Morreu Gerry Goffin, o letrista cujos versos ajudaram a definir a pop clássica americana

Em parceria com Carole King compôs The loco-motion, Will you love me tomorrow ou (You make me feel) Like a natural woman

Gerry Goffin conheceu Carole King no final dos anos 1950 no Queens College, iniciando aí uma parceria da qual resultaram mais de 40 canções com lugar no top 40 americano
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Gerry Goffin conheceu Carole King no final dos anos 1950 no Queens College, iniciando aí uma parceria da qual resultaram mais de 40 canções com lugar no top 40 americano REUTERS/Fred Prouser

Will you love me tomorrow, das Shirelles. The loco-motion, de Little Eva. Pleasant valley Sunday, dos Monkees. (You make me feel) Like a natural woman, de Aretha Franklin. I wasn’t born to follow, dos Byrds. Uma diversidade de intérpretes, dois factos a uni-los. Foram êxitos de relevo na década de 1960 e todas foram obra da mesma dupla. Carole King, a compositora da música, e Gerry Goffin, o autor das letras.

Goffin-King é uma das assinaturas clássicas do período áureo, clássico, da pop americana. Inseridos nessa verdadeira linha de produção de música e fábrica de criatividade chamada Brill Building (o edifício de escritórios da Broadway onde compositores, produtores, músicos e agentes colaboravam e concorriam pelo próximo single a invadir as rádios), o casal Carole King e Gerry Goffin criou várias canções que ajudaram a definir uma era.

Casaram-se em 1959, ela com 17 anos, ele com 20, e separaram-se em 1968, mas os créditos nas canções supracitadas, pequena porção das dezenas que criaram ao longo da parceria, tornam-nos inseparáveis. Quinta-feira, a actual mulher de Gerry Goffin deu a notícia à AP: Goffin morreu esta quarta-feira, aos 75 anos, de causas naturais, na sua casa em Los Angeles. Carole King não demorou a emitir um comunicado. “Gerry Goffin foi o meu primeiro amor. Teve um profundo impacto na minha vida e no resto do mundo. Gerry era um bom homem e um dínamo de energia, cujas palavras e influência criativa ressoarão através das gerações vindouras”, escreveu a compositora que, após a separação, se tornaria uma artista a solo de relevo entre os cantautores americanos da década de 1970. “As suas palavras expressaram aquilo que muitas pessoas sentiam, mas não sabiam como dizer”, afirmou.

Gerry Goffin nasceu em Brooklyn em 1939 e o seu percurso até ao final da adolescência não prenunciava a carreira musical hoje celebrada. Alistou-se na Marinha americana, que abandonou para estudar Química no Queens College. Foi na universidade que conheceu Carole King. Nessa altura, a música já se atravessara no seu caminho. Procurava alguém que compusesse a música para um musical sobre a geração beat. Carole King, por sua vez, procurava quem escrevesse letras para as canções pop que criava ao piano. Começou aí uma colaboração que não tardaria a dar frutos, já Goffin abandonara a ideia do musical beatnick.

Certa noite, chega a casa e depara-se com um recado deixado por Carole King num gravador. Pedia-lhe que escrevesse uma letra para a melodia tocada ao piano que se seguia, composta para o girl group Shirelles. Estávamos em 1961. A assinatura Goffin-King não tardaria a revelar-se em grande estilo. Will you love me tomorrow foi o primeiro Nº 1 nas tabelas americanas composto pela dupla.

No ambiente criativo do Brill Building, onde a pressão por novos êxitos era uma constante, Gerry e Carole trabalharam freneticamente. A Will you love me tomorow sucedeu, no mesmo ano, Take good care of my baby, gravado por Bobby Vee e outro número um nas tabelas – ainda em 1961, ofereceriam Some kind of wonderful, mais tarde gravado por Marvin Gaye, aos Drifters.

Nesse período, tanto criavam canções para estrelas como as Crystals, produzidas por Phil Spector (He hit me (it felt like a kiss)), como, confiando totalmente no poder de uma canção, pediam à babysitter que se transformasse em cantora – e eis que surge, em 1962, uma Little Eva a cantar The loco-motion, hoje um standard que conta com versões de músicos tão díspares quanto os Grand Funk Railroad ou Kylie Minogue). Seguir-se-iam Don’t bring me down, gravada pelos Animals, Goin’ back, ouvida na voz de Dusty Springfield, ou as citadas Pleasant valley Sunday, (You make me feel) Like a natural woman e Wasn’t born to follow.

A separação do casal, em 1968, provocada pelas infidelidades de Gerry e por problemas psiquiátricos provocados pelo uso de LSD, que levaram a um internamento e ao diagnóstico como maníaco-depressivo, abriu caminho para o início da carreira a solo de Carole King. Gerry Goffin, apesar de um álbum em nome próprio lançado em 1973 (It Ain’t Exactly Entertainment), continuaria a ser essencialmente um letrista, compondo com Barry Goldberg I’ve got to use my imagination (um clássico de Glady’s Knight & The Pips), com Michael Masser Do you know where you’re going to, da banda-sonora de Mahogany, cantada por Diana Ross, ou Save my love for you, interpretada por Whitney Houston.

Gerry Goffin casou com aquela que era a sua actual mulher, Michelle, em 1995. Para a história da pop, porém, é à sua união a Carole King que está reservada a eternidade. Juntos, compuseram mais de cinquenta canções que encontraram lugar no top 40 americano. Juntos, ajudaram a definir a banda-sonora da era clássica da pop americana.