E o topo de um monte foi nivelado para receber um telescópio “extremamente grande”

Explosão do topo do Monte Armazones, no Chile, foi o início da construção do maior telescópio óptico, que observará o mesmo tipo de luz que os nossos olhos.

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A explosão vista de perto ESO
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A explosão vista ao longe, tal como foi difundida pela Internet ESO
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Ilustração do telescópio a construir no topo do Monte Armazones, no Chile AFP/ ESO

Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um… E a seguir à contagem decrescente, que se ia ouvindo esta quinta-feira à tarde através da transmissão em directo na Internet, o topo do Monte Armazones, no Norte do Chile, foi detonado com explosivos. À volta da explosão para nivelar o local onde vai ser construída a casa do próximo grande telescópio da Europa – seria tão espectacular como os acontecimentos que costumamos associar à astronomia? – tinha sido criada uma certa expectativa. Afinal, a explosão da montanha que vimos nas imagens pariu apenas uma nuvenzinha de poeiras.

Apesar deste anticlímax mediático, captado pelas câmaras muito à distância, o acontecimento não deixou de ser um marco importante na história do E-ELT – o European Extremely Large Telescope ou, se preferirmos uma designação em português, o Telescópio Europeu Extremamente Grande. A ser pensado há cerca de 15 anos, esta quinta-feira tratou-se de um arranque formal, com direito a cerimónia e discursos a 20 quilómetros do local da explosão. Depois, os convidados receberam binóculos para observarem o que se ia passar no topo do Monte Armazones. “O som da explosão será fraco e demorará cerca de um minuto a chegar aqui”, dizia-nos uma voz feminina.

Tal como toda a paisagem à volta, o local não tem uma única árvore, a cor dominante é um castanho-avermelhado e o que se viu sair do monte explodido esteve afinal ao mesmo nível do som anunciado: fraco. Mais ao perto, talvez a explosão até tenha sido mais cataclísmica, visto que o seu objectivo era reduzir o Monte Armazones em 40 metros e arrancar cerca de um milhão de toneladas de rochas e terra (as fotografias da explosão só foram difundidas perto das 22h30, hora de Lisboa, de quinta-feira).

Por ora, a estrada até ao cume do Armazones, a mais de 3000 metros de altitude, em pleno deserto de Atacama, é ainda uma linha ziguezagueante de terra batida. Mas os trabalhos de construção civil na infra-estrutura que levará até lá acima já começaram em Março deste ano. Agora, a explosão destinou-se tornar plano o cume do monte, para receber o telescópio. “O E-ELT iniciou o seu caminho!”, dizia-nos a voz da transmissão em directo, que em seguida nos convidava, a todos os que acompanhávamos a cerimónia, para um cocktail no local.

Portugal já disse, em 2013, que participará na construção deste telescópio, um projecto do Observatório Europeu do Sul (ESO), organização intergovernamental europeia com 14 países-membros e sede na Alemanha. Estima-se que custará 1083 milhões de euros (a preços de 2012). Além de Portugal, todos os outros países do ESO já disseram "sim" ao telescópio (Espanha foi o último, no início de Junho). Assim, as quotas anuais dos países-membros vão aumentar 2% ao ano, de forma cumulativa durante dez anos (a quota de Portugal, indexada ao produto interno bruto, foi de 1,8 milhões em 2012). Além disso, a contribuição adicional de Portugal para o E-ELT está estimada num total de 5,1 milhões de euros durante os dez anos que demorará a construção.

A expectativa é que o Brasil também entre para o ESO, tornando-se o primeiro país fora da Europa a pertencer a este clube de astronomia. Isto porque se espera que só o Brasil contribua com cerca de 30% dos custos de construção do E-ELT. A decisão de entrada no ESO foi aprovada pela Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e espera-se a palavra final do Congresso Nacional brasileiro. Neste momento, a proposta segue a sua tramitação na Câmara dos Deputados do Brasil: a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional aprovou-a em Setembro de 2013, tendo então ainda de ser analisada por uma série de comissões antes de seguir para o Plenário daquela câmara.

Independentemente da decisão final do Brasil, a construção do E-ELT vai para a frente, uma vez que esta decisão já foi tomada pelo ESO, em 2012. Mas a construção do próprio telescópio só começará quando 90% do dinheiro estiver garantido. Para o caso de o Brasil dizer “não”, o plano B que o ESO começou a discutir no ano passado passaria pela entrada de outros Estados-membros na organização.

“A construção do E-ELT oferece muitas oportunidades à indústria nos países-membros do ESO e do Chile”, sublinhou na cerimónia o director-geral, Tim de Zeeuw.

Espelho único de 40 metros
Seja como for, no cimo do Armazones será construída uma numa única cúpula para o E-ELT, onde ficará alojado o único espelho principal do telescópio: terá 40 metros de diâmetro, composto por 798 espelhos hexagonais. Não só nunca se construiu nada assim, em terra ou no espaço, como nenhum telescópio se lhe comparará em termos de resolução. Irá criar imagens 16 vezes mais nítidas do que o telescópio Hubble, que se encontra no espaço, portanto acima das perturbações causadas pela atmosfera nas observações astronómicas.

O E-ELT passará então a ser maior telescópio óptico – ou seja, que observará a luz visível, a mesma que os olhos humanos vêem – do mundo. Tal como o seu antecessor, o Very Large Telescope (VLT), situado no topo do Monte Paranal, a 20 quilómetros de distância do Monte Armazones, além da luz visível, também observará a radiação infravermelha. Igualmente construído pelo ESO, o VLT é composto por quatro espelhos principais, albergados em quatro cúpulas, que podem funcionar em conjunto como um único telescópio de 16 metros de diâmetro. Por enquanto, é o maior telescópio óptico e de infravermelhos do planeta, que será suplantado pelos 40 metros de diâmetro do espelho principal do E-ELT em 2023, quando se espera que capte a primeira luz.

“Este telescópio irá trabalhar até à era opaca do Universo, a época logo a seguir ao Big Bang, quando ainda não se tinham formado as estrelas”, disse na cerimónia o astrónomo chileno Luis Campusano. “Está destinado a ser uma das maravilhas do mundo.” E que descobertas esperar com o E-ELT?, perguntou retoricamente o astrónomo. “Esperemos o inesperado”, disse em seguida.

Por que fazer do deserto do Atacama a casa de muitos telescópios? É fácil de explicar: é um dos locais mais secos do planeta, pelo que as nuvens, a chuva e a humidade na atmosfera, que perturbam as observações astronómicas, não são aí um problema. O céu é de um azul incrivelmente intenso, sem uma única nuvem a pontuá-lo, e quando a noite cai a Via Láctea é um espectáculo.

Notícia actualizada às 20h22 de 19/06/2014