Nadir Afonso, no Porto, a cidade onde o arquitecto se fez pintor

Fundação Cupertino de Miranda inaugura nesta quarta-feira exposição dedicada à primeira década de trabalho do pintor, que morreu há seis meses.

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O Arquitecto, auto-retrato de Nadir Afonso, de 1942 DR
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Composição Geométrica, de Nadir Afonso, cerca de 1947 DR
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Composição Geométrica III (1947), de Nadir Afonso DR
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Demogorgon, de Nadir Afonso, 1947 DR
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Ailes (1948), de Nadir Afonso DR

Antes de chegar ao abstraccionismo, que o levou a afirmar, um dia, que o seu trabalho tanto poderia ser feito em Paris como em Lisboa ou Chaves, não sendo por isso menos cosmopolita, Nadir Afonso desenvolveu, no Porto, a estética que o haveria de colocar, no pós-guerra, a expor entre os melhores do seu tempo. E é com base no trabalho do artista plástico na cidade onde chegou em 1938 para estudar Arquitectura que a Fundação Cupertino de Miranda no Porto nos mostra a partir desta quarta-feira, na primeira exposição após a sua morte, em Dezembro passado, o processo de afirmação de Nadir enquanto modernista num país rural.

A evolução artística de Nadir Afonso corre em paralelo com as dúvidas entre a arquitectura, opção académica que viria a poder praticar com dois dos melhores do mundo – Le Corbusier e Oscar Niemeyer – e a pintura, que lhe ia tomando cada vez mais tempo. E, para o historiador Bernardo Pinto de Almeida, comissário desta exposição, é significativo que, aos 23 anos, o jovem que ainda procurava a sua zona de conforto – busca que o levaria a passar por uma fase mais expressionista, outra mais surrealista – tenha chamado O arquitecto ao seu auto-retrato. Um quadro que, claramente, conjuga já os elementos que viriam a fazer parte da sua idade maior, a cidade (real ou imaginada) e a abstracção geométrica que ele passaria a explorar singularmente, poucos anos depois.  

Bastou-lhe uma década. E isso, para Bernardo Pinto de Almeida – que está a preparar uma outra exposição antológica, para a inauguração da sede da Fundação Nadir Afonso, em Chaves –, é já de si espantoso. Entre o “miúdo” que aos 15/16 anos pinta uma casa na terra natal, numa rua que se dilui na perspectiva, distraindo-nos do ar realista (e quase campestre) do primeiro plano, e o pintor das formas geométricas de cores primárias, abstracção-limite do espaço urbano, passa muito pouco tempo. E, assinala, Nadir define-se, naquilo pelo que passará a ser (re)conhecido internacionalmente, ainda antes de sair do país, opção que tomará em meados da década de 40, para estudar nas Beaux Arts, em Paris.

Os anos seguintes, em que trabalhará, por exemplo, com Denise René, galerista famosa que expõe muitos dos grandes nomes da Segunda Escola de Paris, “na qual ele claramente se inscreve”, são fulcrais para a escolha que haveria de assumir mais tarde. O miúdo que terá escolhido Arquitectura porque um funcionário da faculdade o convenceu, no momento da inscrição, que Belas-Artes não lhe permitiriam ganhar a vida, nunca se convenceu das suas capacidades enquanto arquitecto. E, na verdade, nota Bernardo Pinto de Almeida, o seu lado de pintor vai-se afirmando de tal forma que Le Corbusier dispensa-o nas manhãs para pintar, “o que significa que reconhecia as suas qualidades artísticas”.

O arquitecto parte, como pintor, “para a abstracção, a partir da cidade, como Vieira da Silva”, assinala Bernardo Pinto de Almeida, explicando, assim, várias das escolhas patentes nesta primeira exposição. A Ponte Luís I está lá desde cedo, em múltiplos trabalhos, como se a obra de Théophile Seyrig, engenho humano a unir com ferro fundido as escarpas do Douro, alimentasse, ela própria, um jovem a tentar unir a opção profissional com a sua obsessão artística. E estão lá as ruas, edificado barroco a sugerir as curvas em que ele transforma, por exemplo, a Torre dos Clérigos: espécie de tocha flamejante, retratada nesses anos no Porto, de cunho vincadamente expressionista, a fazer lembrar o cinema de Murnau, nota o comissário da exposição.

O Porto foi assim uma cidade-estirador a partir da qual Nadir Afonso desenvolveu a sua consciência modernista, manipulando, a partir da rua, as suas capacidades de domínio das formas. Fê-lo, como explica Bernardo Pinto de Almeida, num processo reflexivo, em convívio estreito com outros, como o amigo Fernando Lanhas, pintor abstraccionista e mais um dos vultos dessa segunda tentativa de introdução do modernismo em Portugal, após a morte, prematura, de Amadeo de Souza-Cardozo, em 1918, vítima da gripe espanhola. “Havia, no Porto, nesses anos, uma forte consciência modernista”, insiste o comissário desta exposição que, enquanto historiador de arte, lamenta que a cidade não tenha um grande museu do modernismo.  

Foi também pela consciência da importância deste movimento de ruptura, que teve na cidade outros nomes, para além de Nadir Afonso, que a Fundação Cupertino de Miranda decidiu avançar este ano com um programa que procura criar no Porto o espírito das Cidades em Transição, seguindo as teses de John Hopkins. Este defendia que cada cidade deve encontrar e valorizar as características que a tornem mais capazes de resistir às crises. E a instituição apresenta o exemplo de três artistas plásticos – Nadir, Dominguez Alvarez e Júlio Resende – para mostrar, em meados do século no século XX, uma cidade à frente do seu tempo, que fez da cultura a sua janela para a contemporaneidade.

Para a presidente desta fundação, Maria Amélia Cupertino de Miranda, o Porto tem todas as condições para manter aberta esta janela para o cosmopolitismo, fazendo da arte um pólo de desenvolvimento social e económico. Ou não fosse esta a cidade de Aurélio da Paz dos Reis e de Manoel de Oliveira, no cinema, e, na arquitectura, da escola do Porto, na qual se fizeram, a partir de Fernando Távora, Souto de Mora e, principalmente Siza Vieira, lembra Bernardo Pinto de Almeida, que considera feliz a opção por Siza para o projecto da sede da Fundação Nadir Afonso, em Chaves.