Opinião

Os Estados Unidos no Médio Oriente

A palavra Levante, que significa Grande Síria, faz-nos lembrar o segundo erro estratégico recente dos americanos no Médio Oriente.

Apesar de Tony Blair já ter vindo a público dizer que nada tinha a ver com o que se está a passar no Iraque, a actual pressão do jihadismo neste país resulta do erro estratégico constituído pela intervenção militar norte-americana de 2003, em cuja decisão participou, aliás na companhia do nosso então primeiro-ministro José Manuel Barroso, além de Aznar e de George W. Bush.

A destruição do regime sunita laico de Saddam Hussein foi a sua consequência. Eram os baasistas no poder que continham as disputas religiosas entre sunitas e xiitas, fazendo com que o Iraque funcionasse como Estado-tampão às ambições de Teerão, o que garantia um certo equilíbrio no Médio Oriente entre as potências que lutam entre si pela hegemonia – Irão (xiita), Arábia Saudita (sunita) e Turquia, cuja principal preocupação é impedir a constituição de um Estado abrangendo todos os territórios de maioria curda, o maior dos quais se situa no interior das suas fronteiras.

Desmembrado este regime, o Iraque abriu-se à influência do Irão, do qual viria a ser o actual protectorado, e à consequente disputa sectária e religiosa contra o Governo xiita colocado no poder pelos norte-americanos, apesar de uma poderosa ofensiva dos jihadistas da “Al-Qaeda no Iraque” financiados pela Arábia Saudita. Washington conseguiu combatê-los com êxito, depois de ter obtido a aliança dos militares de Saddam, que se haviam organizado em forças de guerrilha, e das tribos iraquianas.

Com a retirada dos EUA do Iraque sem terem convencido o primeiro-ministro Maliki a formar um Governo que não fosse constituído apenas por xiitas, mas também envolvesse sunitas e curdos, ficou novamente aberta a porta à luta inter-religiosa, com as antigas forças de Saddam a mudarem de aliança e passarem a reforçar os al-qaedistas que, entretanto, adoptaram o nome “Emirado Islâmico do Iraque e do Levante” (EIIL) e continuam a ser financiados pelas monarquias do Golfo, principalmente pela mais importante – a Arábia Saudita.

A palavra Levante, que significa Grande Síria, faz-nos lembrar o segundo erro estratégico recente dos americanos no Médio Oriente. Tendo promovido uma insurreição contra o regime de Assad (segundo Israel, relativamente confiável, pois respeita as normas estabelecidas com outros Estados), Obama não lhe deu o indispensável apoio em instrução e armamento, receando que as armas fossem parar às mãos de jihadistas. Esta atitude fez com que os insurgentes ligados ao Ocidente estejam a ser progressivamente marginalizados a favor dos jihadistas apoiados pelas monarquias do Golfo, mobilizados em todo o mundo, nomeadamente na Europa, e dirigidos pelo líder do antigo emirado do Iraque, agora também alargado à Síria, que se transformaram na real ameaça a Damasco, controlando já muito do seu território.

Neste contexto de conflito crescente, a Turquia sente-se ameaçada pela influência que a independência de facto alcançada pelos curdos do Iraque pode ter nas posições do partido independentista dos curdos turcos. O que sai reforçado pelo facto de os peshmergas (combatentes das forças militares do Curdistão iraquiano) se terem apoderado da cidade de Kirkuk, considerada capital histórica de um Estado curdo independente, retirando-a das mãos dos jihadistas, que a haviam conquistado na sua caminhada aparentemente imparável em direcção a Bagdad.

Com os curdos praticamente independentes, acantonados na sua área e com o seu petróleo, os xiitas, com apoio dos EUA e do Irão, conseguirão defender a região mais a sul à volta de Bagdad também rica em combustíveis fósseis, mesmo sem a necessidade de empenhar forças terrestres norte-americanas, podendo os sunitas circunscrever-se, agora dominados pelos jihadistas, à actual área central do país – região pobre em combustíveis fósseis.

Este novo xadrez poderá criar o ambiente propício para que um ex-oficial de Saddam, liderando os restos do seu Exército, retire o poder aos al-qaedistas “ainda mais extremistas” do que os al-qaedistas normais (?). Isso seria possível se, neste quadro geral, os EUA aproveitassem a oportunidade para tentarem fazer finalmente uma coisa que não fosse outro erro estratégico. Em primeiro lugar, começassem por tentar atrair os ex-militares de Saddam para uma aliança, como já o fizeram anteriormente; depois, os apoiassem a derrubar esta nova Al-Qaeda (bem mais feroz, portanto menos “controlável” do que aquela que já podemos considerar “tradicional” e aparentemente mais “racional”, liderada por Zawari), retirando-lhe o controlo da região sunita.

Posteriormente, impor a Bagdad, embora com muitas dificuldades porquanto Maliki teria todo o apoio de Teerão para o impedir, a formação de um Governo inclusivo em que participassem curdos e sunitas, tendo em vista manter e reforçar o Estado unificado que invadiram há 11 anos. Se isto não for possível, iremos provavelmente assistir ao desmembramento sectário do Iraque, o que aumentará a possibilidade dos conflitos se manterem e alargarem.

Para os EUA, uma situação anárquica no Médio Oriente poderá, aparentemente, não ser grande problema, na medida em que se estão a transformar rapidamente em exportadores de combustíveis fósseis, e ser-lhes-ia vantajoso o aumento dos preços consequente da anarquia regional. Mas a Turquia – o seu principal aliado na região – ficaria em dificuldades com o aparecimento de um Estado curdo, e o jihadismo ganharia finalmente condições para criar o tal califado de que Bin Laden falava, o que seria uma ameaça para toda a região, mas também para a Europa, incluindo a Rússia, e até para os próprios norte-americanos, bem como os chineses. Enfim, poderia iniciar-se um novo período de terror global como resultado do lançamento desta nova Al-Qaeda.

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