Uma história portuguesa, com certeza

Depois de semanas de impiedosa propaganda, os portugueses ficaram a saber que Portugal era, pelo menos, quase “favorito” e que a lesão de Ronaldo era a única preocupação séria. Dia sim, dia não, aparecia um jogador a gabar a unidade e o entusiasmo do grupo ou o próprio Paulo Bento a discursar à pátria, numa língua macarrónica mas tranquilizante: havia lá pelo Brasil uma grande equipa, muito “motivada”. E, como lembrava sempre o grupo de comentaristas que, de repente, nasceu do chão, tínhamos, além disso, o “melhor jogador do mundo”, de que as meninas gostavam e que se por acaso não estava a 110 por cento, estava com certeza a 100 por cento. Nestas circunstâncias propícias, só se pedia ao país que enchesse o peito de ar e apoiasse a selecção.

O patriotismo espúrio, que costuma borbotar sempre que é gratuito e demonstrativo, fez bolha e as pessoas declaravam na rua a sua esperança e a sua certeza de uma enorme alegria. Veio o Portugal-Alemanha e Portugal perdeu por 4 a 0, um resultado vexatório e único. E então a nuvem de peritos da televisão e da imprensa começou a contar a verdadeira história, que pouco antes cuidadosamente escondera. O cidadão comum foi então informado de que a nossa pobre equipa não passava de uma equipa de segunda categoria, substituível com vantagem pelos suplentes da Alemanha. Que faltavam Deco e Costinha e este e aquele, e os jogadores que Paulo Bento por teimosia ou malícia deixara de fora. Os treinos com a assistência de milhares de apoiantes também se criticaram com gravidade e raiva. Pior ainda: para espanto geral, acabou por se saber que a selecção portuguesa era a segunda mais velha do campeonato e que precisava de ser urgentemente renovada.

Substituindo uma dúzia de palavras, qualquer indivíduo com mais de seis neurónios pode ver que a aventura da selecção portuguesa duplica em miniatura a aventura do défice e da dívida. Primeiro, o silêncio, até cairmos sem remédio no fundo do poço. A seguir, o espanto fingido ou a corajosa afirmação de irresponsabilidade. E, no fim, acusações sobre acusações, para disfarçar o facto de que toda a gente colaborara no desastre. Nós, como Ronaldo, somos manifestamente os “melhores do mundo”. Só que, de quando em quando, nos cai a Alemanha na cabeça ou uma dívida inexplicável, que levará a pagar 30 e tal anos. Como raio estas coisas nos podem suceder?

Sugerir correcção
Comentar