Uma big band cheia de atrevimento

A Orquestra Jazz de Matosinhos toca a 1 de Julho, na Casa da Música (Porto), Queens of the Stone Age e Janelle Monáe ao lado de Manuela Azevedo, meses depois de ter encomendado inéditos a alguns dos mais vanguardistas compositores contemporâneos.

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Enquanto orquestra de reportório, a OJM quis estimular o seu próprio espaço, inventar um mundo para lá da ruminação histórica

Quando Butch Morris morreu em Janeiro de 2013, desaparecia uma das mentes mais originais e criativas do jazz no século XX. Trocando o cenário de músicos com farpelas impecavelmente engomadas, sem uma nódoa discernível a olho nu, pautas rigorosas nas estantes à sua frente e uma reverência total pela música escrita há mais de cem anos, Morris surgia em palco como um maestro que se propunha reger uma turba de indisciplinados e desregrados.

O seu sistema inovador, a que chamou Conduction, pretendia balizar a improvisação, propondo um código composto por gestos que transmitiam a cada momento o caminho que a composição em tempo real deveria tomar. Aquilo que levava a cabo era algo de inusitado: comandar a orquestra como um enorme instrumento de improvisação, atirando-se repetidamente para o risco e para a incerteza. A possibilidade de descalabro estava sempre presente. E, no entanto, nunca se dava realmente por ela.

Quando Butch Morris morreu em Janeiro de 2013, aos 65 anos, Pedro Guedes e Carlos Azevedo perceberam que tinham falhado ao tardar no convite para que o maestro do imprevisto dirigisse a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM), que os dois criaram em 1999 enquanto orquestra de autor(es). “Já não fomos a tempo, infelizmente”, lamenta-se Pedro Guedes, “mas temos tido todo o género de experiências.” Essa dinamitação em que Morris era mestre pode não abrilhantar o currículo da OJM, mas apenas se pode considerar uma “falha” tendo em conta a criteriosa lista de colaboradores (Chris Cheek, Kurt Rosenwinkel, Jason Moran, Carla Bley, Lee Konitz) de que a OJM se tem rodeado desde que teve de começar a pensar como gostaria de se ver ao espelho ao largar simbolicamente as saias dos seus dois fundadores. Em 2001, ao assinar um protocolo com a Casa da Música, a big band comprometia-se com a apresentação anual de três concertos e as criações de Guedes e Azevedo deixaram de poder municiar por completo esses programas.

Foi então que a imagem ao espelho começou a transformar-se. Deixou de ser um corpo de múltiplos membros e duas cabeças, tornando-se mais plástico e mutável. Embora os dois autores continuem a liderar a formação e a abastecê-la tanto quanto possível de novas composições, a OJM passou por uma metamorfose que a devolveu ao mundo sob a forma de orquestra prenhe de atrevimento. Esse atrevimento passa, em grande medida, pela abertura à construção de um reportório que não se limita a perpetuar o desenho seminal das big bands, conforme demarcado e patenteado por Duke Ellington ou Count Basie, nem pela insistência na reposição das renovações de Carla Bley ou Maria Schneider, com quem a OJM já colaborou. Enquanto orquestra de reportório, a OJM quis estimular o seu próprio espaço, inventar um mundo para lá da ruminação histórica.

Escrita na vertigem

Mesmo tendo experimentado com o pianista português João Paulo Esteves da Silva uma experiência de improvisação total, a OJM – que conta com alguns grandes valores de uma nova geração do jazz português como Susana Santos Silva (trompete), Marcos Cavaleiro (bateria) e Demian Cabaud (contrabaixo) – trabalha sobretudo a partir de música escrita. E esse é um dos grandes atractivos na exploração de uma linguagem que, para Pedro Guedes, oscila entre a música popular e a erudita, entre o jazz e a composição contemporânea. Até porque há muito que o jazz se foi tornando cada vez mais uma música de longo fôlego improvisador (quando não apenas desse fôlego) e é por essa provocação ao abismo e à vertigem que tem passado a maioria da produção desbravadora de caminhos que até podem não levar a lugares novos mas, ao menos, procuram novas rotas para chegar até lá.

A intromissão dessa corrente e dessas soluções na linguagem de uma big band é, por isso, sempre curiosa de testemunhar. Mas o facto de haver uma sólida base escrita faz com que a orquestra se torne igualmente de uma extrema sedução para músicos habituados a operar noutro registo – que não lhes permite desenvolver toda uma ideia musical para um completo naipe de instrumentos. Jazz Composers Forum, álbum com o mesmo nome da iniciativa a OJM em que convoca criadores de proa (norte-americanos e europeus) a compor para a sua orquestra de jazz, é por isso um notável compêndio de ideias musicais de espantosa novidade, pela mão de Ohad Talmor, Pierre Bertrand, Darcy James Argue, Steve Bernstein, Guillermo Klein, Florian Ross, Julian Argüelles e Frank Vaganée. “Queremos manter uma periodicidade bienal ou trienal do Jazz Composers Forum”, esclarece Pedro Guedes. “A orquestra é um instrumento também e queremos que este instrumento esteja disponível para os compositores poderem experimentar e arriscar, incentivando a criação contemporânea destes reportórios.”

O risco, a medir-se aos palcos (ao contrário dos homens), deverá atribuir um valor entre dois pontos extremos. Assumamos que A é o ponto em que a OJM se entrega à improvisação total ou até quando sobe palco com Jason Moran e a Orquestra Sinfónica para interpretar uma obra soberbamente tensa (Laylas) assinada por Ohad Talmor. E para ponto B, pensemos no programa que a OJM apresenta a 1 de Julho na Casa da Música. Depois de acompanhar cantoras como Mayra Andrade, Maria João, Dee Dee Bridgewater ou Maria Rita, a orquestra tocará um reportório sugerido por Manuela Azevedo, vocalista dos Clã, e para o qual Pedro Guedes e Carlos Azevedo escrevem os arranjos. Aqui, os momentos de verdadeiro assombro deverão acontecer com a interpretação de originais dos Queens of the Age e de Janelle Monáe, por entre outros menos inesperados colhidos nas obras de Tom Waits, Elvis Costello, Chico Buarque ou Serge Gainsbourg.

“Conheço a Manuela desde os tempos do Clube Atlântico, um clube de jazz que havia em Vila de Conde nos anos 90”, comenta Pedro Guedes. Participaram, na altura, em algumas jam sessions conjuntas, andavam pelos 18 anos, sem saber ainda o que pedir ao jazz que começavam a experimentar. Agora, que já aprenderam, sabem que o jazz responde a quase tudo. O importante é não fazer sempre as mesmas perguntas.