EUA-Portugal à lupa: pouco ataque pelo centro e pouca precisão no remate

Equipa académica analisou a forma como os jogadores interagiram no jogo que quase ditou a eliminação da selecção portuguesa do Mundial 2014.

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Interacção dos jogadores no jogo EUA-Portugal. Quanto maior a seta, maior o número de passes entre os jogadores em causa
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Interacções na primeira parte
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Interacções na segunda parte

Na figura “rede de acções” do Portugal-EUA, vemos as acções realizadas com a bola pelos jogadores, tais como passes, lançamentos, cortes de cabeça, cantos e cruzamentos. O tamanho dos nós (jogadores) é definido pelo número de jogadores com que interage cada jogador. A largura das ligações aumenta em função do número de acções realizadas entre dois jogadores. Os nós mais amarelos significam menor precisão nas acções, mais vermelho indica maior precisão.

A rede de acções dos EUA mostra que jogaram com dois médios defensivos (Jones e Beckerman) e apenas com um avançado (Dempsey), reforçando o meio-campo em relação ao jogo com o Gana. Esta alteração facilitou a construção do ataque dos EUA, cuja rede está mais orientada no sentido do ataque. Para isso contribuiu o jogo distribuído por Bradley, que, em conjunto com Beckerman, potenciou o corredor direito, em que Johnson subiu muitas vezes no campo e criou várias situações de remate à baliza. Foi por este corredor que surgiu o 2º golo dos EUA (Dempsey aos 81’). Esta organização dos EUA foi bem sucedida a impedir a construção do ataque de Portugal pelo corredor central e a impedir a ligação entre os médios e o avançado centro, Éder.

Na rede de Portugal, as ligações mais densas são entre elementos do mesmo sector, representando uma posse de bola que avança pouco no campo. Mesmo os jogadores mais avançados no campo apresentam um padrão de passes para trás, com especial destaque para Éder. Éder rematou à baliza sobretudo após recuperar a bola a jogadores norte-americanos.

As ligações com o ataque foram maioritariamente pelo corredor direito, entre João Pereira, Moutinho e Nani. Moutinho foi o jogador responsável por conduzir o ataque português, como revelam as muitas ligações realizadas para ele. No entanto, estas ligações foram inconsequentes para a eficácia portuguesa, devido à imprecisão das acções de Nani e aos remates para fora de Ronaldo. Apesar disso, Portugal rematou mais vezes e com mais jogadores, tendo sido Cristiano Ronaldo o jogador português que mais remates realizou. Na sua maioria, os remates portugueses surgiram de cruzamentos ou de ressaltos de bola após os cruzamentos, como aconteceu nos dois golos de Portugal.

Portugal recuperou muitas vezes a bola e manteve-a na sua posse: o turnover mais vermelho indica que a bola se manteve na posse da equipa. Todavia foi num turnover dos EUA que Jones recuperou a bola de Nani e marcou o primeiro golo dos EUA (Jones, 64’).

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Em termos da intensidade dos passes ao longo do tempo do jogo, Portugal foi dominante no início (Nani marcou aos 5’), embora ao longo da primeira parte os EUA tivessem durante mais tempo um maior número de passes. Na segunda parte Portugal aumentou a intensidade, verificando-se uma maior supremacia no final do jogo (Varela marcou aos 90’+5).

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A dinâmica de cada equipa ao longo do jogo pode ser captada em forma de rede de acções. A rede é constituída por nós (jogadores posicionados aproximadamente como em campo) e ligações (setas) entre os nós. A análise da dinâmica da equipa implica que se incluam os jogadores substituídos (tempo de jogo à frente do nome), por isso mais de 11 jogadores podem fazer parte da rede. Do mesmo modo, jogadores que não tenham feito um mínimo de 3 passes podem não aparecer na rede e deste modo temos as ligações mais estáveis na dinâmica da equipa.

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Projecto do Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa em parceria com o Programa Doutoral em Ciências da Complexidade (ISCTE-IUL e FCUL).

Coordenador
Duarte Araújo (FMH-UL)

Equipa
Rui Lopes (ISCTE-IUL e IT-IUL)
João Paulo Ramos (ISCTE-IUL e FEFD-ULHT)
José Pedro Silva (FMH-UL)
Carlos Manuel Silva (FMH-UL)