Manaus é uma das grandes “fábricas” do Brasil, para bem e para o mal

Todos os televisores e boa parte dos smartphones e motos produzidos no país saem da zona franca de Manaus. Há muitas queixas sobre as condições de trabalho.

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A zona franca tem um impacto importante na economia de Manaus Nelson Garrido

São três da tarde de uma sexta-feira. É hora de troca de turno. Centenas de trabalhadores da Samsung passam o controlo de segurança à porta da fábrica, como se fossem fazer uma viagem intercontinental de avião. Colocam objectos e mochilas no tapete de raio-X e são revistados com recurso a um detector de metais. Todos os aparelhos da marca Samsung têm de ser selados à entrada, para evitar trocas ou reparações não autorizadas.

Outras dezenas de trabalhadores, muitos deles jovens, entram em autocarros da empresa, para regressarem a casa. Esta troca de turno dá uma ideia da dimensão da fábrica da Samsung. É uma das maiores do pólo industrial de Manaus, empregando 7000 trabalhadores, e a segunda maior da marca sul-coreana em todo o mundo.

Após uma revista, os repórteres do PÚBLICO entraram até à zona administrativa da fábrica, onde dezenas de funcionários trabalhavam afincadamente à frente de computadores. Mas, logo a seguir, a assessora de imprensa informou que não era possível visitar a fábrica. O segredo rodeia a produção nesta unidade da Samsung, embora se saiba que daqui saem televisores, smartphones e câmaras fotográficas, até porque tem havido denúncias sobre as condições de trabalho nesta fábrica.

O Ministério Público brasileiro está a investigar queixas que vão desde insultos aos funcionários até jornadas excessivas. Em 2013, alguns trabalhadores queixaram-se de ficarem dez horas de pé, de verificarem 2000 telemóveis por dia e de embalarem 2700 aparelhos por dia. Tudo questões a que a Samsung não responde.

A Samsung é uma das cerca de 600 fábricas do pólo industrial de Manaus. A cidade onde hoje Portugal defronta dos Estados Unidos é actualmente algo que tem pouco a ver com a ideia que se poderia ter de uma cidade no meio da Amazónia. Cresceu muito, tendo até o sexto PIB mais elevado do Brasil, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, relativos a 2011.

Muita dessa pujança económica vem da zona franca, onde, além da Samsung, estão instaladas marcas como a Nokia, LG, Pioneer, Panasonic, Honda e Yamaha. A zona franca emprega directamente cerca de 120 mil pessoas e, se juntarmos os trabalhadores indirectos, o número sobe para 600 mil pessoas (quase um terço da população de Manaus).

Criada em 1957 e colocada em prática dez anos depois, os incentivos fiscais da zona franca estão em vigor até 2023 e a Presidente Dilma Rousseff já propôs a extensão até 2073, debaixo da desconfiança da União Europeia, que se queixa de a zona franca prejudicar as exportações para o Brasil.
A Suframa, entidade que gere a zona franca, destaca a importância do pólo industrial no emprego da região e também nas receitas para o Estado do Amazonas. A facturação das empresas atingiu os 83.280 milhões de reais (27 mil milhões de euros) em 2013 — a gestora não revela qual é o volume de impostos pago, afirmando apenas que os benefícios são quase todos reduções de taxas e não isenções.

O sector electrotécnico é o mais importante, representando quase 35% da facturação, seguido pelo sector das motos (16,70%) e pelo químico (12,26%). Os números da produção são impressionantes: no ano passado, foram produzidos 14 milhões de televisores na zona franca, 145 milhões de CD’s e DVD’s, 23 milhões de telemóveis, 10 milhões de relógios, 4 milhões de microondas, 2,3 milhões de máquinas fotográficas digitais e 1,6 milhões de motos. Todos os telemóveis e rádios produzidos no Brasil saem daqui, acontecendo o mesmo com quase todas as motas.

 “A cidade cresceu exponencialmente. Tem emprego, mas com salários medíocres”, critica o escritor Milton Hatoum, desiludido com a forma como a sua cidade evoluiu. Há algo, no entanto, em que os críticos e os defensores da zona franca coincidem, usando praticamente as mesmas palavras: a zona franca salvou a floresta, porque oferece uma alternativa económica que não passa pelo corte de árvores.