Desde a II Guerra Mundial que não havia tantos refugiados no mundo

São 50 milhões as pessoas forçadas a deixar as suas casas. Metade são crianças.

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O ACNUR lamenta a incapacidade da comunidade internacional para resolver os conflitos responsáveis por este "salto quântico" no número de refugiados Majed Jaber/Reuters

A informação é avançada como um choque, numa tentativa para que conseguir que algo mude num mundo onde “os conflitos cada vez mais se multiplicam” e pouco tem sido feito para os resolver. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, há mais de 50 milhões de pessoas que foram obrigadas a deixar as suas casas, diz o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Se houvesse um país só para eles seria o 24º mais populoso do mundo, com mais habitantes do que Espanha, Colômbia ou África do Sul.

Ao todo, revela o ACNUR no Dia Mundial do Refugiado, são 51,2 milhões de pessoas – mais seis milhões do que em 2012 – que por causa da guerra, de perseguições várias, da fome ou da falta de água tiveram que deixar para trás as suas vidas, as suas famílias e muitas vezes os seus mortos. Metade são crianças e entre elas há cada vez mais a viajar sozinhas ou com outras crianças – só no ano passado foram registados 25 mil pedidos de asilo de menores não acompanhados.

A Síria, guerra fratricida e sanguinária a que o mundo já se habituou, é a principal responsável pelo “aumento maciço” de pessoas deslocadas, revelam as estatísticas da agência das Nações Unidas. Até Dezembro, nove milhões de sírios – 40% da população – foram obrigados a fugir aos combates, dos quais quase 2,5 milhões atravessaram a fronteira, passando de deslocados internos a refugiados (as duas categorias que, a par dos candidatos a asilo, integram a contagem do ACNUR). Os que desde então se lhes juntaram terão sido já suficientes para dar à Síria o recorde que durante décadas pertenceu ao Afeganistão, país que continua a ter mais de 2,5 milhões dos seus cidadãos a viver fora das suas fronteiras, a vasta maioria no Paquistão.

Mas à “mais grave crise humanitária da actualidade” juntaram-se no ano passado novos conflitos, como o do Sudão do Sul ou o da República Centro Africana. Guerras que provocaram novas vagas de refugiados, colocando “sob enorme pressão” quem os países de acolhimento – 86% dos que se exilaram vivem em nações em vias de desenvolvimento – e as agências humanitárias. Ainda recentemente, recorda o jornal Guardian, o Programa Alimentar Mundial (PAM) viu-se obrigado a reduzir a dimensão das rações que distribui em alguns campos por causa do aumento das necessidades.

E fora destas estatísticas, mas presa à actualidade, está uma nova guerra: na última semana centenas de milhares de pessoas – algumas fontes chegaram mesmo a falar em meio milhão – fugiram de Mossul, depois de a segunda maior cidade do Iraque ter sido ocupada pelos jihadistas, num êxodo que a organização Save the Children descreveu “como um dos maiores e mais rápidos movimentos de população no mundo da história recente”.

“Estamos a ser confrontados com os imensos custos de não pormos fim às guerras, de falharmos ou não conseguirmos evitar um conflito”, alertou António Guterres, alto-comissário para os refugiados, destacando que em 2013 se assistiu a um “salto quântico no número de pessoas deslocadas à força”. O antigo primeiro-ministro português fala mesmo num “perigoso défice de paz no mundo”, com a “multiplicação de novas crises, ao mesmo tempo que as velhas crises parecem não terminar”. E se algumas guerras são imprevisíveis há outros conflitos “que se antecipam sem que nada seja feito para evitar um conflito”, diz o alto-comissário, dando como exemplo a violência crescente na Nigéria.  

Lamentando “a paralisia do Conselho de Segurança em muitas crises cruciais”, Guterres avisa que as agências internacionais estão a chegar ao limite das suas capacidades e acrescenta: “Não existe uma solução humanitária. A solução é política e a solução passa por resolver os conflitos que tem gerado estes níveis dramáticos de deslocados”. “Sem isso, o número alarmante de conflitos e sofrimento maciço que estes números reflectem vai continuar”.