Demissões no Hospital de S. João levam ministro a convocar reunião de emergência

Paulo Macedo tenta travar saída de presidente do conselho de administração e marcou para esta sexta-feira à tarde uma reunião com António Ferreira, mostrando-se disponível para discutir as matérias em questão.

Em Dezembro de 2003, Felícia deu entrada no Hospital de S. João onde viria a morrer
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Em Dezembro de 2003, Felícia deu entrada no Hospital de S. João onde viria a morrer Paulo Pimenta

As lideranças intermédias do Centro Hospitalar de São João (CHSJ) decidiram nesta quinta-feira afrontar o ministro da Saúde, demitindo-se em bloco, depois de terem participado numa reunião convocada na véspera, ao fim da tarde, pelo presidente do conselho de administração, António Ferreira.

Na reunião foram feitas intervenções violentas contra a “discriminação” de que os profissionais do Hospital de S. João dizem ser alvo por parte da tutela em relação a outros hospitais - como o de Santa Maria, de Lisboa, por exemplo - e acusaram o ministro Paulo Macedo de "continuar a não dar resposta aos compromissos assumidos” com a administração.

Os directores demissionários consideram que chegou a hora de dizer “basta”, “acabou”. Estas foram as palavras que mais se ouviram na reunião desta quinta-feira em que participaram todas as chefias do hospital e na qual António Ferreira fez o ponto da situação e deixou a ameaça da demissão, o que desencadeou a onda de demissões dos directores do hospital. Foi um gesto de solidariedade para com o presidente da administração, de acordo com relatos feitos ao PÚBLICO.

A notícia das demissões levou o ministro da Saúde a recuar e a dizer que “está disponível para ceder em todas as matérias que estão em discussão”, segundo asseguraram ao PÚBLICO fontes que acompanham a evolução da situação. Paulo Macedo telefonou nesta quinta-feira várias vezes a António Ferreira e inclusivamente enviou-lhe um e-mail a convocá-lo para uma reunião de emergência, a realizar nesta sexta-feira à tarde, para tratar do assunto.

Devido à circunstância de se encontrar ausente do país, em Bruxelas, o ministro mandatou o secretário de Estado da Saúde, Manuel Teixeira, para se reunir com António Ferreira, que se fará acompanhar pelo presidente da Administração Regional de Saúde do Norte.

As primeiras informações tornadas públicas apontavam para a demissão da própria administração, bem como da direcção clinica, para além de todas as chefias intermédias. Mas ao fim do dia desta quinta-feira, a administração do CHSJ confirmava apenas a demissão de oito unidades intermédias de gestão e de 58 directores de serviços clínicos e não clínicos do centro hospitalar.

No comunicado, o conselho de administração não esclarecia se pretendia também abandonar as funções, porque, a essa hora, já Paulo Macedo tinha contactado o gestor hospitalar. A administração afirmava “concordar com as razões apresentadas e que estava solidária com as lideranças intermédias”.

O texto precisa que "os responsáveis pelas oito unidades intermédias de gestão do Centro Hospitalar de São João (Unidades Autónomas de Gestão de Medicina, de Cirurgia e de Urgência e Medicina Intensiva, Centros Autónomos de Medicina Laboratorial e de Imagiologia, Clínica da Mulher, Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental e Hospital Pediátrico Integrado) e os 58 directores de serviços clínicos e não clínicos decidiram, em reunião efectuada na manhã do dia 19 de Junho, apresentar o seu pedido de demissão".

Segundo a administração, as razões desta demissão em bloco, que ocorreu numa reunião realizada esta quinta-feira de manhã, relacionam-se com o facto de "a qualidade na prestação de cuidados de saúde à população estar em risco", com "a desvalorização do Centro Hospitalar de São João e da sua missão no contexto da região e do país" e com "a impossibilidade da implementação do desenvolvimento estratégico do Centro Hospitalar de São João".

É ainda apontado como motivo para a saída em bloco dos dirigentes o " impedimento da acção gestionária do conselho de administração e das estruturas intermédias de gestão do centro hospitalar, por via da centralização administrativa, no que concerne a políticas de recursos humanos, investimentos, manutenção estrutural, infra-estrutural e de equipamentos e compras, que afectará gravemente a prossecução da sua missão e a actividade assistencial, apesar de, reiteradamente, o Centro Hospitalar de São João apresentar resultados económico-financeiros positivos e resultados clínicos e assistenciais ao nível dos melhores da Península Ibérica".

Um dos 58 directores de serviços clínicos disse ao PÚBLICO que, a partir de agora, não tomará “nenhuma decisão estrutural,garantindo que o mesmo acontecerá com os restantes directores”. “Isto está em agonia. Estamos a viver uma total desesperança e uma enorme desmotivação. Estão-se a esgotar as capacidades de se prestar um bom serviço aos doentes”, disse o médico, afirmando não entender a discriminação da tutela, quando o "Ministério da Saúde deve 120 milhões de euros ao Centro Hospitalar de São Joao”.

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