, uma versão do clássico dos The Mamas & The Papas California Dreamin’. Os anos 1970 seriam porém, a sua década, com álbuns como CommunicationUnderstanding ou Looking for a love e com singles como Harry hippieNobody wants you when you’re down and out ou a célebre Across 110th Street a revelaram-se um sucesso crítico e comercial. O homem que aprendera com os gigantes da soul provava que tinha absorvido todas as suas lições. Era capaz da aspereza de Wilson Pickett e da doçura de Bill Withers, com quem regravou It’s all over now. Tinha o groove que Sly Stone aprimorara e o cuidado na composição que o perfeccionista Sam Cooke tanto prezava. E tinha a admiração de músicos como Ronnie Wood, o Rolling Stone que o convidou a participar no seu segundo álbum a solo, Now Look, ou de lendas como Elvis Presley (participou na gravação do clássico Suspicious minds). Nos anos 1980 , editaria dois álbuns reverenciados na sua discografia, The Poet (1981) e The Poet II (1984), antes de o consumo de cocaína se sobrepor ao impulso criativo.

Ressurection, em 1994, marcou o regresso, depois de curada a toxicodependência. O Jackie Brown de Tarantino, três anos depois, colocou-o no radar de gerações que lhe desconheciam a história. Em 2010, Damon Albarn quis a sua voz num disco dos Gorillaz. O destino não demoraria a trazer The Bravest Man In The Universe. Bobby Womack renascia pela enésima vez.

Quando os seus velhos camaradas começaram a desaparecer, no final dos anos 1980, auto intitulou-se “The last soul man”. “Agora sou mesmo o último homem da soul”, disse ao Ípsilon. “E enquanto tiver força vou cantar”. Bobby Womack cantou até ao fim.