Opinião

O respeito devido à nossa cultura

Entre 17 e 26 vamos evocar o “acto de consciência” do cônsul de Bordéus, em 1940.

1. Não nos surpreendem os casos de atentado à cultura que vemos, o que não invalida a nossa indignação, e nos provoca também muito cansaço pelo facto de sermos levados a reagir, sucedendo-se os casos com tanta celeridade que aparentemente é quase impossível ter forças para vencer tanta estupidez. É com este cansaço que o poder conta, sabendo que de início tudo se processa com veemência, uma dinâmica que, pela desigualdade de meios, pode abrandar se alguns forem desistindo.

Refiro, a este propósito, a Biblioteca Municipal da Penha de França, em Lisboa, situada em dois pisos inferiores de uma casa senhorial do séc. XVII, e a ameaça que sobre si paira de ser transferida para o rés-do-chão de um edifício da EPUL (Habitação Jovem), na Rua Francisco Pedro Curado, n.º 6, a exigir ainda obras,  para que a junta de freguesia, actualmente a ocupar o piso superior, se assenhoreie de todo o espaço. Uma decisão camarária que não ouviu os munícipes, evitando assim a sua reacção, e negligenciou o dinheiro gasto, também dos munícipes, em investimentos para melhoramento do espaço da biblioteca.

Decidir o contrário seria impensável, segundo tais políticos, apesar de a CML ter aprovado, em 2012, “um programa estratégico que previa a duplicação da área da Biblioteca da Penha de França” (PÚBLICO de 26/4/2014).

A falta de Cultura é uma praga com a qual lidamos diariamente e que ameaça expandir-se, sem antídoto que a controle. Resta-nos resistir, não desmotivando mesmo perante algumas aparentes derrotas. Assinar a petição Contra o Encerramento da Biblioteca da Penha de França, em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT73388, é um dos meios de que dispomos.

2. Há quem se alimente da mentira, se orgulhe da corrupção, disfarce o roubo e não pague salário justo aos seus trabalhadores, esquecendo-se mesmo de o fazer. Uns são poder e outros a sua numerosa corte. Para todos eles, estas frases de um doutor da Igreja, Santo Ambrósio, dirigindo-se, no seu tempo (séc. IV), a outros seus iguais: “Tais são, ó ricos, os vossos benefícios: dais pouco e exigis muito. Esta é a vossa humanidade: roubais, até quando dizeis que socorreis. […] Sois, na verdade, muito misericordiosos! […] É homicídio negar a um homem o salário que lhe é necessário para viver.”

3. Se um professor pedir aos seus alunos que pesquisem na Wikipédia informação sobre Aristides de Sousa Mendes (ASM), sem antes ele próprio ter contado a história do cônsul de Bordéus e ter levado os alunos a ler e a analisar as cartas que escreveu, a propósito do inqualificável castigo de que foi alvo, os alunos deparar-se-ão com o exemplo flagrante da desinformação e do aproveitamento político da extrema-direita racista, em ascensão. O que foi um exemplo e um acto de grande nobreza é considerado um “crime”, por desobediência. Ficamos a saber que seria prioritário cumprir ordens, mesmo estando em causa a vida de milhares de refugiados, na sua maioria judeus.

Quem escreveu na Wikipédia mente, não só ao citar, de forma descontextualizada, frases de escritores que se debruçaram sobre A.S.M., em obras elogiosas do seu acto de consciência, mas também ao implicar o nome de investigadores, como o do historiador israelita Avraham Milgram, que esteve, em Março de 2014, no colóquio promovido pela Fundação Aristides de Sousa Mendes (FASM), na Faculdade de Economia em Coimbra, e subordinado ao tema Os Embaixadores Portugueses e a Segunda Guerra Mundial. Nessa sessão, Avraham Milgram elogiou francamente o cônsul de Bordéus, acentuando o facto de “ser um caso único”, por ter actuado sem qualquer apoio, institucional ou oficial, obedecendo apenas à sua consciência.

Evocando precisamente esse acto, D. Manuel Clemente celebrará uma missa, a 20 de Junho, às 19h, na Sé de Lisboa. A essa celebração, e respondendo ao apelo da FASM, associaram-se, até agora, vários bispos (Beja, Bragança, Viseu, Forças Armadas, Setúbal), muitos párocos, comunidades religiosas e as comunidades israelitas de Lisboa e do Porto. Releve-se não ser forçoso que a missa ou a oração seja celebrada a 20 de Junho, mas entre 17 e 26, prazo em que ocorreu a acção do cônsul de Bordéus, passando vistos a todos aqueles que procuravam fugir, em Bordéus ou em Bayonne ou mesmo junto à fronteira.

A nível internacional, fruto do contacto do nosso compatriota João Crisóstomo (EUA), mentor da iniciativa, aderiram até agora: Bélgica (Bruxelas), França (Bordéus); Luxemburgo (Luxemburgo); Itália (Roma); Brasil (Rio de Janeiro); EUA (Newark, Yonkers e Mineola).

Fica o convite a todos os que desejarem associar-se a esta iniciativa, evocadora do “acto de consciência” do cônsul de Bordéus, em 1940.

Professora