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Vida de bolseiro

Na universidade não há vida. As portas fecham-se. Os centros de investigação não funcionam. O pós-doutoramento é uma ficção útil para que quem manda não tenha de se preocupar com o desemprego de umas quantas pessoas que existem saltando de tese em tese

Receber uma bolsa de doutoramento é um bem precioso que deveria obrigar o bolseiro a frequentar uma missa de quinze em quinze dias. Ser pago para escrever uma tese e, de vez em quando, participar em eventos da maior elevação intelectual, tais como seminários e congressos. É uma dádiva.

Quatro anos com quase mil euros por mês e com disponibilidade para quase tudo, que a burocrática Fundação para a Ciência e Tecnologia obriga, através de relatórios, a comprovar que não se passou o tempo a comer amendoins. Pena que acabe. Pena que a minha bolsa acabe para o ano. Se entretanto não encontrar emprego, não terei direito a subsídio de desemprego. A única hipótese do ex-bolseiro de doutoramento é ganhar uma bolsa de pós-doutoramento, e depois disso entrar na meia-idade cravejado de artigos científicos no currículo, com pelo menos três dioptrias de miopia em cada olho e com o futuro assassinado pela ilusão de que a universidade o ampararia quando o resto falhasse.

Na universidade não há vida. As portas fecham-se. Os centros de investigação não funcionam. O pós-doutoramento é uma ficção útil para que quem manda não tenha de se preocupar com o desemprego de umas quantas pessoas que existem saltando de tese em tese.

O bolseiro de investigação tem um contrato e recebe dinheiro enquanto esse contrato for válido. Se for esperto, o bolseiro aproveita o tempo para escrever, para ler, para ver filmes, para namorar e, claro, para redigir a sua prestimosa tese que, da mesma maneira que demorou anos a ser escrita, demorará anos até que alguém para além do júri a leia. O bolseiro que não for esperto concentra-se apenas na tese, recebe o seu louvor e distinção e vai à sua vidinha: uma vidinha ultra-especializada (quem não aprecia temas como a descascagem da castanha na Etiópia do século XIX?) e imperdoavelmente ignorante.

Muitos fogem do país com a esperança de viverem de outra maneira. A pessoa de trinta anos carrega para o estrangeiro a sabedoria estampada na sua tese de doutoramento, candidata-se a uma bolsa e é feliz a escrever mais uma tese, mais um sem número de artigos. Regressa com quase quarenta. Talvez os portugueses o recebam de braços abertos. Nada como vir do estrangeiro empunhando um título académico.

Não é má a perspectiva de passar uns meses ou uns anos no estrangeiro, ainda mais se esse estrangeiro for Nova Iorque, cidade onde o bolseiro poderá compreender que existe vida para além da tese e da universidade. Mas um bolseiro é um bolseiro em qualquer lado. O problema não é ser precário, que isso são todos menos os ricos. O problema é não viver, não saber mais do que aquilo que se escreve numa maldita dissertação, não ter visto um filme, não ter ido a um festival de música, não ter aproveitado para namorar, para respirar o ar da cidade. O problema do bolseiro é o hiato entre a licenciatura e o fim do doutoramento ou do pós-doutoramento. O hiato entre os vinte e um ou vinte e dois e os quarenta anos. São muitos anos morto.