Mãe de Daniel poderá ser acusada de sequestro e tráfico de pessoas

Alegado envolvimento de Lígia Freitas no desaparecimento do filho foi denunciado pelo pai, após queixa de violência doméstica. Juiz decide nesta segunda-feira se mulher continua ou não detida.

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Final da rua onde está situada a casa de onde Daniel desapareceu Miguel Manso

O juiz de instrução do Tribunal Criminal do Funchal vai nesta segunda-feira pronunciar-se sobre a detenção preventiva de Lígia Freitas, suspeita de estar envolvida no desaparecimento do filho, Daniel, com o objectivo de o vender. O juiz pode vir a confirmar, ou não, a detenção.

Detida no Estabelecimento Prisional da Cancela, no Funchal, desde a noite de sábado, Lígia Freitas foi constituída arguida e poderá vir a ser acusada de sequestro agravado e tráfico de pessoas, com a participação de terceiros que poderão também ser constituídos arguidos.

Carlos Sousa, pai de Daniel, assumiu neste domingo que foi ele quem denunciou à Polícia Judiciária a alegada participação da ex-companheira na eventual “encenação” do sequestro do menino, a 19 de Janeiro, no Estreito da Calheta, na Madeira.

Até há pouco apontado como principal suspeito, Carlos Sousa revelou ao Diário de Notícias funchalense que a denúncia foi feita com base em suspeitas que tinha em relação a Lídia Freitas, da qual está separado há dois meses.

Acusado de violência doméstica pela ex-companheira, Carlos Sousa negou as alegadas agressões e também qualquer envolvimento na “encenação” de rapto, quando foi ouvido, nos dois últimos dias, pelos inspectores na Polícia Judiciária. Os longos interrogatórios foram desencadeados pela queixa de maus tratos apresentada à PSP.

Carlos Sousa está neste momento com os dois filhos, Mariana e Daniel, resgatados, com a colaboração da PSP, de uma residência dos Prazeres, onde agora viviam com a mãe e o seu novo companheiro, também já ouvido pela PJ. Acusando a ex-mulher de desprezar os dois filhos desde que arranjou emprego e um novo companheiro, o pai promete lutar pela guarda das crianças que será decidida pelo tribunal.

"Neste momento é uma situação de crime pelo que é o tribunal que vai decidir o que fazer acerca da tutela dos filhos menores. A Segurança Social vai cumprir o que o tribunal decidir. É uma situação que, agora, ultrapassa os serviços da Segurança Social", declarou à agência Lusa Bernardete Vieira, directora regional deste departamento.

A detenção de Lígia Freitas deixou perplexos os seus familiares mais próximos e os vizinhos na Calheta, muitos dos quais participaram nas buscas, durante três dias, do menino desaparecido da casa dos padrinhos da irmã, Mariana. Dizem-se mesmo incrédulos, atendendo ao “sofrimento” manifestado pela mãe em entrevistas sobre o desaparecimento e a “emoção” após a descoberta da criança.

O avô paterno de Daniel, que completa dois anos na próxima quinta-feira, declarou-se chocado com a alegada intenção de a ex-nora vender o neto, sublinhando que criou 12 filhos em casa e, por isso, não lhe custaria cuidar dos netos.

 Daniel foi encontrado por levadeiros quando procediam à rotineira tarefa da distribuição de água de rega agrícola, num matagal, a uma distância de cerca de três quilómetros da residência dos padrinhos, no sítio dos Reis Acima, na zona alta da Calheta, de onde desaparecera na tarde de um domingo, dia 19 de Janeiro, durante um convívio familiar. O alerta do desaparecimento foi dado quase quatro horas depois.

Agora admite-se que tenha saído da residência na companhia da mãe e que tenha sido entregue, no final da rua, a um intermediário da família que o ia comprar.

No início das investigações, conduzidas pelo respectivo coordenador na Madeira, Eduardo Nunes, a Polícia Judiciária admitiu, pelas diligências então efectuadas, tratar-se de "um crime de rapto", apontando para que o potencial sequestrador fosse alguém muito próximo com conhecimento da zona.

Quando Daniel deu entrada no Hospital Central do Funchal, onde permaneceu durante cinco dias para observações, os primeiros exames de diagnóstico revelaram algum “grau de sofrimento muscular”, devido à sua exposição ao frio no período que antecedeu a sua descoberta. De resto, como confirmou o director de pediatria, José Luís Nunes, estava “clinicamente bem” e não apresentava sinais de maus tratos, nem de subnutrição.